quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Holy Motors – Leos Carax (2012)



Depois de uma década longe dos longas-metragens, o realizador francês Leo Carax retorna em grande estilo e no auge de sua criatividade. Seu último filme “Holy Motors” (2012) é um dos mais autênticos, ousado, hermético e simbólico filme dos últimos anos (um legitimo mindfucker, como diria um amigo meu) e figura carimbada na lista de melhores filmes do ano.


Filme de visual impressionante e de um roteiro deliciosamente ambíguo, narra -ou melhor- desnarra a história do Senhor Oscar (Denis Levant, em fantástica interpretação), um homem que atravessa Paris dentro de uma limusine e interpreta os mais variados tipos e insólitas situações. Em um momento ele é uma pedinte, em outro um mendigo louco.  Depois é um rico industrial, um pai de família entre outras personagens em outros acontecimentos. O Sr. Oscar vive todas as vidas possíveis, exceto a sua própria.


Falar mais sobre o filme só estragaria a experiência que a película que Carax oferece. Holy Motors é o tipo de filme que permite ao espectador montar e imaginar a “mensagem” que o artista deseja passar. Uma homenagem à Paris, ao sonhos, ao cinema e até uma possível alusão ao mundo virtual, onde se é possível criar avatares para viver várias vidas. Todas essas interpretações são possíveis ao filme. Eu, no entanto, prefiro ver o filme sem preconceitos. Sem a necessidade de “entender” o que se passa, e só aproveitar e mergulhar no mundo louco e selvagem de Carax. Deixar entrar na mente e sentir o cérebro queimar de alegria e fúria.   

Filmaço!

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Survive Style 5+ (2004) Gen Sekiguchi



Survive Style 5+ longa de estreia do cineasta japonês Gen Skiguchi, é um ótimo exemplo de como o cinema contemporâneo oriental (principalmente o japonês e sul-coreano) está mais comprometido com preceitos artísticos, explorando de forma arrojada a linguagem e usando temas de forma ousada e inovadora, ao invés de privilegiar os preceitos financeiros, como vemos em parte do cinema feito no ocidente e que quase sempre resulta e filmes óbvios e pouco interessantes.


O filme apresenta cinco linhas narrativas que se encontram em um determinado momento, (fórmula bem utilizada no cinema ocidental) impregnadas de ironia e absurdo. Na primeira vemos Aman (Tadanobu Asano), um homem que passa o filme inteiro tentando matar sua esposa, que se recusa a morrer e sempre volta para quebrar o pau com ele; na segunda vemos uma publicitária que tira de fatos corriqueiros de sua vida as ideias mais absurdas para os seus comerciais; na terceira vemos três amigos indecisos sexualmente que vivem à procura de aventura; na quarta vemos um pai de família (Ittoku Kishibe) que, depois de ser hipnotizado, acredita que é um pássaro; e por fim, na última linha narrativa, vemos um matador de aluguel bem anticonvencional (Vinnie Jones, hilário) que anda acompanhado de um tradutor para ajudá-lo a ameaçar seus alvos.


Survive Style 5+ é uma comédia surreal e anárquica que ironiza a sentido (ou a falta dele) na vida, a morte, a família e o próprio cinema, resultando em uma mistura engraçada e inteligente ao mesmo tempo. Survive Style 5+ ainda conta com uma fotografia exagerada, beirando o kitsh, uma trilha sonora psicodélica e uma montagem acelerada, que somados ao roteiro surreal, as interpretações alucinadas, acentuam ainda mais a originalidade do filme e resultam em um dos filmes mais malucos e engraçados dos últimos tempos, sem deixar de levar aqueles que assistem à reflexão. Filmão!



segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Moonrise Kingdom (2012) Wes Anderson



Wes Anderson pertence àquele seleto grupo de artistas que conseguem criar um universo pessoal e coerente às suas propostas tanto estéticas quanto temáticas. Seu último filme, Moonrise Kingdon carrega toda essa assinatura, tecnicamente vemos os elaborados traveling sensacionais, a fotografia e direção de arte caprichadíssimas. Tematicamente vemos as personagens inadequadas social e sentimentalmente e seu humor nonsense e melancólico.

