segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A rua dos cataventos - Mário Quintana

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Canção Outonal - Federico Garcia Lorca

Hoje sinto no coração
um vago tremor de estrelas,
mas minha senda se perde
na alma de névoa.
A luz me quebra as asas
e a dor de minha tristeza
vai molhando as recordações
na fonte da idéia.


Todas as rosas são brancas,
tão brancas como minha pena,
e não são as rosas brancas
porque nevou sobre elas.
Antes tiveram o íris.
Também sobre a alma neva.
A neve da alma tem
copos de beijos e cenas
que se fundiram na sombra
ou na luz de quem as pensa.


A neve cai das rosas,
mas a da alma fica,
e a garra dos anos
faz um sudário com elas.


Desfazer-se-á a neve
quando a morte nos levar?
Ou depois haverá outra neve
e outras rosas mais perfeitas?
Haverá paz entre nós
como Cristo nos ensina?
Ou nunca será possível
a solução do problema?


E se o amor nos engana?
Quem a vida nos alenta
se o crepúsculo nos funde
na verdadeira ciência
do Bem que quiçá não exista,
e do mal que palpita perto?


Se a esperança se apaga
e a Babel começa,
que tocha iluminará
os caminhos da Terra?


Se o azul é um sonho,
que será da inocência?
Que será do coração
se o Amor não tem flechas?


Se a morte é a morte,
que será dos poetas
e das coisas adormecidas
que já ninguém delas se recorda?


Oh! sol das esperanças!
Água clara! Lua nova!
Coração dos meninos!
Almas rudes das pedras!


Hoje sinto no coração
um vago tremor de estrelas
e todas as coisas são
tão brancas como minha pena.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Pedaço de Mim - Chico Buarque



Oh,pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus

terça-feira, 17 de novembro de 2009

É ASSIM EM NÍNIVE - Ezra Pound

"Sim! Sou um poeta e sobre minha tumba
Donzelas hão de espalhar pétalas de rosas
E os homens, mirto, antes que a noite
Degole o dia com a espada escura.

"Veja! não cabe a mim
Nem a ti objetar,
Pois o costume é antigo
E aqui em Nínive já observei
Mais de um cantor passar e ir habitar
O horto sombrio onde ninguém perturba
Seu sono ou canto.
E mais de um cantou suas canções
Com mais arte e mais alma do que eu;
E mais de um agora sobrepassa
Com seu laurel de flores
Minha beleza combalida pelas ondas,
Mas eu sou poeta e sobre minha tumba
Todos os homens hão de espalhar pétalas de rosas
Antes que a noite mate a luz
Com sua espada azul.

"Não é, Ruaana, que eu soe mais alto
Ou mais doce que os outros. É que eu
Sou um Poeta, e bebo vida
Como os homens menores bebem vinho."

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Sinédoque, Nova York(2008)




Sinédoque é a figura de linguagem que consiste na substituição de um termo por outro havendo ampliação ou redução do sentido usual da palavra numa relação quantitativa. Nota do blogger.

Sinédoque, Nova York - é o nome do filme de estréia de Charlie Kaufman, o roteirista mais inventivo e original do atual cinema americano, atrás das câmeras. Kaufman se apropria da idéia da figura para mostrar o inferno interior de Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman, excelente como sempre) um montador teatral que fica décadas montando uma peça teatral que será seu trabalho definitivo, seu verdadeiro legado para a humanidade. Obsessivamente, Caden, constrói no teatro uma réplica da cidade que vive, e a peça passa a retratar sua vida. A ficção invade a realidade. Tanto que em determinado momento ele mesmo acaba sendo diretor e personagem da história. Em outro, contrata um ator para interpretá-lo e mais para frente um ator para interpretar o ator que o estava interpretando. Metalinguagem labiríntica ao extremo.

