sexta-feira, 31 de julho de 2009

Ferreira Gullar

Traduzir-se


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
-que é uma questão
de vida ou morte-
será arte?

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Charles Aznavour - She

Murilo Mendes

NOVÍSSIMO PROMETEU

Eu quis acender o espírito da vida,
Quis refundir meu próprio molde,
Quis conhcer a verdade dos seres, dos elementos;
Me rebelei contra Deus,
Contra o Papa, os banqueiros, a escola antiga,
Contra minha família, contra meu amor,
Depois contra o trabalho,
Depois contra a preguiça,
Depois contra mim mesmo,
Contra minhas três dimensões:

Então o ditador do mundo
Mandou me prender no Pão De Açúcar:
Vêm esquadrilhas de gaviões
Bicar o meu pobre fígado.
Vomito bilis em quantidade,
Contemplo lá em baixo as filhas do mar
Vestidas de maiô, cantando sambas,
Vejo madrugadas e tardes nascerem
- Pureza e simplicidade da vida! -
mas não posso pedir perdão.

domingo, 26 de julho de 2009

Manoel de Barros

Seis ou Treze Coisas que Aprendi Sozinho

1
Gravata de urubu não tem cor.
Fincando na sombra um prego ermo, ele nasce.
Luar em cima de casa exorta cachorro.
Em perna de mosca salobra as águas se cristalizam.
Besouros não ocupam asas para andar sobre fezes.
Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina.
No osso da fala dos loucos têm lírios.

3
Tem 4 teorias de árvore que eu conheço.
Primeira: que arbusto de monturo agüenta mais formiga.
Segunda: que uma planta de borra produz frutos ardentes.
Terceira: nas plantas que vingam por rachaduras lavra um poder mais lúbrico de antros.
Quarta: que há nas árvores avulsas uma assimilação maior de horizontes.

7
Uma chuva é íntima
Se o homem a vê de uma parede umedecida de moscas;
Se aparecem besouros nas folhagens;
Se as lagartixas se fixam nos espelhos;
Se as cigarras se perdem de amor pelas árvores;
E o escuro se umedeça em nosso corpo.

9
Em passar sua vagínula sobre as pobres coisas do chão, a
lesma deixa risquinhos líquidos...
A lesma influi muito em meu desejo de gosmar sobre as
palavras
Neste coito com letras!
Na áspera secura de uma pedra a lesma esfrega-se
Na avidez de deserto que é a vida de uma pedra a lesma
escorre. . .
Ela fode a pedra.
Ela precisa desse deserto para viver.

11
Que a palavra parede não seja símbolo
de obstáculos à liberdade
nem de desejos reprimidos
nem de proibições na infância,
etc. (essas coisas que acham os
reveladores de arcanos mentais)
Não.
Parede que me seduz é de tijolo, adobe
preposto ao abdomen de uma casa.
Eu tenho um gosto rasteiro de
ir por reentrâncias
baixar em rachaduras de paredes
por frinchas, por gretas - com lascívia de hera.
Sobre o tijolo ser um lábio cego.
Tal um verme que iluminasse.

12
Seu França não presta pra nada -
Só pra tocar violão.
De beber água no chapéu as formigas já sabem quem ele é.
Não presta pra nada.
Mesmo que dizer:
- Povo que gosta de resto de sopa é mosca.
Disse que precisa de não ser ninguém toda vida.
De ser o nada desenvolvido.
E disse que o artista tem origem nesse ato suicida.

13
Lugar em que há decadência.
Em que as casas começam a morrer e são habitadas por
morcegos.
Em que os capins lhes entram, aos homens, casas portas
a dentro.
Em que os capins lhes subam pernas acima, seres a
dentro.
Luares encontrarão só pedras mendigos cachorros.
Terrenos sitiados pelo abandono, apropriados à indigência.
Onde os homens terão a força da indigência.
E as ruínas darão frutos

sexta-feira, 24 de julho de 2009

História do Olho - Georges Bataille



George Bataille (1897-1962) era apenas um Arquivista na biblioteca nacional de Paris, quando em 1928, a pedido do seu analista escreveu a novela "a história do Olho" sob o pseudônimo de Lord Auch. Seu analista achou que faria bem ao jovem exorcizar seus demônios interiores, e transferir para a literatura o seu “grito de horror” à vida.

A parir dessa obra, o escritor se inscreveu para sempre no mundo das letras do Século passado, e lançou sua influência em escritores como Camus e Mishima, por exemplo.