O filme narra com frescor e beleza a história do primeiro amor entre o órfão Sam Shakuskyi (Jared Gilman), um escoteiro que abandona seu grupo para fugir com Suzy Bishop (Kara Hayward). Os dois têm 12 anos e se conheceram em uma peça teatral, se apaixonaram, trocaram cartas de amor e decidiram fugir, agitando New Pezance, uma ilha tranquila bucólica na Nova Inglaterra.

Os jovens são desajustados, cada um ao seu modo. Sam é arredio e não consegue se relacionar com sua família adotiva e com os colegas escoteiros. Suzy, que se sente incompreendida, vive em uma família em crise. Seus pais (Bill Murray e Frances McDormand- ótimos, como sempre) se tratam por “doutores” e não têm intimidade. Os jovens apesar gostos diferentes - Kara é sofisticada e amante das artes e Sam é um aventureiro habilidoso – encontram um no outro uma saída para insatisfação e para a sensação de inadequação que todos nós, humanos, temos e independente da idade, tentamos driblar encontrado alguém que nos ame do jeito que somos.


Destacam-se no filme, a deslumbrante fotografia de Robert Yeoman, carregada de cores fortes que transformam as cenas do filme em quadros de rara beleza, além de ajudar a compor o clima de pureza e tristeza presentes no roteiro. Outro acerto e outra grande característica de Anderson é o comprometimento que o diretor consegue arrancar dos seus elencos para com os roteiros. No filme, vemos grandes nomes do cinema americano, Bruce Willis, Tilda Swinton e Edward Norton, aderirem ao universo excêntrico, maneirista e particular do realizador.

Moonrise Kingdom é um filme delicioso.  Desperta nostalgia e emociona à medida que o jovem casal pré-adolescente nos faz lembrar de nossos primeiros passos nesse terreno sinuoso e difícil que são os relacionamentos amorosos. Sem dúvida, um os melhores do ano.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Morphine - Cure For Pain on Jools Holland

"From Boston, Massachusetts; we are MORPHINE at yours services."


"Someday there'll be a cure for pain
That's the day I throw my drugs away"

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

David Bowie - Space Oddity "Andrew Kolb"

Para aqueles que, como eu, são fãs do Bowie.
Versão de Space Oddity com infinitos níveis de formidabilidade.



http://www.kolbisneat.com/ para conhecer mais o artista.

domingo, 18 de novembro de 2012

CYPRIAN NORWID - O Piano de Chopin



 A Antoni C...

La musique est une chose étrange!
Byron

L‘ art? ... c’ est l’ art — et puis, Voilà tout.
Béranger

I

Estive em tua casa nos penúltimos dias
Da trama sem desfecho – –
– Cálidos,
Como o Mito, pálidos,
Como a aurora... Quando o fim da vida sibila ao começo:
“N ã o  t e  r o m p e r i a  e u  –  n ã o  –  E u,  t e  r e-a l ç a r i a!...”

II

Estive nesses dias, penúltimos, em tua
Casa, e parecias – de novo e de novo então –
A lira que Orfeu chegado o instante
Rejeita, mas que forçada-forceja pela canção,
E ainda vibra relutante
As suas
Cordas: duas – mais duas –
E pulsa:
“A s s o m o
D o  s o m?...
S e r á  t a l  M e s t r e!...  q u e  t o c a...  m a l g r a d o  a  r e p u l s a?...”

III

Estive em tua casa nesses dias, Frederico!
E tua mão... assim
Tão clara – e leve – rico
Alabastro e espasmos de pluma –
Mesclava-se com as teclas numa
Névoa de marfim...
E eras a forma que ressuma
Do ventre do mármore,
Antes de esculpida,
E revida
Ao cinzel do Gênio – Pigmalião que nunca morre!

