terça-feira, 30 de março de 2010

Migraine Boy Strikes Again!



Depois de prova FDP no Domingo, o garoto enxaqueca voltou a atacar.

segunda-feira, 29 de março de 2010

DuranDuran - Careless Memories (Live in London) HQ

Bem-Vindos aos anos 80!



Vi esse mesmo show em novembro de 2008, no Via Funchal. Formação original com exceção do Andy Taylor.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Desintegração

Para Augusto dos Anjos

Certos dias, tudo se desintegra dentro de mim...
A distância entre o que sou e o que quero aumenta sem fim
A tristeza se propaga silenciosamente com um vírus,
Alimentando-se de tudo que brilha em meu corpo
Ao som da sinfonia deplorável de grito de um anjo morto.

Sentado em meio a labaredas do meu inferno interno
O som passa cortando minha pele congelada em frio eterno.
Lágrimas perfeitas esfaqueiam sorrisos em pânico
Pensamentos se enfrentam em bagunça simétrica
Desfilam horrores, desejos e lembranças heréticas.
(Roberto Valerio jr.)

segunda-feira, 22 de março de 2010

Andy Warhol, Mr. América na Estação Pinacoteca


A Pinacoteca do Estado de São Paulo inaugurou no último sábado (20/03/2010), na Estação Pinacoteca, a exposição Andy Warhol, Mr. America.

A mostra reunirá 170 obras(entre pinturas, gravuras, trabalhos fotográficos e filmes)de Andy Warhol, um dos mais importantes e influentes nomes da arte do século anterior, e ficará em cartaz até 23 de maio.

O rótulo " pop" é muito pequeno para definir Andy Warhol, artista que antecipou o conceito de multimídia e se envolveu em vários projetos artísticos como produção musical, cinema, fotografia e pintura. Warhol ainda vislumbrou a ligação entre arte e consumo transformando arte em mercadoria(o que Adorno e Horkheimer chamaram de "indústria cultural”) entre outras tantas sacadas proféticas.

Oportunista, provocador, mas sempre na vanguarda, é incalculável a influência de Warhol na arte. O artista soube como poucos retratar o superficialismo e a desumanidade da América e os seus contrastes. Ainda de quebra conseguiu ficar rico e famoso sem ter que morrer para isso. Palmas para Andy!

Imperdível!





quinta-feira, 18 de março de 2010

André Lhote

"Tradição é o que resiste a todas as épocas e aos trejeitos, maneirismos e afetações de todos os tipos, são os valores que eu nomeio, por falta de melhor termo, invariants plastiques, de que certo coeficiente é necessário à vida da obra."

André Lhote (1885 - Bordeaux, França / 1962 - Paris, França), foi um pintor, escultor e teórico francês que fez parte do cubismo.
Suas primeiras obras sofreram forte influência das cores fortes e dos traços simples do Fauvismo. Apreciava principalmente Gauguin e Cézanne.

Aderiu ao cubismo em 1911 e fez parte do famoso Salão da Section d’Or em outubro 1912 ao lado de Jacques Villon, Marcel Duchamp, Albert Gleizes e Francis Picabia, alguns dos maiores representantes das mais modernas e heterodoxas tendências artísticas.

Tematicamente, retratava cenas cotidianas, retratos, naturezas-mortas e mitologia e estilisticamente, utilizava todo o radicalismo e modernidade do cubismo sem abrir mão da tradição pictórica.




quarta-feira, 17 de março de 2010

ZONA LIVRE – MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA


Composta por um panorama de longas-metragens estrangeiros com pouca entrada no Brasil, a ZONA LIVRE – Mostra Internacional de Cinema estreia no CineSESC em parceria com o CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre no próximo dia 19. A programação se estende até o dia 25 e conta com diversos filmes inéditos em São Paulo.

PROGRAMAÇÃO:

DIA 18, QUINTA-FEIRA

20h30 - Sessão de abertura com o filme ganhar do Câmera D’Or em Cannes 2008:

Hunger

Steve McQueen, Reino Unido / Irlanda, 96min, 2008, cor, 35mm.

Inadequado para menores de 16 anos. Inédito em São Paulo.


DIA 19, SEXTA-FEIRA

14h

All About Lily Chou Chou

Shunji Iwai, Japão, 140min, 2001, cor, 35mm.

Inadequado para menores de 16 anos

17h

Taxidermia

György Pálfi, Hungria, 90min, 2007, cor, 35mm.