Trilhado caminhos explorados por Sade, A história de olho é um misto de fantasia e autobiografia. O livro narra fatos perturbadores da vida de um adolescente de 16 anos que em companhia de uma amiga chamada Simone, mergulham dentro do mundo das descobertas sexuais longe da censura e da moral adulta. A Narrativa é repleta de obscenidades e perversidades contada de forma direta, econômica em adjetivos e cheia de imagens fortes e com um surrealismo peculiar.

O escritor utiliza a violência e a obscenidade como recurso criativo e estético para subverter a visão da normalidade, criando um efeito perturbador, contestador e libertador sobre os aspectos do desejo, do corpo, da vida e da morte.

A edição que li é da COSACNAIF, e como de costume, muito bem acabada e caprichada. Além da novela, o livro conta com ensaios enriquecedores e deliciosos de autoria de Roland Barthes e Júlio Cortázar e um prefácio muito bom de Elaine Robert Moraes, tradutora do livro.

Um livro terrivelmente perturbador!

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Fitter, Happier - Radiohead



Fitter, happier, more productive,
comfortable,
not drinking too much,
regular exercise at the gym
(3 days a week),
getting on better with your associate employee contemporaries ,
at ease,
eating well
(no more microwave dinners and saturated fats),
a patient better driver,
a safer car
(baby smiling in back seat),
sleeping well
(no bad dreams),
no paranoia,
careful to all animals
(never washing spiders down the plughole),
keep in contact with old friends
(enjoy a drink now and then),
will frequently check credit at
(moral) bank (hole in the wall),
favors for favors,
fond but not in love,
charity standing orders,
on Sundays ring road supermarket
(no killing moths or putting boiling water on the ants),
car wash
(also on Sundays),
no longer afraid of the dark or midday shadows
nothing so ridiculously teenage and desperate,
nothing so childish - at a better pace,
slower and more calculated,
no chance of escape,
now self-employed,
concerned (but powerless),
an empowered and informed member of society
(pragmatism not idealism),
will not cry in public,
less chance of illness,
tires that grip in the wet
(shot of baby strapped in back seat),
a good memory,
still cries at a good film,
still kisses with saliva,
no longer empty and frantic
like a cat
tied to a stick,
that's driven into
frozen winter shit
(the ability to laugh at weakness),
calm,
fitter,
healthier and more productive
a pig
in a cage
on antibiotics.

Luis Buñuel - Quando Fomos Para a Cama

trad. de mário cesariny

Os resíduos de estrela que ficaram entre os seus
cabelos
crocitavam como cascas de amendoins
a estrela cuja luz tu descobriste
há um milhão de anos já
no mesmo instante em que era dado à luz
um diminuto menino chinês.


«Os chinas são os únicos que não temem
os fantasmas
que nos saem da pele todas as noites.»


Lástima é que a estrela
não tivesse sabido fecundar teu seio
e que o pássaro da lamparina de azeite
a bicasse como casca de amendoim
o teu e o meu olhar
deixaram-te no ventre
um signo futuro de luminosa multiplicação.

Florbela Espanca

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus barcos...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Philippe Halsman

Self-portait

Philippe Halsman(1906 Riga, Letônia / Nova York 1979) foi um dos fotógrafos de retratos mais originais e inventivos do nosso século.

Iniciou seus trabalhos fotográficos em 1928 em Paris. Em 1940 emigrou para os Estados Unidos onde se notabilizou em diversos trabalhos para a revista Life.

Seus mais importantes trabalhos são a série de fotos com os modelos famosos saltando, a jumpology; os retratos que fez para a Life magazine e a longa e prolifera parceria que estabeleceu com o pintor espanhol Salvador Dalí em que explorava aspectos surreais da obra do pintor.

Fonte do texto: Fotografia do Século XX - Museum Ludwig de Colónia, 2002- Editora Taschen.
Fonte das Fotos: Magnus Photos Agency: www.magnumphotos.com


Dalí Atomicus

Dalí

Dalí

Cranio de Nus

Jean Cocteau

Jean Cocteau

Elizabeth Taylor
Grace Kelly

Albert Einstein

Audrey Hapburn

Alfred Hitchcock
Hitchcock e Tippi Hedren

Sophia Loren
Audrey Hepburn
Duke and Duchess of Winsdor

Dean Martin and Jerry Lewis

Bridget Bardot

Richard Nixon

Phillipe Halsman and Marilin Monroe



Marc Chagall

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Ubu Roi em 13 litografias de Joan Miró 1966