IV

E no que tocaste – quê?disse o tom – quê? dirá, mas a cor de
Um eco escoa a esmo,
Não como abençoavas, tu mesmo,
A cada acorde –
E no que tocaste: tal foi a rude
Perfeição Pericleana,
Como se antiga Virtude,
No umbral duma choupana
De lariço, a si
Mesma dissesse: “R e n a s c i
  N o  C é u,  e  a  p o r t a  –  s e  i r m a n a
  À h a r p a,  a  v e r e d a  –  à  f a i x a...
  V e j o  u m a  h ó s t i a  –  a t r a v é s  d o  t r i g o  s e m  c o r...
  E m a n u e l  j á  s e  a c h a
  N o  c i m o  d e  T a b o r!”

V

E nisso era a Polônia, retesa
Desde o zênite da História dos
Homens, num arco-íris de êxtase – –
A Polônia – d o s  f e r r e i r o s  t r a n s f i g u r a d o s!
Ela mesma, adorada,
Abelhi-dourada!...
(Mesmo ao cabo do ser – eu teria certeza!...)

VI

E – eis aí – cantaste – – e não mais te alcança
O meu olhar – – mas ainda ouço:
Algo?... como rusga de crianças – –
São porém as teclas em alvoroço
Pelo anseio da canção que não se fez:
E arfando convulsas,
Oito – cinco por dez –
Murmuram: “E l e  s e  p ô s  a  t o c a r?  o u  n o s  r e p u l s a??...”

VII

Tu! – perfil-do-Amor,
Que tens por nome P l e n i t u d e;
Isto – que na Arte atende por
Estilo, porque permeia a canção, urde
As pedras... Tu!  –  E r a, como a História soletra,
E onde o zênite da História não investe,
Chamas-te a um só tempo: o  E s p í r i t o  e  a  L e t r a,
E “consummatum est”...
Tu! P e r f e i t a-c o n s u m a ç ã o, seja o que
For, e onde?... Teu selo...
Em Fídias? Chopin? Davi?
Na cena de Ésquilo? Em ti
Sempre – se vingará: o ANELO!...
– A marca desse globo – carente:
A  P l e n i t u d e?... o fere!
Ele – prefere
Começar e prefere lançar o sinal – mais à frente!
A espiga?... madura feito um cometa fugaz,
Mal sente
A brisa a tocá-la, chove sementes
De trigo, a própria perfeição a desfaz...

VIII

Eis aí – olha, Frederico!... é – Varsóvia:
Sob a estrela que flameja,
À luz que, insólita, envolve-a – –
– Olha, os órgãos da Igreja;
Olha! Teu ninho: ali – os sobrados
Patrícios velhos como a P u b l i c a-r e s,
O chão surdo e pardo
Das praças, e a espada de Segismundo nos ares.

IX

Olha!... nos becos os potros
Do Cáucaso irrompem
Como andorinhas defronte das tropas, ao sopro
Da tempestade; c e m  –  o u t r o s
C e m  – –
O fogo fulge, hesita, infesta
O prédio – – e eis aí – contra a fachada
Vejo testas
De viúvas empurradas
Pelo cano
Das armas – – e vejo entre a fumaça no gradil
Da sacada um móvel como um caixão erguerem... ruiu...
Ruiu – T e u  p i a n o!

X

Ele!... que exaltava a Polônia, tomada
Desde o zênite da História dos
Homens, no êxtase da toada –
A Polônia – dos ferreiros transfigurados;
Ele mesmo – ruiu – no granito da calçada!
– E eis aí: como o nobre
Pensamento é presa certa
Da fúria humana, o u  c o m o  –  s é c u l o  s o b r e
S é c u l o  –  t u d o,  q u e  d e s p e r t a!
E – eis aí – como o corpo de Orfeu,
Mil Paixões rasgam dementes;
E cada uma ruge: “E u
N ã o!...  E u  n ã o” – rangendo os dentes –


Mas Tu? – mas eu? – que surda
O canto do juízo:“A l e g r i a,  n e t o s  q u e  v i r ã o!...
G e m e u  –  a  p e d r a  s u r d a:
O  I d e a l  –  a t i n g i u  o  c h ã o – –"