Inadequado para menores de 18 anos

DIA 20, SÁBADO

14h

Daytime Drinking

Young-Seok Noh, Coréia do Sul, 115min, 2008, cor, vídeo (exibição em beta digital)

Inadequado para menores de 14 anos. Inédito em São Paulo.

17h

Hunger

Steve McQueen, Reino Unido / Irlanda, 96min, 2008, cor, 35mm.

Inadequado para menores de 16 anos. Inédito em São Paulo.

Dia 21, DOMINGO

14h

Hunger

Steve McQueen, Reino Unido / Irlanda, 96min, 2008, cor, 35mm.

Inadequado para menores de 16 anos. Inédito em São Paulo.

17h

Trash Humpers

Harmony Korine, EUA, 78min, 2009, cor, vídeo. (exibição em DVD).

Inadequado para menores de 18 anos. Inédito em São Paulo.

Dia 22, SEGUNDA-FEIRA

14h – Sessão dupla:

Taxidermia

György Pálfi, Hungria, 90min, 2007, cor, 35mm.

Inadequado para menores de 18 anos

Stingray Sam

Cory McAbee, EUA, 60min, 2009, P&B, 35mm.
Inadequado para menores de 10 anos. Inédito em São Paulo.

17h

Hunger

Steve McQueen, Reino Unido / Irlanda, 96min, 2008, cor, 35mm.

Inadequado para menores de 16 anos. Inédito em São Paulo.

Dia 23, TERÇA-FEIRA

14h

Trash Humpers

Harmony Korine, EUA, 78min, 2009, cor, vídeo (exibição em DVD).

Inadequado para menores de 18 anos. Inédito em São Paulo.

17h

Daytime Drinking

Young-Seok Noh, Coréia do Sul, 115min, 2008, cor, vídeo (exibição em beta digital)

Inadequado para menores de 14 anos. Inédito em São Paulo.

Dia 24, QUARTA-FEIRA

14h

All About Lily Chou Chou

Shunji Iwai, Japão, 140min, 2001, cor, 35mm.

Inadequado para menores de 16 anos. Inédito em São Paulo.

17h

American Astronaut

Cory McAbee, EUA, 90min, 2001, P&B, 35mm.

Inadequado para menores de 10 anos. Inédito em São Paulo.

Dia 25, QUINTA-FEIRA

14h

American Astronaut

Cory McAbee, EUA, 90min, 2001, P&B, 35mm.

Inadequado para menores de 10 anos. Inédito em São Paulo.

17h

Stingray Sam

Cory McAbee, EUA, 60min, 2009, P&B, 35mm.

Inadequado para menores de 10 anos. Inédito em São Paulo.

Ingressos:
R$ 8,00 (inteira). R$ 4,00 (idosos, estudantes, professores e usuários). R$ 2,00 (trabalhador no comércio e serviços matriculados e dependentes).

BLUES FÚNEBRE - W.H. Auden

Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Impeçam o cão de latir com um osso enorme,
Silenciem os pianos e ao som abafado dos tambores
Tragam o caixão, deixem as carpideiras carpir suas dores.

Deixem os aviões aos círculos a gemer no céu
Rabiscando no ar a mensagem Ele Morreu,
Ponham laços crepe nas pombas brancas da nação,
Deixem os sinaleiros usar luvas pretas de algodão.

Ele era o meu Norte, meu Sul, meu Este e Oeste,
Minha semana de trabalho, meu Domingo de festa
Meu meio-dia, meia-noite, minha conversa, minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: foi ilusão.

As estrelas já não são precisas: levem-nas uma a uma;
Desmantelem o sol e empacotem a lua;
Despejem o oceano e varram a floresta;
Porque agora já nada de bom me resta.

terça-feira, 16 de março de 2010

Um Lugar ao Sol - A Place in the Sun, 1951


É o melhor filme que assisti na vida. Registra a supremacia do cinema sobre todas as outras formas de arte” Exagerada ou não, foi à conclusão que Charles Chaplin chegou após assistir o “Um Lugar Ao Sol” do grande realizador norte-americano George Stevens.

Baseado no romance icônico do naturalismo americano “Uma Tragédia Americana”, escrito por Theodore Dreiser em 1925, o filme retrata de maneira crua e indigesta a moral da sociedade americana e sua capacidade de criar, a custa de ilusões e desilusões, pessoas dispostas a tudo para palpar o tão desejado sonho americano.

