terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Tetro - 2010 Francis Ford Coppola


As relações familiares e as tragédias melodramáticas são temas recorrentes na filmografia do cineasta americano Francis F. Coppola. Na trilogia “O Poderoso Chefão”, embora tingida em sangue e banhada em violentos tiroteios, a trama se desenvolve no conturbado núcleo familiar dos Corleones, sempre pontuado por trágicos desfechos. Em “O Selvagem da Motocicleta (1983)”, a incomum e destruída família formada pelo "Pai" beberrão (Dennis Hopper), pelo "Motorcycle Boy" (Mickey Rourke) e por "Rusty James" (Mat Dilon) é o elemento mais importante da história, principalmente o relacionamento dos irmãos.

Em Tetro (2010), Copolla volta a perseguir justamente esses mesmo temas, atualizando a máxima de Borges que diz que: os escritores contam sempre a mesma história. O filme se concentra no relacionamento de dois irmãos: Tetro (Vincent Gallo em ótima atuação) um escritor mal sucedido e mal humorado que foge de seu passado e de sua família por conta do péssimo relacionamento que tem com seu pai, um maestro famoso e controlador; e Bernie(Alden Ehrenreich, em interpretação satisfatória) um ajudante de garçom que trabalha em um cruzeiro e tem grande admiração pelo irmão. Nesse re-encontro o passado dos dois vem à tona e revelam-se segredos de grande carga dramática e trágica.

Filmada na bela Buenos Aires em um preto e branco mais belo ainda, Tetro é um filme que conquista e emociona os espectadores, ainda que irregular em seu ritmo e com alguns tropeços no roteiro - as passagens da viagem das personagens para a Patagônia, por exemplo, são completamente desnecessárias dispensáveis e nada acrescentam no desenvolver da história, como há também algum exagero na dramaticidade em algumas passagens e uma enxurrada de personagens mal desenvolvidos: a Alone, personagem de Carmem Maura, por exemplo.

Tecnicamente o filme é bem acabado. As escolhas estéticas cultivadas por Copolla em toda sua carreira, aqui falam alto: a fotografia poética, a trilha sonora saturada de emoção e a direção de atores competentíssima. Destaque para, além da já citada interpretação  do protagonista, o trabalho da Maribel Verdú como a fiél e sensível Miranda e para o trabalho de Klaus Maria Brandauer, como prepotente Maestro Carlo, Pai de Tetro.

Tetro não está entre os melhores filmes que Copolla fez na vida, mas também não está entre os piores. Até entendo a decepção que muita gente sentiu ao ver o filme por sua irregularidade, mas há uma inegável evolução entre esse e seus três últimos trabalhos: Jack (1996), e O Homem Que Fazia Chover(1997) Youth Without Youth (2007) -  esses sim, grandes porcarias - além de evidenciar o grande esforço de um homem que ganhou o mundo a nas décadas de 70 e 80 do século passado fazendo filmes magníficos a voltar a fazer filmes mágicos e relevantes.     

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Parabéns, Maior do Mundo!

Hoje, dia 17 de dezembro é o aniversário(oficial) do Clube mais vitorioso do Futebol Brasileiro: O São Paulo Futebol Clube!!!!

Parabéns, Maior do Mundo!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Três poemas de Bukowski


montanhas mongóis brilham na luz

montanhas mongóis brilham na luz,

ouço o pulsar do sol,

o tigre é o mesmo para todos nós

e alto oh

bem alto no ramo

o rouxinol

canta.


O Olhar:

Uma vez comprei um coelho de peluche
num grande armazém
e agora ele passa o tempo sentado a olhar-me
com os seus pequenos olhos cor-de-rosa:

Ele quer bolas de golfe e paredes
de vidro.
Eu quero a calma da tempestade.

A nossa desilusão descansa entre nós.

verdade

uma das melhores passagens de Lorca
é
“agonia, sempre
agonia…”
lembra-te disso quando
matares
uma barata ou
pegares numa lâmina para
fazer a barba
ou acordares de manhã
para
enfrentar o
sol.