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

KIN-DZA-DZA - UM DÉBITO COM O CINEMA RUSSO


Por Neurocancer


Kin-dza-dza é um "cult movie" de ficção-científica lançado em 1986 que obteve êxito no leste europeu e passou completamente despercebido nos demais continentes. A obra-máxima do diretor Georgiy Daneliya ao longo do anos arregimentou fãs mundo afora, destacando-se como um expoente do gênero. Mesmo assim, trata-se de um filme injustiçado cuja versão em DVD saiu apenas na Rússia e no Japão. Narra a história de dois russos (Tio Vova e O Violinista) que viajam para o planeta "Pluke" na galáxia de "Kin-dza-dza" após apertar o dispositivo de um aparelho de teletransporte. No deserto planetário, os dois forasteiros se deparam com alienígenas semelhantes aos seres humanos e que vão acompanhá-los ao longo da jornada. A sociedade do planeta é formada por "Chatlanians" e  "Patsaks", tendo aqueles privilégios hierárquicos sobre estes. Com um orçamento reduzido e muita criatividade, Daneliya nos brinda com um filme crítico e engraçado que segue na contramão do estilo adotado pelo compatriota e, também cineasta, Andrei Tarkowsky. Merecem destaque a espaçonave alienígena no formato de uma rolha com hélice e rodas e o dicionário "Chatlo-Patsak", recursos técnicos e materiais que fogem do lugar comum utilizado em grande parte dos filmes deste gênero. Durante a jornada, os dois terráqueos descobrem que palitos de fósforo valem ouro em "Pluke" e a passagem garantida de volta à Terra.


O infame sininho colocado no nariz dos "Patsaks" como símbolo de inferioridade perante os "Chatlanians"  insere-se como uma crítica comparativa e valorativa do ser humano com as demais espécies. Além da viagem interplanetária, Daneliya valeu-se de um "loop" temporal para dar um toque humanitário ao filme e mostrar que as diferenças entre as espécies pode significar um elo de união. Os recursos visuais e cenográficos de "Kin-dza-dza" podem ser datados, mas sua proposta permanece atual dentro da narrativa bem humorada e inteligente do enredo. E quem assistir e não ficar repetindo "koo" por aí é porque está com um péssimo humor.


Segue o pequeno dicionário "Chatlo-Patsak"

Chutle - unidade de moeda
Ecilop - polícia
Ecikh - prisão em formato de caixa
Gravitsapa - artefato para viagem intergaláctica
Lutz - combustível da espaçonave
Kappa - dispositivo da espaçonave
Ketseh - palito de fósforo
Koo - todas as palavras que constam e não constam no dicionário
Kyu - uma maldição
Pepelatz - espaçonave interplanetária
Tentura - parte oposta do universo
Tsapa - artefato para a espaçonave e diversas máquinas
Tsuk - sininho usado no nariz
Tranklucator - armamento Plukanian
Visator - detector de Chatlanians e Patsak


Novas caras (e novas ideias) no Delicadamente Mal Educado




É com grande prazer que anuncio que o DME passa a contar com mais um colaborador. Neurocancer.

Neurocancer foi um dessas amizades que fiz através da internet e que a partir de conversas percebemos grande afinidade e interesses comuns. Dai houve o convite prontamente aceito, o que honrou e alegrou plenamente nós aqui do Blog.

Essa parceria não tem validade. Como tudo na vida, as coisas vão acontecendo e tendo vida própria, e isso é que vai definir sua durabilidade, no entanto, nosso desejo é que, como diria o poeta, "seja eterno enquanto dure". hahaha...

Bem-vindo, Neurocancer!

Rock and Roll...


sábado, 22 de setembro de 2012

Cosmópolis – 2012 – David Cronemberg




"um rato se tornou a unidade monetária.”

Não são poucos os filmes que pintam o fim do sonho americano. Cosmópolis, novo filme de cineasta canadense David Cronemberg, trilha esses mesmos caminhos, transformando-o em um pesadelo esquizofrênico, niilista e deformado, bem ao estilo deste terrível (no melhor sentido possível) diretor.

