quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Ken Russell R.I.P.



Domingo passado, dia 27/11/2011, o cinema mundial perdeu um de seus realizadores mais originais e ousados, o cineasta inglês Ken Russell.

Contestador e irônico, Russell fez filmes dos mais variados gêneros. Realizou musicais (Tommy e Lisztomania), dramas (Os Demônios e Mulheres Apaixonadas), ficção científica (Viagens Alucinantes) e o suspense (Gothic), sempre com uma carga autoral muito forte. Tinha como característica o questionamento aos dogmas religiosos, as paixões dominadoras e desacerbadas, uma forte carga erótica e um exagero lisérgico nas imagens.

Ken Russell teve uma rápida passagem pelo cinema americano. Fez dois filmes: a ficção científica psicodélica e descontrolada “Viagens Alucinantes” – e o denso “Crimes de Paixão”, no entanto o estilo pouco comercial e pouca sutileza do cineasta não agradou os grande$ e$túdio$. “Voltou à Inglaterra onde fez alguns poucos e bons filmes, como, por exemplo, o sobrenatural “Gothic” e o sensual “A Última Dança de Salomé”.

Além dos belos filmes, Russell deixa um exemplo de coragem e ousadia. O cineasta não abria concessão para os críticos e nem para os espectadores. Filmava com máxima honestidade e convicção o que ele achava melhor. Algumas vezes o resultado era exagerado e chocante, é verdade, mas quando acertava, criava obras de plena beleza. Não uma beleza apolínea de fácil digestão, mas uma beleza terrível, caótica e assombrosa.  

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A Máquina do Mundo - Carlos Drummond de Andrade

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco


se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas


lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,


a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.


Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável


pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar


toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.


Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera


e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,


convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,


assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,


a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de


teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,


olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,


essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo


se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”


As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge


distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos


e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber


no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,


e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:


e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,


tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.


Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,


a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;


como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face


que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,


passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes


em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,


baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.


A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,


se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.


*Publicado originalmente em Claro Enigma.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O Inquilino - 1976 - Roman Polanski


O Doppelgänge, ou, simplesmente, o duplo, é um dos temas mais utilizados e mais consagrados nas artes, principalmente na literatura e no cinema, em todos os tempos. Escritores como Stevenson, Borges, Dostoievski e Poe criam verdadeiros clássicos com essa temática. No cinema, os exemplos mais icônicos são: o poético “A Dupla Vida de Veronique” do mestre Kieslowski, o clássico expressionista “Estudante de Praga”, filme que teve duas versões: uma de 1913 e a melhor em 1926, estrelada pelo maravilhoso Conrad Veidt, e O Inquilino de 1976, pequena obra-prima sinistra de 1972 arquitetada pelo grande Roman Polanski e objeto de estudo deste humilde post.

No filme, conhecemos o polaco Trelkvsky (o próprio Polanski em interpretação alucinada), um burocrata de uma companhia de seguros que está à procura de um lugar para morar. Ele encontra um apartamento perfeito, porém para vir a morar lá, precisa esperar que se decida a morte da antiga dona, uma moribunda chamada Simone Choule, que tentou matar-se pulando deste mesmo apartamento.

Com a morte de Simone, Trelkovsky vai morar no apartamento. No entanto, o jovem começa a ficar obcecado pela antiga moradora e passa a acreditar que seus vizinhos estão conspirando para que ele se torne o inquilino anterior, com o objetivo de levá-lo também ao suicídio. O homem fica tão obcecado que começa a destruir sua personalidade e começa a se ver como o seu duplo espiritual, ou seja, passa a se ver como a Simone.

O filme é um prato cheio para os amantes das teorias psicanalíticas. Em um dos diálogos mais emblemáticos do filme, vemos Trelkvsky embriagado: Diz-me, em que preciso momento é que um indivíduo deixa de ser o que pensa que é? Cortas-me o braço. Digo ‘Eu e o meu braço’. Cortas-me o outro braço. Eu digo ‘Eu e os meus dois braços’. Tu tiras-me o estômago, os rins, presumindo que isso era possível e eu digo, ‘Eu e os meus intestinos’. E, agora, se me cortares a cabeça, eu diria ‘Eu e a minha cabeça’ ou ‘Eu e o meu corpo’? Que direito tem a cabeça de se apelidar eu mesmo?
Foda, não?

Completam ainda o elenco: Isabelle Adjani (Stella), inacreditavelmente feia, Melvin Douglas (Monsieur Zy), Jo Van Fleet (Madame Diouz) como os vizinhos sinistros que enlouquecem Trelkovsky. A atordoante fotografia de Sven Nykvist utilizando de sombras e tons escuros transformam o filme em uma experiência angustiante.  
O filme fecha com “chave de ouro” a “Trilogia dos Apartamentos” do diretor, inaugurada em 1965, com o genial “Repulsa ao Sexo”, seguido pelo excepcional o “Bebê de Rosemary” de 1969.     

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Alice ou a Última Fuga - 1977 - Claude Chabrol

O realizador francês Claude Chabrol tem normalmente seu nome associado à Nouvelle Vague, movimento cinematográfico que deu corpo e alma ao “cinema de autor”, suas críticas ácidas à burguesia e ao cinema de suspense. Em 1977, no entanto, em uma rara inclusão pelo cinema fantástico, fez um pequeno filme obscuro e pouco badalado “Alice ou a última fuga” (Alice ou la dernière fugu), uma pequena e assustadora obra-prima do gênero.

O Filme narra à história Alice Carol (clara alusão à Alice, de Lewis Carroll), interpretada de forma blasé e carregada no erotismo pela eterna “Emmanuelle” Sylvia Kristel, no auge de sua beleza, como uma esposa que decide abandonar o marido e a vida burguesa que já não suporta. Ela parte de carro, sofre um pequeno acidente, e vai parar em uma enorme e assustadora casa. Na mansão, Alice é recepcionada por um senhor que parecia já estar a sua espera e passa a viver um pesadelo bizarro e incrivelmente perturbador.

O filme é uma pequena pérola do cinema fantástico. Hermético e aberto a varias interpretações, tem uma conclusão sinistra que remete a ótimos filmes de horror feitos nos USA nos anos 70, como o clássico absoluto “O Bebê de Rosemary” de Polanski e a Sentinela dos Malditos, aliados ao surrealismo e ao delírio formal dos livros da série Alice de Lewis Carroll. Uma bela mistura!