quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Holy Motors – Leos Carax (2012)



Depois de uma década longe dos longas-metragens, o realizador francês Leo Carax retorna em grande estilo e no auge de sua criatividade. Seu último filme “Holy Motors” (2012) é um dos mais autênticos, ousado, hermético e simbólico filme dos últimos anos (um legitimo mindfucker, como diria um amigo meu) e figura carimbada na lista de melhores filmes do ano.


Filme de visual impressionante e de um roteiro deliciosamente ambíguo, narra -ou melhor- desnarra a história do Senhor Oscar (Denis Levant, em fantástica interpretação), um homem que atravessa Paris dentro de uma limusine e interpreta os mais variados tipos e insólitas situações. Em um momento ele é uma pedinte, em outro um mendigo louco.  Depois é um rico industrial, um pai de família entre outras personagens em outros acontecimentos. O Sr. Oscar vive todas as vidas possíveis, exceto a sua própria.


Falar mais sobre o filme só estragaria a experiência que a película que Carax oferece. Holy Motors é o tipo de filme que permite ao espectador montar e imaginar a “mensagem” que o artista deseja passar. Uma homenagem à Paris, ao sonhos, ao cinema e até uma possível alusão ao mundo virtual, onde se é possível criar avatares para viver várias vidas. Todas essas interpretações são possíveis ao filme. Eu, no entanto, prefiro ver o filme sem preconceitos. Sem a necessidade de “entender” o que se passa, e só aproveitar e mergulhar no mundo louco e selvagem de Carax. Deixar entrar na mente e sentir o cérebro queimar de alegria e fúria.   

Filmaço!

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Survive Style 5+ (2004) Gen Sekiguchi



Survive Style 5+ longa de estreia do cineasta japonês Gen Skiguchi, é um ótimo exemplo de como o cinema contemporâneo oriental (principalmente o japonês e sul-coreano) está mais comprometido com preceitos artísticos, explorando de forma arrojada a linguagem e usando temas de forma ousada e inovadora, ao invés de privilegiar os preceitos financeiros, como vemos em parte do cinema feito no ocidente e que quase sempre resulta e filmes óbvios e pouco interessantes.


O filme apresenta cinco linhas narrativas que se encontram em um determinado momento, (fórmula bem utilizada no cinema ocidental) impregnadas de ironia e absurdo. Na primeira vemos Aman (Tadanobu Asano), um homem que passa o filme inteiro tentando matar sua esposa, que se recusa a morrer e sempre volta para quebrar o pau com ele; na segunda vemos uma publicitária que tira de fatos corriqueiros de sua vida as ideias mais absurdas para os seus comerciais; na terceira vemos três amigos indecisos sexualmente que vivem à procura de aventura; na quarta vemos um pai de família (Ittoku Kishibe) que, depois de ser hipnotizado, acredita que é um pássaro; e por fim, na última linha narrativa, vemos um matador de aluguel bem anticonvencional (Vinnie Jones, hilário) que anda acompanhado de um tradutor para ajudá-lo a ameaçar seus alvos.


Survive Style 5+ é uma comédia surreal e anárquica que ironiza a sentido (ou a falta dele) na vida, a morte, a família e o próprio cinema, resultando em uma mistura engraçada e inteligente ao mesmo tempo. Survive Style 5+ ainda conta com uma fotografia exagerada, beirando o kitsh, uma trilha sonora psicodélica e uma montagem acelerada, que somados ao roteiro surreal, as interpretações alucinadas, acentuam ainda mais a originalidade do filme e resultam em um dos filmes mais malucos e engraçados dos últimos tempos, sem deixar de levar aqueles que assistem à reflexão. Filmão!



segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Moonrise Kingdom (2012) Wes Anderson



Wes Anderson pertence àquele seleto grupo de artistas que conseguem criar um universo pessoal e coerente às suas propostas tanto estéticas quanto temáticas. Seu último filme, Moonrise Kingdon carrega toda essa assinatura, tecnicamente vemos os elaborados traveling sensacionais, a fotografia e direção de arte caprichadíssimas. Tematicamente vemos as personagens inadequadas social e sentimentalmente e seu humor nonsense e melancólico.