Baseado no romance futurista e anticapitalista homônimo de Don de Lillo, o filme narra um dia na vida do jovem Eric Parcker (Robert Pattinson, em interpretação notável diante de um papel difícil), um biliardário especulador da bolsa de valores que decide atravessar Nova York para cortar o cabelo no mesmo dia que o presidente dos Estados Unidos está na cidade e que está acontecendo uma carreata de luto pela morte de ídolo pop e, por conseguinte, o transito está mais caótico que de costume.

Parcker vai atravessando a cidade lentamente dentro de sua superequipada limusine e vai cruzando com as mais curiosas personas que fazem parte de sua etérea e sem conteúdo vida. Sua esposa (Sarah Gadon), que pouco vê e é praticamente uma estranha para ele. Sua consultora de Arte (Juliette Binoche) com quem tem um embate sobre arte versus capital e sua Guru pessoal (Samantha Morton), com quem troca divagações. Não existem limites para milionário. Ele ameaça comprar uma capela para se apropriar de um afresco que ficaria bem em seu apartamento, mata um funcionário na frente de outras pessoas e transa dentro de limusine branca sem demonstrar a menor satisfação. Eric Parcker é um zumbi sem quase emoção e sem medo.

Filme mais voltado para reflexão, que discute a dormência nas relações humanas, consequência do estágio final do capitalismo.  Existe pouca ação em Cosmópolis. Muitos diálogos, alguns até desconexos e um sentimento corrente de horror e tensão, que vai aumentando até o seu apoteose memorável, quando Eric encontra Benno Levin (Paul Giamatti), um ex-funcionário frustrado e psicótico que quer matá-lo.  

O cinema de David Cronemberg apresenta uma evolução, uma depuração estilística e temática deixando de lado as deformações e monstros e explorando as deformidades internas das pessoas.  Cosmópolis é aquele tipo de filme que não vai agradar todo mundo.  Torceram o nariz para ele em Cannes esse ano e, certamente, não vai agradar as fãs do galã Robert Pattison, mas o filme, sem dúvida, é um prato cheio para aqueles que gostam de um cinema mais “marginal” e bem acabado e com enorme potencial para se tornar mais um Cult dirigido pelo Canadense.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Kill List (2011) - Ben Wheatley




A primeira impressão de quem começa a assistir ao filme britânico Kill List (2011) é que se trata de um drama sobre uma família disfuncional com problemas financeiros e de relacionamento.  Ledo engano. O filme é um dos mais sufocantes e enervantes dos últimos tempos.

Segundo filme do cineasta Ben Wheatley, conta a história de Jay (Neil Maskel) um ex-militar que hoje ganha a vida como matador de aluguel. Jay está sofrendo de depressão por conta de um trabalho mal sucedido no passado, o que torna seu relacionamento familiar quase impossível. Vive quebrando o pau com Shel (Myanna Buring), sua esposa, e não consegue dar atenção ao filho pequeno. A tensão aumenta ainda mais com a crise financeira que o casal atravessa.

A trama começa mudar e tomar cores mais sombrias com a visita de Gal (o ótimo Michael Smiley), amigo de Jay desde os tempos do exercito e sócio nos negócios atuais. O visitante fala para o amigo sobre um novo trabalho.  A princípio Jay recusa, mas é pressionado por sua esposa e pelo amigo e cede. Os dois vão encontrar o cliente, um homem misterioso com poucas palavras. O homem passa à dupla uma lista com três nomes que devem ser liquidados. Na lista nada de nomes, apenas está escrito: Padre, Bibliotecário e Membro do Parlamento (metáfora para as importantes instituições sociais, acredito), e faz Jay assinar o contrato com seu próprio sangue.
A partir deste lúgubre encontro, o filme passar ter cores oníricas. O ritmo do filme aumenta em velocidades e narrativa vai ficando truncada, beirando a confusão, retratando o pesadelo infernal em que se encontra Jay.