I - Frontispiece: Naissance d'Ubu



II - Le banquet




III - Chez le Roi de Pologne



IV- La revue


V - Le massacre du Roi de Pologne



VI- Bougrelas et sa mère



VII - Les Nobles à la trappe



VIII - Chez le Tsar



IX - Le trésor et la Mère Ubu



X - La guerre



XI - La nuit, l'ours



XII- Le sommeil du Père Ubu



XIII - Le voyage de retour

sábado, 18 de julho de 2009

Histórias Repentinas - Laerte Coutinho


No Brasil nos anos 80, tivemos o aparecimento da Crico Editrial que tinha um proposta nova em quadrinhos de humor e adulto: lançar revistas como a Circo, a Chiclete com Banana e a Níquel Nausea e assim suprimir a demanda por quadrinhos adultos. Dessa geração de autores vieram: Angeli, Laerte, Luis Gê, Glauco entre outros, cheio boas novas para contar. Essas revistas ainda traziam o que de melhor era publicado no mundo em quadrinhos underground feito no mundo . Foi naquelas páginas que eu conheci Robert Crumb e Moebius, por exemplo.

Eu Adorava aquelas revistas! Sobretudo as histórias do Angeli com seus heróis cafajestes e aproveitadores e o seu humor rasgado no limite do aceitável. As historias líricas e delirantes do Luis Gê. O humor certeiro e instantâneo das histórias do Glauco. Mas para mim, a melhor parte eram as sensacionais histórias esparsas de autoria do Laerte.

A editora devir lançou em 2002 uma coletânea chamada "histórias repentinas". Nesse livro temos algumas das melhores historias criadas pelo cartunista paulistano, como por exemplo, a Kafakaniana "A Crise", em que um homem que tem um importante cargo público percebe que saiu de casa pela manha e esqueceu-se de um pequeno detalhe: colocar as calças. Ele circula por lugares cheio de pessoas e essas parecem nem perceber ou se importar como o fato de ele estar sem as calças.

Outra historia bem gênial é a “Lingerie" a qual um notório machão acorda atrasado para ir trabalhar e não encontra uma cueca para vestir, desse jeito, veste uma calcinha da sua esposa, mas por ironia do destino e atropelado e morre. Quando levam seu corpo para necropsia, percebem que ele está usando uma delicada Lingerie, e isso destrói sua reputação até no além.

O livro ainda tem a obra- prima do artista, "a Insustentável leveza do Ser" que narra em poucas páginas à história de um rapaz que na manhã que completaria 18 anos, seu pai lhe revela que não é seu pai, que na verdade nem homem é, e sim uma tia distante que usou uma fantasia durante todos esses anos. E isso é só o começo, depois seu pai (ou tia) lhe revela que sua mãe é na verdade é um leiteiro e sua irmã e uma atriz contratada e nem ele é mesmo o que parece ser. A história ainda tem um final tão absurdo e bombástico quanto toda narrativa. Excepcional!

Histórias repentinas é um livro que oferece diversão em vários níveis. É possível se divertir com as gags despretensiosas do autor como também das situações absurdas e nonsense mais elaboradas. A inventividade das histórias ainda é completada pelo traço competente polivalente que não se limita ao cartunesco, mas também não o despreza. Um livro para diversão, no melhor sentido da palavra.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Mutantes

Os mutantes - Fuga Nº 2


Os Mutantes - Panis Et Circenses

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Across the Universe (2007) - Julie Taymor


Ah, os anos 60... Apesar das guerras ao redor do mundo, do estabelecimento das ditaduras no terceiro mundo, de ter sido o auge da guerra fria e da corrida armamentista, o mundo era um lugar mais romântico! O movimento de contracultura gritava e cantava pela paz e o amor, os jovens eram idealistas e politizados e os sonhos de um mundo melhor pareciam ter força para mudar o mundo. Nessa época, apareceu um grande número de movimentos culturais como a Novelle Vague francesa e o Cinema Novo brasileiro que são bons representantes dessa forma de arte que além de possuir um grande valor artístico, tinha essa preocupação mais social.
O leitor mais cético e cínico (no melhor sentido da palavra) pode achar isso inocência, certo? Pode até ser, mas porque não a fé e a pureza ao invés da descrença e da malícia. Eu trocaria sem pensar minha juventude nos frios anos 90 e 2000 pelos calorosos anos 60!
Bom... Basta de chorumelas e vamos para o texto...

Quem melhor representa toda essa contradição, inocência e efervescência dos anos 60?
The Beatles, ora....
Sendo assim, porque não usar suas músicas para contar uma história de amor naquela década. Melhor, porque não contar uma história de amor através das suas músicas.