A tradução dos três poemas foi feita por Manoel A. Domingos e estão disponíveis, entre outros poemas do "Velho", no excelente blog: http://oamorumcodoinferno.blogspot.com/ , de sua autoria.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Pássaro Azul - Charles Bukowski


Tradução: Pedro Gonzaga

Há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí,não deixarei que ninguém o veja.
Há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.
Há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí,
quer acabar comigo ?
(…) Há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
Eu digo: sei que você está aí,
então não fique triste.
Depois, o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
como nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar,
mas eu não choro,
e você ?”

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Monteiro Lobato e o politicamente incorreto


“ timeo hominem unius libri”
Tomás de Aquino

“Um país se faz com homens e livros”
Monteiro Lobato

O que se espera de um órgão do governo chamado Conselho Nacional de Educação, que tem como uma das suas atribuições “zelar pela qualidade do ensino” entre tantas outras coisas igualmente importantes? Alguma medida efetiva para o melhoramento do nível do ensino no país que, como todos sabem, é uma de nossas  maiores tragédias  - já seria muito bem vinda. Os nossos caros amigos que lá labutam, entretanto, parecem mais interessados em, autoritariamente, censurar livros e indicar o que as pessoas podem ou não ler.

É verdade, meus amigos! Voltamos para a década de 60, onde o governo intervinha e escolhia o que era saudável para os estudantes lerem. Se naquela década as peças do Plínio Marcos, as músicas do Chico Buarque, os livros do Rubem Fonseca e os filmes do Glauber Rocha tinham potencial subversivo e levariam a nossa juventude para o lado esquerdo da força, hoje em dia a patrulha do politicamente correto fiscaliza e dita o aceitável e agradável para a sociedade. Esses chatos da liga dos bons costumes e guardiões da moral fizeram sua mais nova vitima: o politicamente incorreto, Monteiro Lobato.

Não é brincadeira não, caros amigos, aquele mesmo escritor que criou um universo mágico e maravilhoso do “Sítio do Picapau Amarelo” que divertiu, fecundou a imaginação e ensinou crianças de várias gerações- inclusive esse que vos escreve.
Os respeitáveis cidadãos do CNE recomendaram que o livro “Caçadas de Pedrinho”, escrito por Lobato 1933, fosse banido das escolas públicas. Ou apresentasse notas explicativas alertando sobre a presença de “estereótipos raciais. Nossos amigos viram conteúdo racista na citada obra.

Os palermas do bem fizeram uma analise superficial do papel da literatura que, evidentemente, não tem a obrigação de passar conceitos morais para ninguém, mas sim - entre outras coisas - desenvolver o pensamento crítico, mergulhando em assuntos polêmicos e não fugindo deles. Também erraram ao não contextualizar a obra com os costumes e com a época em que foi escrita.

Eu sou veemente contra qualquer forma de racismo, mas uma coisa é estudantes escreverem frases racistas no twiter xingando os nordestinos por votarem na Dilma - esses sim, devem ser julgados e punidos - outra é um escritor dar voz a uma personagem de outra época que manifestava o censo comum do seu tempo. Quem perde com essa tresloucada celeuma autoritária são os estudantes enquanto leitores e o Brasil enquanto democracia.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Nowhere Man - The Beatles





He's a real nowhere man,
Sitting in his nowhere land,
Making all his nowhere plans
for nobody.

Doesn't have a point of view,
Knows not where he's going to,
Isn't he a bit like you and me?

Nowhere man, please listen,
You don't know what you're missing,
Nowhere man, the world is at your command.

He's as blind as he can be,
Just sees what he wants to see,
Nowhere man can you see me at all?

Nowhere man, don't worry,
Take your time, don't hurry,
Leave it all 'till somebody else
Lends you a hand.

Doesn't have a point of view,
Knows not where he's going to,
Isn't he a bit like you and me?

Nowhere man, please listen,
You don't know what you're missing,
Nowhere man, the world is at your command.

He's a real nowhere man,
Sitting in his nowhere land,
Making all his nowhere plans
For nobody.
Making all his nowhere plans
for nobody.
Making all his nowhere plans
For nobody.