Falar mais sobre o enredo de Kill List só atrapalharia a surpresa que esse grande filme trás. No entanto, posso garantir que a apótese do filme é uma das mais brutais tanto psicologicamente como fisicamente dos últimos tempos e que ecoa o grande filme de terror setentista The Wicker Man de Robin Hardy.

Kill List é representante da nova safra de filmes ingleses de terror, que, como acontece na França e na Ásia (principalmente na Coréia e no Japão), dá uma aula aos grandes estúdios de cinema americano de como fazer filmes. Bons atores, argumentos inventivos e desafiadores que trazem mais dúvidas que respostas e apostar em realizadores ousados ainda é o melhor caminho para realizar bom filmes.

Desculpe o desabafo, caros leitores, mas não aguento mais ver falsos documentários com adolescentes acéfalos e matadores imortais.





terça-feira, 18 de setembro de 2012

Os Intocáveis -The Intochables / França -2011



Responda rápido: um filme sobre a amizade improvável de um milionário aristocrata tetraplégico e um jovem da periferia meio malandro que vive à custa do seguro-desemprego pode ser engraçado? Nas mãos da dupla Eric Toledano e Olivier Nakache, o filme Os Intocáveis (The Intouchables), dribla esse mote potencialmente melodramático, e cria o filme mais divertido que vi esse ano, sem desperdiçar o potencial emocional  do filme.

Baseado no romance autobiográfico Le second souffle suivi du Diable gardien ( no Brasil, O Segundo Suspiro), de Philippe Pozzo di Borgo que narra a História de Philippe (François Cluzet), homem rico de origem nobre que se torna tetraplégico depois de uma acidente. Em uma seleção para escolher um enfermeiro para atendê-lo, conhece Driss (Omar Sy, em interpretação sensacional), um imigrante senegalês desajustado que está lá, na verdade, não para arrumar o emprego, e sim para conseguir uma assinatura em um papel para que ele continue recebendo um seguro-desemprego.
Philippe convence Driss a trabalhar com ele um mês, pois o senegalês era o único que o tratava com diferença. Driss aceita de olho na grana que vai ganhar e do choque dessas realidades opostas nasce uma amizade que rompe barreiras e muda radicalmente a vida das personagens do filme.


Os Intocáveis é aquele tipo de filme que te faz pensar e te diverte ao mesmo tempo. O roteiro, que foi escrito pela dupla de diretores, tem como principal mérito transmitir honestidade ao discutir o abismo entre o mundo dos dois homens e abre mão de procurar a “lágrima fácil”. Em nenhum momento é criado um clima de comoção apelativa ao redor dos problemas das personagens, como acontece em quase todos os filmes em temas similares.

Outro grande acerto é a química entre o elenco, sobretudo, entre os dois protagonistas. Francois Cluzet perfeito. Seu Philippe transmite um misto de melancolia e sobriedade que se choca com a surpreendente, carismática e genial interpretação de Osmar Sy.  
Grande Filme!

sábado, 15 de setembro de 2012

Take Shelter – 2011 Jeff Nichols



Como espectador de filmes, eu gosto de ser manipulado. Gosto de ser levado a acreditar em alguma coisa, gosto de ser surpreendido com alguma nova informação que contraria o que acreditava antes. Gosto de ser jogado de um lado para o outro e ser enganado como uma criança. Hitchcock era especialista nisso. Filmes como Psicose, Vertigo e Rebeca, por exemplo, ele faz isso conosco de maneira deliciosa. Deliciosamente enganado, é como me senti ao assistir a essa pequena obra-prima chamada Take Shelter, do jovem diretor americano Jeff Nichols.

O filme conta a historia de Curtis LaForche (Michael Shannon) que vive numa pequena cidade de Ohio, com a sua mulher Samantha (Jessica Chastain) e a filha Hannah, de seis anos, que é surda. Curtis é um cara bacana. Pai de família dedicado, trabalhador e bom amigo. Em certo momento, ele passa a ter sonhos terríveis e violentos com uma tempestade negra que vai acabar com tudo, o que o impulsiona a construir o abrigo no quintal da sua casa, para salvar sua família. Paralelamente, descobrimos que a mãe do personagem tem problemas mentais que  começaram a se manifestar na mesma idade que Curtis tem agora. 