Confuso? Estranho? Bom, dependendo de um roteiro de Charles Kaufmam esses adjetivos são bem comuns. É verdade que sem o auxilio de um diretor para suavizar os símbolos hermético e difuso que habitam sua cabeça - como teve em Spike Jonze em “Quero Ser John Malkovich", e em " A Adaptação "; e em Michel Gondry em  "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" e "A Natureza Quase Humana" – o resultado do filme não foi genial, mas mesmo assim muito bom.

O filme conta com um elenco afinadíssimo e uma edição coerente com o desenvolver da narrativa, mas, o maior destaque, como era de se esperar, fica a cargo do roteiro. Rico em símbolos que discutem desde o “criar artísticos”, passando pela solidão e a incompleitude humana, a incapacidade de comunicação até o sentido (ou a sua falta) da vida e da morte. Tudo caoticamente e genialmente impregnado nos diálogos, nos saltos temporais inusitados e nos desfechos surreais.

Reconheço que tem que ter estômago preparado para aproveitar o prato preparado por Kaufaman. Principalmente no ¼ final do filme, cuja narrativa vai se abrindo até perder boa parte da sua unidade lógica. O filme apresenta-se aberto, fica totalmente abstrato e convida o espectador a desvendar os pesadelos egocêntricos, obsessivos e melancólicos de Caden. Não é para qualquer paladar. Eu como tenho estômago de avestruz, adorei!

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Inimigos Públicos - 2009



Não resta dúvidas que Michael Mann é um dos maiores artesãos do cinema de ação. Basta lembrar de filmes como “Fogo Contra Fogo” (o  tiroteio derradeiro do filme é show de bola) e de “O Último dos Moicanos” (o filme inteiro é espetacular) para termos certeza da afirmação acima. Por outro lado, pelo menos para mim, falta algo que compromete grande parte de seus filmes: um roteiro melhor elaborado e uma construção de personagem mais bem acabada. Sempre que termino de ver seus filmes saio com a mesma impressão de que poderia ter sido melhor.

Em seu mais recente trabalho, “Os Inimigos Públicos” (Public Enemies, 2009) é assim também: o filme tem um apurado visual estiloso sobre um roteiro acomodado e cheio de clichês.

A narrativa acompanha a os últimos anos do lendário gangster americano John Dillinger (Johnny Depp, em interpretação contida, mas eficiente), suas fugas mirabolantes e forçadas, a caçada imposta por um grupo especial federal liderado pelo agente Mervin Purvis (Christian Bale, em interpretação minimalista e apagada) até a sua morte pelas mãos de um dos agentes.

O roteiro escrito a 4 mãos por: Roman Bennet, Ane Biderman, Brtan Burroucg e pelo próprio diretor tenta criar uma simpatia entre os espectadores e a personagem de Depp, impregnando o gangster com o clássico estereotipo de bandido bonzinho e romântico. O roteiro ainda investe no açúcar, dando ênfase excessiva ao relacionamento entre o bandido e Billie Frechette (a bela e talentosa Marion Cottilard).

Louvável e admirável foi o resultado de Mann e Dante Spinotti (diretor de fotografia) ao captarem com as imagens do filme com câmeras digitais de alta definição em ambientes de pouca luz. As cenas noturnas e internas pareciam ballet noir e fantasmagórico. Estiloso!

No mais, tudo ok. Casting: ok! Trilha sonora: ok! Direção de arte: ok! E a sensação que poderia ter sido melhor: ok também!

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Manuel Bandeira

Paisagem noturna

A sombra imensa, a noite infinita enche o vale . . .
E lá do fundo vem a voz
Humilde e lamentosa
Dos pássaros da treva. Em nós,
— Em noss'alma criminosa,
O pavor se insinua . . .
Um carneiro bale.
Ouvem-se pios funerais.
Um como grande e doloroso arquejo
Corta a amplidão que a amplidão continua . . .
E cadentes, metálicos, pontuais,
Os tanoeiros do brejo,
— Os vigias da noite silenciosa,
Malham nos aguaçais.