Montegomery Clift é George Eastman, jovem interiorano e ambicioso que vai trabalhar na empresa de um rico e bem sucedido tio. A principio, seu tio, lhe arruma uma posição pouco expressiva, onde conhece a humilde Alice Tripp (Shelley Winters) com que se envolve amorosamente. Logo, a boa disposição do rapaz para o trabalho chama a atenção do seu tio que resolve promover o sobrinho e abre-lhe às portas da alta-sociedade local. Nesse momento começa derrocada moral de George.

Eastman começa a visualizar uma vida melhor. Começa a freqüentar festas e conhece a bela Angela Vickers (Elizabeth Taylor), garota de família tradicional por quem se apaixona e é correspondido. Seu romance com Alice começa a ser um incomodo, ainda mais quando ele descobre que a garota está grávida e quer que ele assuma a situação.
A partir daí, o triangulo amoroso começa a tomar cores trágicas e fatalistas.

Filmado magistralmente em preto&branco, o filme levou o Oscar de melhor fotografia em 1951 além de mais cinco prêmios: Melhor diretor, Melhor figurino, Trilha sonora.
Edição e Roteiro Adaptado, todos merecidos até a ultima gota. E para ser honesto, faltou ainda o de melhor ator para Clift, um dos maiores atores do cinema de todos os tempos. As feições e as expressões do ator nesse filme transbordam toda tensão, desencanto e emoção necessária. Um grande trabalho.

O filme é esteticamente perfeito. Apresenta abusados takes feitos em ângulos inéditos, como as famosas tomadas “por cima dos ombros” das personagens e o excelente desenvolvimento do roteiro que manteve o realismo da trama original ao mesmo tempo em que inseriu muitas passagens enigmáticas e sugestionáveis – Gambs, realmente eu não sei o que significa aquele “ Tell mama...” que Elizabeth Taylor diz no filme, mas a cena é bem e vibrante e emocionante.

Como toda obra de arte, o filme é atemporal. Não sofreu limitação na forma e principalmente no conteúdo. Pelo contrário, a tragédia é cada fez mais atual e presente na sociedade ocidental onde todos querem tudo e a felicidade está intrinsecamente ligada a riqueza e bens materiais.

Filmaço!

segunda-feira, 15 de março de 2010

A Ilha do Medo - Shutter Island, 2010


Martin Scorsese já foi chamado de “o maior diretor americano vivo” e tem no currículo filmes essenciais para a história do cinema como, por exemplo: Touro indomável, Táxi-Driver, A Última Tentação de Cristo, Depois de Horas, Os Bons Companheiros e Cabo do Medo, mas, ultimamente, salvo “Os Infiltrados” que se o resultado não é genial com se espera sempre que o diretor aparece, pelo menos é ok, tem apresentado trabalhos irregulares e aquém da fama em torno de seu nome.

Seu último filme: “A Ilha do medo”, se não é a reconciliação do diretor com a sétima arte, é, pelo menos, um grande tentativa e o anuncio que Scorsese está no caminho certo.

A narrativa acompanha à história de dois agentes federais: Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) e Chuck Aule (Mark Ruffalo) que em 1954 vão ao manicômio judicial Ashecliffe, localizado na Shutter Island, investigar o misterioso desaparecimento de uma assassina internada no local. Ao chegarem lá, deparam-se com uma intrincada série de mistérios que vão por a prova a sanidade dos agentes.

Scorsese mostra muito vigor na direção, aliado aos excelentes e caprichosos trabalhos dos diretores de fotografia Robert Richardson, e de arte Dante Ferret cria um trabalho estético de beleza única e grande responsável pelo êxito artístico do filme. O clima noir e onírico levam o filme em uma crescente tensão. A trilha sonora também contribui para excelência técnica e cênica do filme Penderecki, Ligeti, Maher e John Cage, entre outros.

O luxuoso elenco também funciona perfeitamente. Max Von Sydow, Elias Koteas, Ted Levine, Jack Earle Haley, Patricia Clarkson e Emily Mortimer brilham em pequenos, porem notáveis interpretações, enquanto Dicaprio, Rufallo e Bem Kinsgley alcançam resultados fantásticos.

Infelizmente, o roteiro de Laeta Kalodridis (adaptação do livro Paciente 67 de Dennis Lehane) peca pela previsibilidade. Se por um lado, é notável a capacidade de brincar com as influências: Hitchcock, Fuller e Kafka as mais evidentes, por outro é decepcionante como lá pela metade do filme, o espectador mais escolado chegue as conclusões, erro capital em um filme do gênero.

Um Scorsese menor, mas, mesmo assim, vale uma espiada.