A obsessão de Curtis para construir o abrigo e seu comportamento começam a incomodar as pessoas que o cercam, sua esposa e seus amigos. Ele mesmo começa a duvidar de sua sanidade e nós, telespectadores, somos arrastados de um lado para outro sem saber se Curtis é realmente um profeta ou apenas um maluco.

O filme de Nichols tem muitas qualidades, mas o que faz a diferença é o elenco e o roteiro. O elenco é competentíssimo e afiado. Não é de hoje que Michael Shannon vem demonstrando que é um dos melhores atores (e um dos mais subestimados) da sua geração e da carga de loucura e mistério necessários para o desenvolvimento do seu personagem, enquanto Jessica Chastain destila sensibilidade para o seu papel e a cada filme que faz se consolida como grande atriz. O roteiro sutil e preciso mostra o que é necessário para instalar a dúvida sem entregar muito. 

O filme ainda deixa duas grandes constatações: a primeira é uma lição para os estúdios de cinema; grandes ideias ainda são mais importantes para criação de bons filmes do que grandes orçamentos. A outra é que Jeff Nichols é um nome a ser observado.  


sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Cem anos de “Eu” Augusto dos Anjos



Nesse ano, faz um século que o paraibano Augusto dos Anjos lançava, com a ajuda financeira do irmão, Odilon, o seu único livro “Eu”, uma das obras mais importantes do século passado e a mais estranha da poética brasileira, sem sombra de dúvidas.

Augusto era um poeta de difícil leitura. Não “poetizava” seus versos. Não tinha versos bonitinhos, apesar de seus sonetos serem rigorosamente parnasianos esteticamente, pela perfeição métrica e sinuosidade das rimas, sua temática era delirante, muito além dos simbolistas, com quem é alinhado por alguns estudiosos, dos Anjos cantava a morte, decomposição do corpo a tristeza e a tragédia de viver.

Abaixo, um dos mais representativos poemas do escritor:


Versos Íntimos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável 
Enterro de tua última quimera. 
Somente a Ingratidão — esta pantera — 
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável, 
Mora, entre feras, sente inevitável 
Necessidade de também ser fera. 

Toma um fósforo. Acende teu cigarro! 
O beijo, amigo, é a véspera do escarro, 
A mão que afaga é a mesma que apedreja. 

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga, 
Escarra nessa boca que te beija! 

Lou Reed – Berlin (1973)





“Só há duas tragédias na vida: uma é não se conseguir o que se quer, a outra é consegui-lo." – Oscar Wilde.

O aforismo genial acima ilustra bem o que se passava com Lou Reed no ano de 1973.
O músico norte-americano havia lançado o que para muitos sua obra-prima, Transformer (1972), disco excepcional aclamado por público e crítica e estava, enfim, de paz com o mundo. No entanto, “há duas tragédias para um homem”...


Insatisfeito por sua imagem estar fortemente associada à de David Bowie (Que havia produzido seu álbum anterior), deprimido por seu casamento com Bettye Kronstad de estar definhando em sua frente e furioso pelas pressões que RCA, sua gravadora, faziam para que ele fizesse outro disco tão rentável quanto o anterior, Reed resolveu seguir um caminho mais complicado. Resolveu fazer Berlin, um disco temático, levemente autobiográfico, que contava a história de um casal de junkies, autodestrutivos, violentos e suicidas nas ruas de Berlin.


É claro que o álbum comercialmente foi um fracasso, mas artisticamente foi sensacional. Por um lado quase enterrou a carreira de Reed (novamente), por outro, esse disco é um dos mais influentes da história do Rock. O disco é perfeito desde o primeiro segundo da primeira música até o último segundo da última. Musicalmente é calmo cheio de melodias delicadas, mas suas letras são puro terror, cantadas com um delicado niilismo e fúria.

Abaixo, "Caroline Says"  em trecho do filme Berlin, dirigido por Julian Schnabel em 2007.