sábado, 15 de outubro de 2011

Melancholia/ 2011 – Lars Von Trier



“O mundo é mau de fato, sendo assim, ninguém vai sentir falta dele” Justine, personagem de Kirsten Dunst no filme, tentando dar uma animada na irmã Claire (Charlotte Gainsbourg).

Dois anos após dar um tapa na orelha do mundo com o seu Anticristo, Lars Von Trier desfere agora uma pancada na boca do estômago da humanidade com o seu último trabalho, Melancolia.

O filme é divido em um prólogo e dois capítulos. O prólogo é representação de um sonho revelador da personagem Justine. Onírico e estiloso e retoma esteticamente o filme anterior do diretor, O Anticristo. Cada um dos capítulos tem o nome de umas das irmãs que são as personagens principais do filme.

A narrativa do primeiro, que se chama Justine, se inicia com o dia do seu casamento, mais especificamente em sua chegada à festa. Tudo muito suntuoso e belo, até que as máscaras começam a cair e os familiares e amigos da Justine começam a mostrar suas verdadeiras faces frente à câmera cambaleante de Trier. Sua mãe (magistralmente interpretada por Charlotte Rampling) é uma misantropa avessa à família. Seu Pai (John Hurt) é um fanfarrão alucinado que chama todas as mulheres de Beth, Claire (Charlotte Gainsbourg, novamente em interpretação genial) sua irmã organizada e controladora e Jack (Stellan Skargard), seu chefe, a segue pela festa pedindo que conclua um trabalho.

O Comportamento de Justine (Kirsten Dunst em interpretação premiada em Cannes merecidamente) também não é normal. Ela anda cambaleante pelo salão. Some das festividades para tomar um banho, depois para tirar uma soneca e por fim transa com um convidado ao invés de consumar o matrimônio com o seu noivo.
No final desse capítulo nos é revelado algo que justifica, de certa forma, essa festa surreal. Um planeta chamado Melancolia ruma em direção à órbita de terra e a chance de nosso planeta virar pó é iminente.

No segundo Capítulo, o casal formado por Claire e John (Kiefer Sutherland) tentam viver com o filho e Justine os poucos dias que restam para o cataclismo. Cheios de incertezas e desespero, com a proximidade da morte os papéis das irmãs se invertem. Claire passa a ser confusa e desequilibrada e Justine, apesar de deprimida e melancólica, indiferente e consciente.

Mais que um filme sobre o fim do mundo, Trier fez um estudo sobre a condição humana, a incompletude que nos acompanha, nossa limitação frente à morte e ao universo e sobre o silêncio de Deus. Não é um simples filme, mas uma experiência cinematográfica impar.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

O Limite da Liberdade e o Politicamente Correto

Qual é o limite da liberdade de expressão?
Existe aquela famosa frase usada a exaustão, porém, bem aplicada à questão acima: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las.” Atribuída ao iluminista Voltaire.
Até onde é aceitável que uma pessoa se manifeste e exponha seu “ponto de vista”, mesmo que essa opinião desafie o senso comum?

É evidente que o direito de expressão não possa ser maior ou violar os direitos de personalidade. Se um humorista diz que comeria uma mulher grávida e o seu filho também, ele pode estar ferindo a honra e o bom nome dessa mulher gratuitamente e abusando da liberdade de expressão, e a ofendida tem todo o direito de se manifestar contrariamente e pedir uma retratação. A justiça está aí para justamente resolver essas celeumas e dizer quem tem razão ou não.

O ponto é outro. Uma pessoa pode escrever um livro elogiando o racismo? Um político pode emitir sua opinião preconceituosa a respeito da opção sexual dos outros?      
Um cineasta pode falar sobre a influência nazista em sua vida sem que o mundo o condene? É óbvio que o preconceito racial ou sexual e o nazismo (incluo aqui todos os regimes totalitários, tanto de esquerda como de direita) são manchas negras na história da humanidade e são ideologias a serem combatidas. Quando eu digo combatida, me refiro ao debate e à disputa de idéias e não a pura e simples proibição.

É claro que existem limites para a manifestação dos pensamentos. Por exemplo, nas hipóteses do parágrafo anterior, se o autor do livro incitar a violência contra alguma minoria; ou o político desferir ofensas ou acusações direta ou indiretamente a quem quer que fosse, eles estariam, sim, ultrapassando os limites da liberdade de expressão, pois como minha avó sempre diz: a sua liberdade termina onde começa a do outro.
Nessas ocasiões a sanção ou a censura se justifica e se torna necessária, mas só nessas situações.

O amplo debate, o confronto racional e aberto de idéias e opiniões é maneira mais honesta e democrática de resolverem-se essas pendengas. Acontece que é muito desgastante e cansativo pensar e debater. É muito mais fácil se postar como um paladino, vestir o manto politicamente correto, colocar-se acima do bem e do mal e censurar, reduzir ou estigmatizar com preconceitos os desafetos, ou seja, tornar-se aquilo que, pretensamente, estavam combatendo.

Esse texto está postado estrategicamente entre um poema e um comentário referentes a autores tão polêmicos quanto geniais, autores que admiro artisticamente, mas discordo de suas opiniões políticas: o norte americano Ezra Pound, poeta que contribuiu efetivamente para os caminhos tomados pela lírica modernista, e pelo cineasta dinamarquês Lars Von Trier e seu último filme Melancholia.  

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Ezra Pound - Num Espelho

Tradução: Mário Faustino

Oh face estranha aí no espelho!
Companheiro libertino, sagrado anfitrião,
Oh meu bufão varrido pela dor,
Que responder? Oh vós miríade
Que labutais, brincais, passais,
Zombais, desafiais, vos contrapondo!
Eu? Eu? Eu?
E vós?