Comentário: Baita música dos Beatles e uma letra inspiradíssima do Lennon, acredito que todo mundo, pelo menos uma vez na vida, já se sentiu um "homem de lugar nenhum".
Essa é para aquelas pessoas que dizem que as letras dos Beatles não eram boas. 

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Sobre o Cisne de Stéphane Mallarmé - Eduardo Guimaraens

Un gygne d´autrefois se souvient que c´est lui.
Stéph. Mallarmé

Um Sonho existe em nós como um cisne num lago
de água profunda e clara e em cujo fundo existe
outro cisne alvo e triste, e ainda mais alvo e triste
que a sua forma real de um tom dolente e vago.

Nada: e os gestos que tem, de carícia e de afago,
lembram da imagem tênue, onde a tristeza insiste
por ser mais alva, a graça inversa em que consiste
a dolente mudez de um espelho pressago.

Um cisne existe em nós como um sonho de calma,
plácido, um cisne branco e triste, longo e lasso
e puro, sobre a face oculta de nossa alma.

E a sua imagem lembra a imagem de um destino
de pureza e de amor que segue, passo a passo,
este sonho imortal como um cisne divino!

terça-feira, 5 de outubro de 2010

No Brasil o Estado é laico, mas a política, não.

A religião é um fenômeno bem presente na vida de algumas pessoas. Todos os dias igrejas e templos das mais variadas crenças são lotados por fiéis para agradecerem, pedirem ou simplesmente conectarem-se com sua entidade de preferência a fim de preservar e ou salvar seu bem mais valioso, a alma imortal.

Na constituição federal brasileira, o Brasil é um Estado laico. Embora o preâmbulo da Carta Magna invoque a proteção de Deus e seja comum vermos símbolos religiosos pendurados em repartições públicas, vemos o artigo 19 proibir a vinculação e separar o Estado de qualquer religião como deve ser e é em qualquer lugar civilizado do mundo.

Nas eleições presidenciais de domingo, há quem afirme que a religião foi o aspecto decisivo no seu resultado. De um lado, um grande número de votos responsáveis pelo excelente desempenho da Marina Silva veio dos evangélicos, iguais da candidata.
Do outro lado, a candidata Dilma Rousseff perdeu uma farta fatia de votos que receberia por algumas especulações a respeito de sua condição ateísta e por suas posições frente à legalização do aborto tema capital para os religiosos.

A vantagem dela frente ao candidato José Serra é grande. Vai ser difícil reverter esse número, mas pelo sim pelo não, Dilma, sob  a influência de marqueteiros em cólicas, agradeceu além dos companheiros de campanha, aliados e eleitores, a Deus pelos milhões de votos alcançados.

Aí vem aquele religioso Espírito de Porco e diz: Nada como um aperto para um ateu começar a creditar em Deus.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Bem-vindo, Carpa!


Paulo César Carpegiani é o novo técnico do São Paulo.
Ele chega com a dífícil tarefa de recuperar um time apático que apesar de contar com um bom elenco, não consegue apresentar um futebol vistoso e nem ao menos eficiente e tentar conseguir uma vaga na Libertadores do ano que vem.

Ao contrário da grande parte de são-paulinos que falei hoje, considero um excelente nome para assumir o comando técnico da equipe. Carpegiani fez um excelente trabalho em 1999 no tricolor, levando um time limitado que contava com figuras como: Paulão, Nem e Wilsão, Sandro Hiroshi e Jaques a duas semifinais – a do brasileiro e do paulista, sendo eliminado nas duas pelo Corinthians nos pênaltis.
Ainda vale lembrar que aquela equipe corintiana era muito superior ao time tricolor. Jogavam lá: Dida, Marcelinho Carioca, Vampeta e Ricardinho entre outros.