O filme narra com frescor e beleza a história do primeiro amor entre o órfão Sam Shakuskyi (Jared Gilman), um escoteiro que abandona seu grupo para fugir com Suzy Bishop (Kara Hayward). Os dois têm 12 anos e se conheceram em uma peça teatral, se apaixonaram, trocaram cartas de amor e decidiram fugir, agitando New Pezance, uma ilha tranquila bucólica na Nova Inglaterra.

Os jovens são desajustados, cada um ao seu modo. Sam é arredio e não consegue se relacionar com sua família adotiva e com os colegas escoteiros. Suzy, que se sente incompreendida, vive em uma família em crise. Seus pais (Bill Murray e Frances McDormand- ótimos, como sempre) se tratam por “doutores” e não têm intimidade. Os jovens apesar gostos diferentes - Kara é sofisticada e amante das artes e Sam é um aventureiro habilidoso – encontram um no outro uma saída para insatisfação e para a sensação de inadequação que todos nós, humanos, temos e independente da idade, tentamos driblar encontrado alguém que nos ame do jeito que somos.


Destacam-se no filme, a deslumbrante fotografia de Robert Yeoman, carregada de cores fortes que transformam as cenas do filme em quadros de rara beleza, além de ajudar a compor o clima de pureza e tristeza presentes no roteiro. Outro acerto e outra grande característica de Anderson é o comprometimento que o diretor consegue arrancar dos seus elencos para com os roteiros. No filme, vemos grandes nomes do cinema americano, Bruce Willis, Tilda Swinton e Edward Norton, aderirem ao universo excêntrico, maneirista e particular do realizador.

Moonrise Kingdom é um filme delicioso.  Desperta nostalgia e emociona à medida que o jovem casal pré-adolescente nos faz lembrar de nossos primeiros passos nesse terreno sinuoso e difícil que são os relacionamentos amorosos. Sem dúvida, um os melhores do ano.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Morphine - Cure For Pain on Jools Holland

"From Boston, Massachusetts; we are MORPHINE at yours services."


"Someday there'll be a cure for pain
That's the day I throw my drugs away"

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

David Bowie - Space Oddity "Andrew Kolb"

Para aqueles que, como eu, são fãs do Bowie.
Versão de Space Oddity com infinitos níveis de formidabilidade.



http://www.kolbisneat.com/ para conhecer mais o artista.

domingo, 18 de novembro de 2012

CYPRIAN NORWID - O Piano de Chopin



 A Antoni C...

La musique est une chose étrange!
Byron

L‘ art? ... c’ est l’ art — et puis, Voilà tout.
Béranger

I

Estive em tua casa nos penúltimos dias
Da trama sem desfecho – –
– Cálidos,
Como o Mito, pálidos,
Como a aurora... Quando o fim da vida sibila ao começo:
“N ã o  t e  r o m p e r i a  e u  –  n ã o  –  E u,  t e  r e-a l ç a r i a!...”

II

Estive nesses dias, penúltimos, em tua
Casa, e parecias – de novo e de novo então –
A lira que Orfeu chegado o instante
Rejeita, mas que forçada-forceja pela canção,
E ainda vibra relutante
As suas
Cordas: duas – mais duas –
E pulsa:
“A s s o m o
D o  s o m?...
S e r á  t a l  M e s t r e!...  q u e  t o c a...  m a l g r a d o  a  r e p u l s a?...”

III

Estive em tua casa nesses dias, Frederico!
E tua mão... assim
Tão clara – e leve – rico
Alabastro e espasmos de pluma –
Mesclava-se com as teclas numa
Névoa de marfim...
E eras a forma que ressuma
Do ventre do mármore,
Antes de esculpida,
E revida
Ao cinzel do Gênio – Pigmalião que nunca morre!