Joy Division - Atmosphere

sexta-feira, 12 de março de 2010

Glauco Villas Boas - 10/03/1957 - 12/03/2010


O Delicadamente mal-educado está de luto!

Hoje de madrugada em Osasco, região da Grande São Paulo, morreu Glauco Villas-Boas, um dos grandes heróis da minha juventude.

Glauco foi um dos maiores nomes dos quadrinhos brasileiros. Participou ao lado de Angeli e Laerte da geração que lançou um bem sucedido estilo de quadrinhos alternativos imortalizado nas páginas das Revistas Circo, Chiclete com Banana, Gerladão, entre outras.

Dono de um estilo que aliava traços simples e gags visuais marcantes, o cartunista tinha um humor ácido e rasgante. Criou inúmeras personagens como: Geraldão, Casal Neuras, Doy George e Dona Marta que ficarão para sempre na memória daqueles que gostam de quadrinhos.

Glauco e o filho Raoni morreram em uma tentativa de assalto e seqüestro em sua casa que terminou de maneira trágica e brutal.

Eu sei que pessoas morrem de forma violenta e estúpida todos os dias, mas quando isso acontece com uma pessoa que gostamos, percebemos a fragilidade da vida e proximidade da violência em nosso cotidiano.

quinta-feira, 11 de março de 2010

24 Hour Party People - 2002


Esse vai ser um post saudosista, nostálgico e sentimental.

Depois de ver um show do Manchester United à tarde, onde Wayne Rooney, o melhor jogador do mundo na atualidade, detonou com O Milan dos “pipocas” Ronaldinho e Pato(que nem jogou), à noite, vi outro show que também tem ligação  com a cinzenta cidade industrial inglesa: “A festa Nunca Termina” (24 Hour Party People) do inglês Michael Winterbottom.

O filme é um retrato irônico e divertido do período em que a cidade inglesa foi o centro do rock mundial e cobre os períodos do nascimento do pós-punk, que tinha nomes como The Fall, Buzzcocks, Joy Division em suas fileiras, passando pelos anos 80, onde New Order e Smiths eram os seus melhores representantes, até o advento do Acid Hose e das “Madchester”, bandas independentes como:  Happy Mondays,  Stone Roses, 808 State, The Charlatans e os Inspiral Carpets.

Com uma narrativa inusitada que mescla um falso documentário e uma ficção psicodélica frenética, o filme é narrado pelo mitológico Tony Wilson, o criador da Factory, selo independente responsável pelo lançamento da maioria daquelas bandas e uma das figuras centrais do movimento.

Wilson(fabulosamente interpretado por Steve Coogan), de maneira divertida e cínica, vai narrando suas aventuras frente aquele universo de sonhos e relata uma época em que o valor artístico ainda era a prioridade e não a questão financeira a ditar os caminhos e as vertentes que vemos no universo da música pop hoje em dia. Posso até estar sendo saudosista e sentimental, mas eu avisei que o post era assim no começo, não?

Quando a narrativa se concentra no relacionamento de Tony com as bandas o filme rende seus melhores momentos, chega até ser emocionante as palavras de Wilson a respeito de Ian Curtis - vocalista de Joy Division que se suicidou em 1980- na ocasião de sua morte, mas o clima do filme é de festa. Festas essas, é claro, regadas a muitas substâncias ilícitas, sexo e rock and roll. As histórias envolvendo o Happy Mondays são as melhores.

O filme termina com o fechamento da Hacienda, casa de shows de propriedade dos donos da Factory. Tal evento foi um divisor de águas na história da música recente e na minha humilde opinião (eu falei que ia ser sentimental e nostálgico) pouca coisa apareceu de interessante na música pop depois disso.

Rola também algumas participações especiais de pessoas importantes no movimento como: Howard Devotto do Buzzcocks, Paul Ryder dos Mondays e Vini Reilly do Durutti Collum, Mark E. Smith do Fall e do próprio Tony Wilson. Todos eles apresentados no filme pelo narrador de maneira original e divertida.

Enfim, o filme é uma deliciosa viagem sentimental para um garoto que como eu amava o Smiths e o Joy Divison e acompanhava tudo isso aqui do outro lado do mundo pelas revistas especializadas da época e ficava até altas horas da madrugada discutindo com os amigos nos velhos escadões do bom e velho Tremembé. 

terça-feira, 9 de março de 2010

Fernado Pessoa - Hora Absurda

O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas...
Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso...
E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas
Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso...

Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte...
O teu silêncio recolhe-o e guarda-o, partido, a um canto...
Minha idéia de ti é um cadáver que o mar traz à praia..., e entanto
Tu és a tela irreal em que erro em cor a minha arte...

Abre todas as portas e que o vento varra a idéia
Que temos de que um fumo perfuma de ócio os salões...
Minha alma é uma caverna enchida p'la maré cheia,
E a minha idéia de te sonhar uma caravana de histriões...

Chove ouro baço, mas não no lá-fora... É em mim... Sou a Hora,
E a Hora é de assombros e toda ela escombros dela...
Na minha atenção há uma viúva pobre que nunca chora...
No meu céu interior nunca houve uma única estrela...

Hoje o céu é pesado como a idéia de nunca chegar a um porto...
A chuva miúda é vazia... A Hora sabe a ter sido...
Não haver qualquer cousa como leitos para as naus!... Absorto
Em se alhear de si, teu olhar é uma praga sem sentido...

Todas as minhas horas são feitas de jaspe negro,
Minhas ânsias todas talhadas num mármore que não há,
Não é alegria nem dor esta dor com que me alegro,
E a minha bondade inversa não é nem boa nem má...

Os feixas dos lictores abriram-se à beira dos caminhos...
Os pendões das vitórias medievais nem chegaram às cruzadas...
Puseram in-fólios úteis entre as pedras das barricadas...
E a erva cresceu nas vias férreas com viços daninhos...

Ah, como esta hora é velha!... E todas as naus partiram!
Na praia só um cabo morto e uns restos de vela falam
Do Longe, das horas do Sul, de onde os nossos sonhos tiram
Aquela angústia de sonhar mais que até para si calam...

O palácio está em ruínas... Dói ver no parque o abandono
da fonte sem repuxo... Ninguém ergue o olhar da estrada
E sente saudades de si ante aquele lugar-outono...
Esta paisagem é um manuscrito com a frase mais bela cortada...

A doida partiu todos os candelabros glabros,
Sujou de humano o lago com cartas rasgadas, muitas...
E a minha alma é aquela luz que não mais haverá nos candelabros...
E que querem ao lago aziago minhas ânsias, brisas fortuitas?...

Por que me aflijo e me enfermo?... Deitam-se nuas ao luar
Todas as ninfas... Vejo o sol e já tinham partido...
O teu silêncio que me embala é a idéia de naufragar,
E a idéia de a tua voz soar a lira dum Apolo fingido...

Já não há caudas de pavões todas olhos nos jardins de outrora...
As próprias sombras estão mais tristes... Ainda
Há rastros de vestes de aias (parece) no chão, e ainda chora
Um como que eco de passos pela alameda que eis finda...

Todos os casos fundiram-se na minha alma...
As relvas de todos os prados foram frescas sob meus pés frios...
Secou em teu olhar a idéia de te julgares calma,
E eu ver isso em ti é um porto sem navios...

Ergueram-se a um tempo todos os remos... Pelo ouro das searas
Passou uma saudade de não serem o mar... Em frente
Ao meu trono de alheamento há gestos com pedras raras...
Minha alma é uma lâmpada que se apagou e ainda está quente...

Ah, e o teu silêncio é um perfil de píncaro ao sol!
Todas as princesas sentiram o seio oprimido...
Da última janela do castelo só um girassol
Se vê, e o sonhar que há outros põe brumas no nosso sentido...

Sermos, e não sermos mais!... Ó leões nascidos na jaula!...
Repique de sinos para além, no Outro Vale... Perto?...
Arde o colégio e uma criança ficou fechada na aula...
Por que não há de ser o Norte o Sul?... O que está descoberto?...

E eu deliro... De repente pauso no que penso... Fito-te
E o teu silêncio é uma cegueira minha... Fito-te e sonho...
Há cousas rubras e cobras no modo como medito-te,
E a tua idéia sabe à lembrança de um sabor de medonho...

Para que não ter por ti desprezo? Por que não perdê-lo?...
Ah, deixa que eu te ignore... O teu silêncio é um leque-
Um leque fechado, um leque que aberto seria tão belo, tão belo,
Mas mais belo é não o abrir, para que a Hora não peque...

Gelaram todas as mãos cruzadas sobre todos os peitos...
Murcharam mais flores do que as que havia no jardim...
O meu amar-te é uma catedral de silêncios eleitos,
E os meus sonhos uma escada sem princípio mas com fim...