Carpegiani tem fama de inventor e de pé frio. Quanto à primeira afirmação, acho injusta. Para mim, ele é um treinador atento às inovações técnicas mundiais e utiliza com sabedoria o expediente de observar as características técnicas dos jogadores e as aproveita da melhor maneira possível. (Alguém aí se lembra quanto rendeu o Nem em suas mãos ou da escelente campanha que fez com a seleção paraguaia na Copa do Mundo de 1998?) Quanto à segunda afirmação, gostaria de lembrar que ele foi técnico do melhor time que eu já vi jogar, o Flamengo do começo dos anos 80 e lá ganhou tudo o que um técnico poderia ganhar: o Estadual, o Brasileiro, a Lbertadores da América e a Copa Intercontinental.

Bem-vindo, Carpa!

Edu, se segura que os “Círculos Flutuantes" estão voltando!

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Poema Negro - Augusto dos Anjos

A Santos Neto

Para iludir minha desgraça, estudo.
Intimamente sei que não me iludo.
Para onde vou (o mundo inteiro o nota)
Nos meus olhares fúnebres, carrego
A indiferença estúpida de um cego
E o ar indolente de um chinês idiota!

A passagem dos séculos me assombra.
Para onde irá correndo minha sombra
Nesse cavalo de eletricidade?!
Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:
— Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?
E parece-me um sonho a realidade.

Em vão com o grito do meu peito impreco!
Dos brados meus ouvindo apenas o eco,
Eu torço os braços numa angústia douda
E muita vez, à meia-noite, rio
Sinistramente, vendo o verme frio
Que há de comer a minha carne toda!

É a Morte — esta carnívora assanhada —
Serpente má de língua envenenada
Que tudo que acha no caminho, come...
— Faminta e atra mulher que, a 1 de janeiro,
Sai para assassinar o mundo inteiro,
E o mundo inteiro não lhe mata a fome!

Nesta sombria análise das cousas,
Corro. Arranco os cadáveres das lousas
E as suas partes podres examino. . .
Mas de repente, ouvindo um grande estrondo,
Na podridão daquele embrulho hediondo
Reconheço assombrado o meu Destino!

Surpreendo-me, sozinho, numa cova.
Então meu desvario se renova...
Como que, abrindo todos os jazigos,
A Morte, em trajos pretos e amarelos,
Levanta contra mim grandes cutelos
E as baionetas dos dragões antigos!

E quando vi que aquilo vinha vindo
Eu fui caindo como um sol caindo
De declínio em declínio; e de declínio
Em declínio, com a gula de uma fera,
Quis ver o que era, e quando vi o que era,
Vi que era pó, vi que era esterquilínio!

Chegou a tua vez, oh! Natureza!
Eu desafio agora essa grandeza,
Perante a qual meus olhos se extasiam...
Eu desafio, desta cova escura,
No histerismo danado da tortura
Todos os monstros que os teus peitos criam.

Tu não és minha mãe, velha nefasta!
Com o teu chicote frio de madrasta
Tu me açoitaste vinte e duas vezes...
Por tua causa apodreci nas cruzes,
Em que pregas os filhos que produzes
Durante os desgraçados nove meses!

Semeadora terrível de defuntos,
Contra a agressão dos teus contrastes juntos
A besta, que em mim dorme, acorda em berros
Acorda, e após gritar a última injúria,
Chocalha os dentes com medonha fúria
Como se fosse o atrito de dois ferros!

Pois bem! Chegou minha hora de vingança.
Tu mataste o meu tempo de criança
E de segunda-feira até domingo,
Amarrado no horror de tua rede,
Deste-me fogo quando eu tinha sede...
Deixa-te estar, canalha, que eu me vingo!

Súbito outra visão negra me espanta!
Estou em Roma. É Sexta-feira Santa.
A treva invade o obscuro orbe terrestre.
No Vaticano, em grupos prosternados,
Com as longas fardas rubras, os soldados
Guardam o corpo do Divino Mestre.

Como as estalactites da caverna,
Cai no silêncio da Cidade Eterna
A água da chuva em largos fios grossos...
De Jesus Cristo resta unicamente
Um esqueleto; e a gente, vendo-o, a gente
Sente vontade de abraçar-lhe os ossos!