Pouco a pouco, porém, a muralha de treva
Vai perdendo a espessura, e em breve se adelgaça
Como um diáfano crepe, atrás do qual se eleva
A sombria massa
Das serranias.


O plenilúnio via romper . . . Já da penumbra
Lentamente reslumbra
A paisagem de grandes árvores dormentes.
E cambiantes sutis, tonalidades fugidias,
Tintas deliqüescentes
Mancham para o levante as nuvens langorosas.


Enfim, cheia, serena, pura,
Como uma hóstia de luz erguida no horizonte,
Fazendo levantar a fronte
Dos poetas e das almas amorosas,
Dissipando o temor nas consciências medrosas
E frustrando a emboscada a espiar na noite escura,
— A Lua
Assoma à crista da montanha.
Em sua luz se banha
A solidão cheia de vozes que segredam . . .


Em voluptuoso espreguiçar de forma nua
As névoas enveredam
No vale. São como alvas, longas charpas
Suspensas no ar ao longe das escarpas.
Lembram os rebanhos de carneiros
Quando,
Fugindo ao sol a pino,
Buscam oitões, adros hospitaleiros
E lá quedam tranqüilos ruminando . . .
Assim a névoa azul paira sonhando . . .
As estrelas sorriem de escutar
As baladas atrozes
Dos sapos.


E o luar úmido . . . fino . . .
Amávico . . . tutelar . . .
Anima e transfigura a solidão cheia de vozes . .

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A Incomunicabilidade em Comum

common uncommunicability
(Pereira, Abujamra)

I been observin' you for a long time
you been observin' me for a long time too
I'd never say no to you
you would never say no to me
but we never talk each other
we never try
and life goes on in such a lonely way
that's just another case of common uncommunicability

Arraste-me para o Inferno (2009)



Depois de dar um “up” nas contas correntes administrando a franquia Spider-Man por quase dez anos, o americano Sam Raimi voltou ao que sabe fazer de melhor: filmes de terror trash cheio de humor negro.

Já vou logo avisando que “Arraste-me para o inferno” (Drag me to hell, 2009) não traz nenhuma inovação temática ou estética ao gênero horror, mas cumpre até certo ponto sua função: divertir e assustar, caso o espectador entre no clima que filme propõe: a autoparódia quanto gênero e a homenagem ao cinema horror gore dos anos 80.

O filme narra a história de Christine Brown (Alisson Lohman) uma agente de empréstimos de um banco que de olho em uma promoção ferra uma senhora sem muitos cuidados higiênicos, a Senhora Ganush (interpretada pela atriz Lorna Raver). A Velha não é apenas uma aposentada doente, e sim uma pessoa com conhecimentos em bruxaria e ao sentir-se humilhada pela jovem lhe roga uma maldição: em três dias, um demônio chamando lámia virá e levará a alma de Christine para o inferno.

A partir daí pouco importa a consistência do roteiro ou construção das personagens. Sam Raimi leva o filme para os seus domínios e mostra que ainda e "o cara". Cria gags nonsenses memoráveis (a cena da bigorna é bem ao estilo dos desenho do papa-léguas), muita escatologia,  violência exagerada e uma capacidade plástica para cenas ação, sustos e humor, tudo ao mesmo tempo.

Poderia ter sido melhor a escolha do casting. Alison Lohman é incapaz de transmitir qualquer emoção. Assim como o canastra Justin Long que desperdiça ótimas piadas com sua falta de timing.

Não da para encher a bola do filme, pois ele não encheu os olhos. Como também não da para encher de porrada, pois o filme não encheu o saco. Apenas assistível!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

À Procura de Eric - 2009



“Quando as gaivotas seguem o barco dos pescadores, é porque pensam que sardinhas serão atiradas ao mar.”.

A frase enigmática acima foi dita pelo temperamental e genial atacante francês Eric Cantona, em entrevista na ocasião de suspensão de 9 meses depois de agredir um torcedor em um jogo entre o Manchester United, time que o craque defendia versus o pequeno Cristal Place em 1995.