IV

E no que tocaste – quê?disse o tom – quê? dirá, mas a cor de
Um eco escoa a esmo,
Não como abençoavas, tu mesmo,
A cada acorde –
E no que tocaste: tal foi a rude
Perfeição Pericleana,
Como se antiga Virtude,
No umbral duma choupana
De lariço, a si
Mesma dissesse: “R e n a s c i
  N o  C é u,  e  a  p o r t a  –  s e  i r m a n a
  À h a r p a,  a  v e r e d a  –  à  f a i x a...
  V e j o  u m a  h ó s t i a  –  a t r a v é s  d o  t r i g o  s e m  c o r...
  E m a n u e l  j á  s e  a c h a
  N o  c i m o  d e  T a b o r!”

V

E nisso era a Polônia, retesa
Desde o zênite da História dos
Homens, num arco-íris de êxtase – –
A Polônia – d o s  f e r r e i r o s  t r a n s f i g u r a d o s!
Ela mesma, adorada,
Abelhi-dourada!...
(Mesmo ao cabo do ser – eu teria certeza!...)

VI

E – eis aí – cantaste – – e não mais te alcança
O meu olhar – – mas ainda ouço:
Algo?... como rusga de crianças – –
São porém as teclas em alvoroço
Pelo anseio da canção que não se fez:
E arfando convulsas,
Oito – cinco por dez –
Murmuram: “E l e  s e  p ô s  a  t o c a r?  o u  n o s  r e p u l s a??...”

VII

Tu! – perfil-do-Amor,
Que tens por nome P l e n i t u d e;
Isto – que na Arte atende por
Estilo, porque permeia a canção, urde
As pedras... Tu!  –  E r a, como a História soletra,
E onde o zênite da História não investe,
Chamas-te a um só tempo: o  E s p í r i t o  e  a  L e t r a,
E “consummatum est”...
Tu! P e r f e i t a-c o n s u m a ç ã o, seja o que
For, e onde?... Teu selo...
Em Fídias? Chopin? Davi?
Na cena de Ésquilo? Em ti
Sempre – se vingará: o ANELO!...
– A marca desse globo – carente:
A  P l e n i t u d e?... o fere!
Ele – prefere
Começar e prefere lançar o sinal – mais à frente!
A espiga?... madura feito um cometa fugaz,
Mal sente
A brisa a tocá-la, chove sementes
De trigo, a própria perfeição a desfaz...

VIII

Eis aí – olha, Frederico!... é – Varsóvia:
Sob a estrela que flameja,
À luz que, insólita, envolve-a – –
– Olha, os órgãos da Igreja;
Olha! Teu ninho: ali – os sobrados
Patrícios velhos como a P u b l i c a-r e s,
O chão surdo e pardo
Das praças, e a espada de Segismundo nos ares.

IX

Olha!... nos becos os potros
Do Cáucaso irrompem
Como andorinhas defronte das tropas, ao sopro
Da tempestade; c e m  –  o u t r o s
C e m  – –
O fogo fulge, hesita, infesta
O prédio – – e eis aí – contra a fachada
Vejo testas
De viúvas empurradas
Pelo cano
Das armas – – e vejo entre a fumaça no gradil
Da sacada um móvel como um caixão erguerem... ruiu...
Ruiu – T e u  p i a n o!

X

Ele!... que exaltava a Polônia, tomada
Desde o zênite da História dos
Homens, no êxtase da toada –
A Polônia – dos ferreiros transfigurados;
Ele mesmo – ruiu – no granito da calçada!
– E eis aí: como o nobre
Pensamento é presa certa
Da fúria humana, o u  c o m o  –  s é c u l o  s o b r e
S é c u l o  –  t u d o,  q u e  d e s p e r t a!
E – eis aí – como o corpo de Orfeu,
Mil Paixões rasgam dementes;
E cada uma ruge: “E u
N ã o!...  E u  n ã o” – rangendo os dentes –


Mas Tu? – mas eu? – que surda
O canto do juízo:“A l e g r i a,  n e t o s  q u e  v i r ã o!...
G e m e u  –  a  p e d r a  s u r d a:
O  I d e a l  –  a t i n g i u  o  c h ã o – –"