domingo, 6 de abril de 2014

ESBOÇO DE UMA SERPENTE – Paul Valéry


Entre as árvores, a brisa embala
A víbora que me veste...
Um sorriso, que o dente trinca
E o apetite apresta ao teste.
Sobre o Jardim arrisca a cauda
E meu triângulo esmeralda
Mostra a língua de duplo fio...
Cobra serei, mas cobra arguta
Cujo veneno, ainda que vil,
Deixa longe a douta cicuta!

(tradução de Augusto de Campos)


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Paco de Lucia - Entre dos aguas (1976) full video



Como admiradora da dança em todas as suas formas de expressão, acabei conhecendo o trabalho de Paco de Lucía através do flamenco. E sorte minha: tive a oportunidade de vê-lo num show aqui em SP, nos anos 80: a velocidade de seus dedos ao tocar era algo hipnotizante! Músico que se declarava avesso aos exercícios ao violão, era disciplinadíssimo e rigoroso em seus shows! Fazia questão de chegar bem antes aos locais de suas apresentações e aquecia seus dedos no instrumento durante duas horas. O resultado, óbvio, não poderia ser outro senão a perfeição!

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Giuseppe Arcimboldo


Muitas pessoas já viram os famosos quadros com retratos de pessoas com suas feições formadas por frutas e flores, certo? O quadro acima chama-se Vertumnus, retrato de Rodolfo II e foi pintado em 1590, há incríveis 424 anos por Giuseppe Arcimboldo (Milão 1527 - 1599).

Para quem conhece um pouco de história da arte sabe que a imagem não se encaixa com a época. Apenas no final do século 19 com as Vanguardas Europeias que as artes foram desconstruídas e recriadas. A pintura deixava de decorar casas, segundo Picasso, e virava uma arma. Uma arma subversiva, de ideias... é claro.

Arcimboldo fez parte do maneirismo, corrente artística que explorava temas espirituais e ligados à religiosidade católica, como vemos em El Grecco e Tintoretto, dois outros expoentes maneiristas. O italiano, no entanto, buscava referencia no ocultismo e as religiões pagãs europeias criando retratos antropomorfos nos quais faces humanas são sugeridas pela representação dos relevos, árvores, pedras, frutas, flores e vegetais, criando uma obra original e bem a frente de seu tempo.






quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Red White & Blue Simon Rumley 2010

Ninguém passa imune aos filmes do cineasta britânico Simon Rumley. Para uns seus filmes: Distúrbio Fatal e Little Deaths e Vermelho, Branco &Azul, tema deste post, ganhou defensores e conseguiu status de cult, ao mesmo que foi massacrado e taxado como apelativo e artificial por outros.

Vermelho, Branco &Azul – uma alusão às cores da bandeira norte americana – narra a tragédia americana envolvendo os três protagonistas: Nate (Noah Taylor, assustador), um ex-soldado que vive de subempregos enquanto pensa se aceita ou não um emprego na CIA; Erica (Amanda Fuller), uma garota com tendências autodestrutivas que tem dificuldade em manter as pernas fechadas e Franki (Marc Senter) um jovem músico que vê sua banda dar os primeiros passos para o estrelato.


Na trama, que começa como um drama com cara indie e descamba para o horror psicológico bem pesado, narra as aventuras sexuais de Erica, seu relacionamento com Nate, o único homem que a trata com decência e, por isso, é ignorado por ela, e suas aventuras sexuais. Em uma delas, ela conhece Franki e tem uma relação com o jovem. Este evento vai servir de estopim para uma história vingança que deixariam os filmes do Tarantino em um nível café com leite no que se trata de violência.


O filme joga bem com os sentimentos dos espectadores. É impossível não detesta-los em algum trecho do filme e, em contrapartida, não contemporizar com eles em outros. Erica fazendo roleta russa com sexo é detestável, Por outro lado a explicação que move suas atitudes nos deixa condescendente com sua situação. Em outro trecho, nos sentimos esperançosos com o relacionamento que floresce em ela e Nate. É a mesma coisa com Franki. Uma hora, somos condescendentes com sua situação, e em outras detestamos sua presunção e inconsequência.



A única personagem que passa longe desse filtro é Nate. Quando o diretor vai dando as dicas do seu passado, percebemos que, apesar de suas boas intenções com Erica, ele é um cara frio, flexível moralmente e capaz dos atos mais abomináveis para conseguir vingança. Palmas para a atuação assustadora e impressionante de Noah Taylor. Sua persona é alegoria perfeita para as cores da bandeira americana. Sua violência desenfreada é cara da sociopolítica aplicada pelos Estados Unidos hoje em dia. Um filmão!   
          

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Ex Drummer - Koen Mortier 2007


Alucinante, violento, indigesto e perturbador, Ex-Drummer, filme do diretor flamengo Koen Mortier baseado em novela homônima de Herman Brusselmans é um filme singular, capaz de conciliar sentimentos extremos em quem assiste. Eu por exemplo, enchi-me de repugnância e deleite ao acompanhar a epopeia de banda punk formada por deficientes, que está à procura de um baterista para tocar em um concerto.

O conjunto é formado pelo vocalista de língua presa Koen. Um sádico viciado em sexo que tem como hobby espancar e violentar mulheres. Jan, o baixista gay, tem um problema no braço. Ele não consegue dobrá-lo. O guitarrista Ivan tem uma surdez psicológica, e, apesar de ser um junk inveterado e de tratar sua mulher e filha como merda é, aparentemente, o mais “normal” do bando e todos moram em subúrbio imundo da Bélgica.


Do outro lado da cidade, em um bairro de alto padrão vive Dries, um escritor de sucesso, casado com uma mulher lindíssima e chegada num sexo a três. Dries atravessa uma crise criativa e, apesar de tocar nenhum instrumento, aceita ser baterista da banda, pois vê nessa associação a chance de achar inspiração para voltar a escrever. À medida que o livro de Dries vai avançando ele fica obcecado com a história e começa a manipular os outros integrantes da banda provocando os seus piores instintos.


Koen Mortier dá um show de direção. Destaque para a montagem delirante que, em alguns momentos vem de “trás para frente” desafiando a ordem cronológica do filme. A Câmera do diretor também abusa dos movimentos deixando tudo lisérgico, anticonvencional e frenético. O roteiro também é um ponto alto do filme, passeia pelo inferno desses personagens, cheio de diálogos instigantes, situações delirantes embalados a muito Rock and Roll, Drogas e ultraviolência.



Por fim Ex-drummer é filme que estuda a miséria humana sem demagogia, sem levantar bandeiras e sem ser moralista. Talvez este seja seu principal trunfo. Apontar os mecanismos do sistema que deixam os marginais mais a excluídos da sociedade. Um filme para ser visto e revisto com muito amor.