Cantona foi um jogador tão talentoso quanto indisciplinado. Seu talento resultou na formação e na consolidação do Manchester United como um dos times mais vencedores do mundo, por outro lado seus problemas abreviaram sua carreira e reduziram suas participações na seleção francesa.

Sob a sombra desse ídolo imperfeito, o genial cineasta britânico Ken Loach em companhia do roteirista Paul Laverty criaram uma dos filmes mais bacanas dos últimos anos: A Procura de Eric (Looking for Eric – 2009).

O filme narra de maneira emocionante e cômica a história de Eric Bishop(Steve Evets, sensacional), um carteiro em crise dado a ataques de pânico. Por conta de um desses ataques no passado, o carteiro, abandona a mulher com uma filha recém-nascida. Tal atitude atormenta ainda Eric que agora, no presente, foi abandonado por sua segunda mulher e ficou com a guarda de dois enteados. Para ajudar a filha a se formar, Eric precisar entrar em contato com a ex-mulher e as antigas feridas serão reabertas mudando a vida de todos os envolvidos.

Como na filmografia de Loach há todo um elemento social e o drama família, mas o diretor deixa um pouco de lado sua estética ultra-realista e abre espaço para aspectos mais delirantes. E é exatamente nesse espaço surrealista que entra Eric Cantona. Bishop torce pelos “red devils” e tem no jogador francês uma idolatria descomunal e quando se sente pressionado pela falta de comando em sua casa, a falta de comunicação com seus filhos, à possibilidade de reencontrar sua primeira esposa e o mau rendimento no trabalho, rouba um pouco de maconha de um de seus filhos e nessas “viagens” o atacante aparece para bater um papo com o carteiro e lhe dar alguns conselhos divertidos e misteriosos.

Um filme para quem gosta de futebol e de cinema, não necessariamente nessa ordem.

O filme entra em circuito comercial sexta-feira dia 06/11/2009, conforme a ascessoria de imprensa da Califórnia Filmes.

Perseguição (2009)



Patrice Chéreau é um realizador irregular. Para cada filme bom que assina o diretor, roteirista e ator francês - A Rainha Margot “La Reine Margot” (1994) e Gabrielle (2005) - finaliza outros menos inspirados e de menos valor artístico –Intimidade “Intimancy” (2001) e Seu Irmão “Son Fere” (2003).
Perseguição “Persecution” (2009), seu mais recente trabalho, infelizmente, encontra-se junto aos dois últimos citados.

O filme, que tem uma sinopse interessante, narra de maneira seca e amarga o relacionamento de Daniel (Romain Duris, fraquinho, fraquinho...), um homem de 35 anos que não tem um emprego fixo e vive de bicos, e de Sonia(Charlotte Gainsbourg, decepcionante), uma mulher bem empregada que viaja muito a negócios. O relacionamento dos dois não vai bem por conta da falta de comunicação entre o casal e chega ao limite quando aparece uma personagem sem nome, apenas conhecida como “o louco”, dignamente interpretado por Jean-Hughes Anglade, que se apaixona por Daniel e passa a persegui-lo.

O espectro das relações humanas é um material excelente para contar histórias, mas nas mãos de Chéreau caem na famosa “vala dos lugares comuns”. Daniel é o estereótipo de homem sensível que por baixo da aparência rude e do comportamento anti-social, reside um poço de boas intenções. Sonia também não apresenta grandes virtudes como personagem. E a famosa representação da mulher voltada para carreira que esquece da vida pessoal. Somente a personagem de Anglade apresenta um frescor curioso e original, mas é pouco para segurar o filme.

Repleto de diálogos longos e pseudocabeças, que saem do nada e vão a lugar nenhum. O filme é uma promessa que não se cumpre: Você passa o filme todo esperando acontecer alguma coisa e nada.