Não há ninguém na estrada da Ripetta.
Dentro da Igreja de São Pedro, quieta,
As luzes funerais arquejam fracas...
O vento entoa cânticos de morte.
Roma estremece! Além, num rumor forte,
Recomeça o barulho das matracas.

A desagregação da minha idéia
Aumenta. Como as chagas da morféa
O medo, o desalento e o desconforto
Paralisam-se os círculos motores.
Na Eternidade, os ventos gemedores
Estão dizendo que Jesus é morto!

Não! Jesus não morreu! Vive na serra
Da Borborema, no ar de minha terra,
Na molécula e no átomo... Resume
A espiritualidade da matéria
E ele é que embala o corpo da miséria
E faz da cloaca uma urna de perfume.

Na agonia de tantos pesadelos
Uma dor bruta puxa-me os cabelos,
Desperto. É tão vazia a minha vida!
No pensamento desconexo e falho
Trago as cartas confusas de um baralho
E um pedaço de cera derretida!

Dorme a casa. O céu dorme. A árvore dorme.
Eu, somente eu, com a minha dor enorme
Os olhos ensangüento na vigília!
E observo, enquanto o horror me corta a fala,
O aspecto sepulcral da austera sala
E a impassibilidade da mobília.

Meu coração, como um cristal, se quebre
O termômetro negue minha febre,
Torne-se gelo o sangue que me abrasa,
E eu me converta na cegonha triste
Que das ruínas duma casa assiste
Ao desmoronamento de outra casa!

Ao terminar este sentido poema
Onde vazei a minha dor suprema
Tenho os olhos em lágrimas imersos...
Rola-me na cabeça o cérebro oco.
Por ventura, meu Deus, estarei louco?!
Daqui por diante não farei mais versos.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Contrariedades - Cesário Verde

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta na botica!
Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopéia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais duma redação, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa
Vale um desdém solene.

Com raras exceções merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho
Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingênuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convêm, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie;
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exatos,
Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe umedece as casas,
E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague,
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!

sexta-feira, 30 de julho de 2010

O Corvo - Edgar Allan Poe

Tradução: Fernando Pessoa

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais".

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais —
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais".

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais —
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais."

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos — mortais
Todos — todos já se foram. Amanhã também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais".

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta — ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta — ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Max Papeschi



O artista  digital italiano Max Papeschi é o sobrinho punk de Andy Warol.
Dono de uma irreverência explosiva que trilha no limite da criatividade e da apelação, o artista mistura ícones da cultura popular americana em cenas de destruição e guerra.

A obra Papaschi é provocativa e controversa e caminha tranqüilamente pelo humor negro e o politicamente incorreto  trazendo  uma forte mensagem antiamericana e anticonsumista.

Para ver e conhecer mais:Clique aqui











quarta-feira, 14 de julho de 2010

Rabbits - 2002 / David Lynch


Rabbits é uma série composta de 9 episódios lançada em 2002, originalmente na Internet, escrita e dirigida pelo cineasta americano David Lynch e exibida em seu Site.

Com um prólogo enigmático: “ Em uma cidade sem nome, inundado por uma chuva contínua, três coelhos vivem com um mistério terrível” - O diretor nos convida a entrarmos em um universo de pesadelos bizarros que habitam sua mente.

A série nos mostra três atores vestidos de coelhos(Jack - Scott Coffey, Jane - Laura Elena Harring/Rebekah Del Rio e Suzie - Naomi Watts) em uma casa, travando discussões aparentemente desconexas e desencontradas ao som de chuvas e ventos assustadores e sob aplausos e risadas de uma platéia, tal qual em uma Sitcom americana.

Como sempre, Lynch alcança um resultado artístico de qualidade elevada. O filme é uma experiência sensorial delirante. Perfeita para quem está cansado de obviedades e lugares comuns e procura originalidade e novidade. 

Quem quiser assistir, entre no ótimo Vagalume Rosa para baixar o filme.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Vai, Holanda

Crédito da Imagem: IG

Terminou a novela do Hexa para nós brasileiros. O Brasil acabou de perder por 2X1 para Holanda.