Alguém vai entrar pela porta... Sente-se o ar sorrir...
Tecedeiras viúvas gozam as mortalhas de virgens que tecem...
Ah, oteu tédio é uma estátua de uma mulher que há de vir,
O perfume que os crisântemos teriam, se o tivessem...

É preciso destruir o propósito de todas as pontes,
Vestir de alheamento as paisagens de todas as terras,
Endireitar à força a curva dos horizontes,
E gemer por ter de viver, como um ruído brusco de serras...

Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem!...
Saber que continuará a haver o mesmo mundo amanhã - como nos desalegra !...
Que o meu ouvir o teu silêncio não seja nuvens que atristem
O teu sorriso, anjo exilado, e o teu tédio, auréola negra...

Suave, como ter mãe e irmãs, a tarde rica desce...
Não chove já, e o vasto céu é um grande sorriso imperfeito...
A minha consciência de ter consciência de ti é uma prece,
E o meu saber-te a sorrir é uma flor murcha a meu peito...

Ah, se fôssemos duas figuras num longínquo vitral!...
Ah, se fôssemos as duas cores de uma bandeira de glória!...
Estátua acéfala posta a um canto, poeirenta pia batismal,
Pendão de vencidos tendo escrito ao centro este lema - Vitória!

O que é que me tortura?... Se até a tua face calma
Só me enche de tédios e de ópios de ócios medonhos...
Não sei... Eu sou um doido que estranha a sua própria alma...
Eu fui amado em efígie num país para além dos sonhos...

terça-feira, 2 de março de 2010

O Iluminado - The Shining ( 1980)


O que é preciso para fazer uma obra de arte? Para o genial Stanley Kubrick, não muita coisa. Em “O Iluminado”, o diretor precisou de três atores, um hotel deserto e sua imaginação para criar uma das obras máximas do Gênero horror.

Escrito pelo diretor em parceria com Diane Johnson e baseado no romance homônimo escrito pelo “mala máximo do terror” Stephen King, O filme narra de maneira tensa e assustadora as desventuras da família Torrance no deserto e macabro Overlook Hotel.
Jack(Jack Nicholson, assustadoramente excelente) é o pai, um ex-professor que arruma um emprego no hotel em um período em que esse se encontra fechado. Ele leva consigo sua esposa Wendy(Shelley Duvall) e o filho Danny (Danny Lloyd).

Tudo vai indo muito bem para todos: Jack cuida da manutenção do Hotel e nas horas vagas aproveita para escrever o seu romance; Wendy segue cuidando de sua família e Danny se diverte brincando nos longos corredores do hotel até que uma força maléfica e sinistra que vive no velho hotel, começa a influenciar e possuir Jack abalando-lhe a sanidade e o transformando em um louco assassino.

Sem usar de artifícios como os “sustos fáceis” ou “fantasmas medonhos”, clichês presente em 99% dos filmes do gênero, Kubrick criou um filme impressionante, tenso e assustador, onde o mistério, a sugestão e o terror psicológico são os elementos que encorpam o filme e mostram o horror da situação.

Os méritos do filme começam pelo roteiro de Kubrick e Johnson, que acerta em cheio em aparar os excessos do romance original deixando mais soturna e enigmática a trama. Aliás, muita gente, inclusive esse que vos escreve, acha o filme é muito superior à obra original.

Passam pela magnífica trilha sonora (como em quase todos os filmes do diretor). Que além de belas peças Ligeti, Bartók e Pendereki contém também as peças com sintetizadores claustrofóbico e assustadores de Wendy Carlos que acrescentam profundidade e dramaticidade para o filme.

Passam também pela parte técnica. A fotografia realista e opressora acentua o isolamento da trama a deixando mais macabra ainda. As imagens do filme, internas ou externas são maravilhosas. Repletas de ângulos inusitados e movimentos revolucionários estão, seguramente, entre as mais belas que já foram filmadas. Vale dar o crédito para assistente de direção Brian Cook e os operadores câmera James Devis e Kelvin Pike e Garret Brown.

E por fim, a interpretação de Nicholson. O ator é reconhecidamente um dos maiores de todos os tempos e tem atuações consagradas e premiadas em filmes com Um Estranho no Ninho, Sem Destino, Chinatown e Melhor Impossível, por exemplo, mas o resultado artístico alcançando é incomparável nesse filme.

O Iluminado é uma obra-prima do horror. Deve ser assistido com a mão no peito em sinal de reverência, ainda mais hoje em dia, tempos de filmes de terror que se repetem a exaustão e condenam esse tão prolifero gênero a categoria de arte menor.
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