Como um bom folhetim televisivo, que o bandido vai preso e o mocinho fica com a mocinha no  final , a desclassificação da Seleção era previsível. Ou você se surpreendeu ao ver o Felipe Melo se descontrolando e sendo expulso e deixando o time na mão? Tolinho...

Ah! Você também se surpreendeu em ver a péssima atuação do Michel Bastos ? Você acreditou que o Kaká iria se recuperar depois de uma contusão que o deixou parado quase esse ano todo? Fala sério...

Não vai falar que achou que o Dunga fosse colocar 3 atacantes logo depois do Brasil ter tomado o segundo gol e acreditou que o plantel que ele levou daria conta ... caramba, você está por fora mesmo.

Até as desculpas serão tão previsíveis quanto engraçadas: A Terrível Jabulani é muito leve, . O Mick Jager é pé Frio. O Brasil entregou a copa para sediar a próxima competição e outras sandices ufanistas lamentáveis.

Parabéns à Seleção Holandesa pela vitória. Vou torcer pela laranja mecânica. Tenho grande admiração por times estão sempre no ataque à procura do gol. Ver a Holanda, a Espanha e a Argentina, nessa copa, está mais divertido que os jogos do Brasil.

Bom, vou almoçar. Vou comer um pato ao molho LARANJA e uma torta HOLANDESA em homenagem ao Dunga.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago 1922/2010 - Blog em luto


Morreu hoje aos 87 anos nas Ilhas Canárias/ Espanha, um dos maiores nomes da literatura contemporânea, José Saramago.

Saramago, segundo o critico e teórico Harold Bloom, era "o mais talentoso romancista vivo nos dias de hoje" e criou um universo crítico e inconformista cujo teor denunciava as injustiças sociais coletivas e as angústias do homem moderno em um tom alegórico e ao mesmo tempo realista.

Além de escritor, Saramago foi um intelectual ativo e corajoso. Comprou briga contra instituições poderosas: criticou principalmente as incoerências da poderosa igreja e as distorções sociais causadas pelo capitalismo, sempre dotado de lucidez e honestidade.


Confira o último post do blog da fundação Saramago atualizado hoje:
"Pensar, Pensar
Creio que na sociedade atual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de reflexão, que possa ter um objetivo concreto, como a ciência, que avança para satisfazer objetivos. Nos falta reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e me parece que, sem ideas, não vamos a parte nenhuma".

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Pixies no Brasil

Vai ser na cidade de Itu (cerca de 100 Km da capital) no SWU Music and Arts Festival em outubro.
O festival que contará com a presença confirmada Incubus, Dave Matthews Band e Linkin Park acontecerá nos dias 9,10 e 11. Excelente chance para ao vivo umas das maiores bandas Rock de todos os tempos.

No site da banda, você pode baixar free um EP comemorativo. é so clicar no link abaixo e corre para o abraço.

A dica foi do meu camarada Edu. 

Lunar (Moon) 2009

 Espécie de filme-homenagem ao gênero ficção-científica, nos seus pouco mais de 90 minutos de duração, vemos ecos explícitos de filmes como  2001, Solaris e Blade Runner, mas sem render-se a cópia ou a clichês.

O filme narra à história de Sam Bell (Sam Rockwell em interpretação memorável), um funcionário de uma empresa que explora a energia do Sol. Sam está há três anos em uma estação de captação de energia  na lua, tendo apenas a companhia de Gerty (dublado por Kevin Spacey), um robô que o auxilia nas tarefas. O contrato de Sam está prestes a terminar e o astronauta  está animado com seu retorno à terra, mas um acidente revelará  que sua vida não é bem aquilo que aparentava e nem ele é bem o que pensa.

Na contra mão dos filmes de ficção-cientfica de hoje em dia que escondem a falta de idéias  atrás de efeitos especiais fabulosos amparados por orçamentos exorbitantes, Lunar custou apenas US$ 5 milhões e quase não tem efeitos especiais, mas conta com um roteiro inteligente, apesar de simples e previsível ,  explora de maneira criativa  o enredo e as suas possibilidades e conta com duas excelentes personagens (Sam e Gerty),  além da tratar de temas como o sentido da existência,  a ética na ciência e a loucura fruto de isolamento.  


Ainda sobre o Duncan Jones, vale falar que:
O Diretor é filho de David Bowie. O talento está no sangue.
Nos extras do DVD  tem um primeiro filme de Jones, o curta “Whistle"  de 2002 um triller ligeiro e original que colabora para minha opinião sobre a Família Jones/Bowie.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Willem de Kooning

Willem de Kooning nasceu em Rotterdam, na Holanda, em 19/04/1904, mas foi nos Estados Unidos, país em que chegou em 1926, que se tornou mundialmente famoso e revolucionou a arte no pós-guerra ao fazer parte do grupo de artistas conhecidos como New York School, que tinha em suas fileiras artistas como Jackson Pollock e Arshile Gorky.

Um dos principais nomes do Expressionismo Abstrato, especialmente da vertente que era conhecida como Action Painting, de Kooning começou a definir seu estilo nos anos 30 quando começou a utilizar abstração e formas biomórficas em composições geométricas simples. Chegou à maturidade com a famosa série Mulheres, onde são mostradas formas femininas chocantes e fantasmagóricas em meio a pinceladas selvagens e cores nervosas.

Nos anos 80, afetado pelo Mal de Alzheimer, sua pintura se distancia  do estilo que o havia consagrado. Seus quadros passam centrar em paisagens abstratas em cores primarias. Morreu em East Hampton, Nova York, em 1997.

Woman(Untituled) 1961 

 Woman 1950/1951
Excavation, 1950
Figure And Landscape No. 2, 1951
 Man 1961
Queen of Hearts 1943/48
 Secretary 1948

Sphinx 1964
 Sutdy of Woman IV 1932
Untitled XI 1975

Untitled 1967


Two Women in the Country,1 954
 Woman 1950 

Woman, Verso Untitled 1948
Woman ,1950
Woman 1951/52
Woman ,1953
Woman 1962

Woman 1964

terça-feira, 4 de maio de 2010

Abraços Partidos - 2009


Pedro Almodóvar é o principal nome do cinema espanhol da atualidade. O diretor tem um estilo inconfundível e bem sucedido onde melodrama, suspense e comédia dão sustentação para a exploração de temas como: desejo, família, violência, amor e loucura, tudo harmoniosamente misturado. Almodóvar é um dos maiores realizadores do cinema mundial de todos os tempos e um dos cinco maiores diretores em atividade, mas verdade seja dita: Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos- 2009 )seu último filme, é sofrível!

O filme narra de maneira tragicômica e com traços noir a história de Mateo Blanco (Lluis Homar), ex-cineasta que fica cego após um acidente. Sem poder desempenhar a antiga função, por conta de sua nova condição, passa a ser um roteirista e adota o pseudônimo de Harry Caine. Certo dia, um diretor de cinema aparece em seu escritório e lhe oferece um trabalho que o fará trazer à tona velhas lembranças e antigos sentimentos.

As lembranças de Caine/ Blanco nos são reveladas em conversas que este tem com seu assistente Diego (Tamar Novas) e vemos um triângulo amoroso avassalador repleto de traição, ciúmes e paixão formado por além de Blanco, por Lena(Penélope Cruz) e por Ernesto Matel (José Luis Goméz).

A grande derrapada do diretor está, em minha opinião, na falta de habilidade em costurar a trama e revelar os mistérios, tudo soa gratuito , sem sabor e previsível. O filme foi feito com muita paixão e de maneira muito pessoal, o que conta pontos a favor do diretor, mas é pouco, por se esperar muito quando tem algum projeto que envolva seu nome.

Um filme precisa ser concluído ainda que às cegas” Diz a personagem de Homar no último take do filme. Discordo! Nem todo filme precisa ser concluído e “Abraços partidos” é um desses que podia permanecer inacabado. Decepcionante!


segunda-feira, 3 de maio de 2010

Sidarta - Hermann Hesse


Resolvi adentrar a obra do respeitado e premiado escrito alemão Hermann Hesse (1877-1962), em seu romance Sidarta, escrito em 1922, livro que é baseado na historia do Buddha histórico (Siddhärtha Gautama), por um único motivo: admirar os preceitos ontológicos e ter grande curiosidade e apreço pelo sistema religioso-filosófico presente no Budismo.

Com uma narrativa bela, ágil e quase poética Hesse nos narra o caminho tortuoso e redentor de Sidarta, filho de Brâmanes, agraciado com bela aparência, grande carisma e inteligência acima da média, mas repleto de dilemas existenciais, em direção à iluminação.

Longe de tecer um tratado religioso ou de criar uma obra destinada a auto-ajuda como o mote pode sugerir, Hesse fez literatura da mais alta categoria. Ele dividiu a figura histórica do Sidarta Gautama em dois: um é Gotama, o líder espiritual consagrado pela historia – o outro é Sidarta, um andarilho rebelde que rejeita qualquer fórmula pronta e dogmas estabelecidos para se chegar à iluminação. O caminho, para Sidarta, é pela via direta da experiência pessoal.

A narrativa se concentra em Sidarta e evidencia o inconformismo e rebeldia de seu espírito. Quando jovem deixa o conforto de sua casa e a proteção do pai e rompe com a religião que fora criado para iniciar sua caminhada em busca da sabedoria. Em companhia de seu fiel amigo Govinda passa a ser asceta Samana, mas logo nota que não alcançaria seu objetivo dentro de idéias de outros. Abandona os antigos mestres e segue em seu caminho junto com o amigo.

Em seguida encontra-se com Gotama, o sublime. E apesar de reconhecer a iluminação no líder e a perfeição de sua doutrina, não vira um seguidor deste, pois segue fiel a sua busca por iluminação individual e não acredita que a alcançará pelas idéias e pelo caminho de outro. Nesse momento Sidarta se separa de Govinda, que vira seguidor de Gotama, e segue sua procura pela iluminação.

Logo em seguida, Sidarta conhece a cortesã Kamala de quem vira amante e lhe dará um filho, e o comerciante Kamasvami, de quem vira sócio. O homem passa viver os confortos e prazeres de uma existência mundana o que abre um grande vazio em seu peito. A gula, a luxúria e o hedonismo, apesar de massacrarem o espírito de Sidarta, foram extremamente necessários para ele se conhecer e evoluir. Sidarta termina seus dias como um balseiro feliz em harmonia com a natureza e realizado por ter tido uma vida de autoconhecimento e de, em certos momentos, ter, de fato, alcançado a iluminação.

Das mais variadas indagações que esse maravilhoso e desconcertante livro levanta, a meu ver, duas grandes mensagens são deixadas para os leitores: a cultura ocidental extremamente competitiva, materialista e descartável sempre vai impedir o homem de alcançar a felicidade. E como superar isso nos dias de hoje? Bom, essa é a segunda mensagem que o livro deixa: Não existe fórmula. Para cada pessoa é de um jeito.
Então... Vá à luta, companheiro! Tá esperando o quê?

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Tarsila do Amaral


1 de Setembro de 1886, em Capivari, interior de São Paulo, nascia uma das maiores artistas plásticas brasileiras: Tarsila Do Amaral.

A pintora junto de Anita Malfatti, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Menotti Del Picchia foi figura central da primeira fase modernista brasileira e o seu quadro  O Abaporu de 1928, um dos mais representativos e conhecidos da história, inaugurou o Movimento Antropofágico nas artes plásticas brasileiras.

A artista foi fortemente influenciada pelo cubismo e pelo surrealismo, e introduziu os preceitos daqueles movimentos no universo brasileiro das lendas regionais, e do cotidiano e das paisagens do Brasil.

Tarsila do Amaral faleceu na cidade de São Paulo em 17 de janeiro de 1973.

Para saber mais:
http://www.tarsiladoamaral.com.br/
O Abaporu - 1928

O Ovo ou o Urutu - 1928

Sol Poente - 1929

O Sonho - 1928
Estudo(Nu) - 1928 

Antropofagia - 1929

A Lua - 1928

A Cuca - 1924