Across the universe, terceiro filma da impressionante cineasta americana Julie Taymor faz isso, utiliza o universo beatlemaniaco para contar uma história de amor estilizada, divertida, sensível e com uma certa carga dramática. Taymor que já havia mostrado toda sua competência visual e sua imaginação febril nos ótimos Titus e Frida, aqui nos brinda com filme deslumbrante, visualmente impecável e apaixonante.

Todas as personagens do filme remetem ao universo da banda inglesa, a começar pelos nomes dos personagens, Jude, Lucy, Max, Sadie, Prudence, Desmond, Dr. Roberts, Mr. Kite entre outros, como nota-se também no enredo do filme e nas várias situações esparsas no filme. Todas as músicas foram cantadas pelos atores de forma competente, destaque para a dupla de protagonistas a bela Evan Rachel Wood (Lucy) e o competente Jim Struges (Jude) que além de excelente ator, tem uma incrível semelhança com Paul McCartney (pelo menos eu achei).

A trilha sonora dispensa considerações... é Beatles poxa! Como diria um velho amigo: quem não gosta de Beatles, bom sujeito não é... Vários clássicos de várias épocas da banda de Liverpool:
All my loving, I Want to hold your hand, Let be, Come Together, I am the Walrus, Something, Strawberry fields forever, Across the Universe, Helter Skelter, Happiness Is a Warm Gun entre outras.

Confesso a vocês, amigos, que não sou nada chegado em musicais. Nunca assisti Cantado na Chuva e detesto West Side Story, porém dois musicais têm destaque no meu coração cinéfilo. Um deles é Os Guarda-Chuvas do amor de 1963 de Jaques Demy e agora esse Across the Universe.

Filmão, amigos... Para ver ou rever!


Cenas do filme






Across the universe - I Am Walrus/bono


Across the Universe - Being for the Benefit of Mr. Kite/Eddie Izzard
I've got blisters on my fingers!

O Estranho - Orson Welles 1946



Orson Welles foi tão respeitado e admirado por seus filmes que quando fez um trabalho abaixo do "genial", logo essa realização foi chamada de filme menor. Como é o caso do suspense O Estranho (The Strange – 1946).

O filme conta a história de Charles Rankin( Welles), um professor universitário prestes a se casar com a bela Mary Longstreet (Loretta Yong), filha de um juiz federal, em uma calma cidadezinha do interior americano. Porém, uma visita trás a tona o passado de sórdido de Rankin. Sua verdadeira identidade é revelada. Ele, na verdade, é um criminoso nazista foragido chamado Franz Kindler

No dia do casamento de Rankin/Kindler, chega na cidade o único homem que pode identificá-lo, um ex-companheiro chamado Meinike, na verdade esse estava preso e foi solto estrategicamente pela comissão de crimes de guerra para revelar o paradeiro do vilão. Rankin ao ver seu disfarce ameaçado, mata o antigo colaborador, mas não contava que agora na cidade, há um detetive a seu encalço. O Detetive Wilson( Edward G. Robinson), da Comissão de Crimes de Guerra, está na cola de Rankin e vai fazer de tudo para pegá-lo. O jogo de gato e rato de Welles G. Robinson é memorável, um dos maiores duelos da história do cinema.

O estranho não possui as todas as grandes qualidades que fizeram de Welles o lendário cineasta que de fato foi. Aqui não há o deslumbrante jogo de câmeras ,(embora tenha alguns takes de ângulos inusitados) e nem o roteiro não linear e labirintítico, mas a influência plástica expressionistas manifesta tanto na fotografia quanto na interpretação, fazendo desse um delicioso filme de suspense!

terça-feira, 14 de julho de 2009

Acabou Chorare - Novos Baianos



Em sua edição de outubro de 2007, a Revista Rolling Stones publicou uma lista com os 100 melhores álbuns da música brasileira de todos os tempos, e o primeiro colocado foi o disco Acabou Chorare dos Novos Baianos.

Como toda lista de melhores que se preze, essa também foi bem polêmica. O Discou deixou para trás trabalhos de artistas canonizados como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Jobim, João Gilberto Mutantes e outros, e para ser sincero tenho cá minhas dúvidas se esse álbum é melhor que Construção do Chico ou Tropicália ou Panis et circense do Caetano, do Gil e sua trupe ou outros ainda, mas trata-se de um disco excelente e certamente com um lugar entre os dez melhores.

O Disco foi lançado em 1972 e trouxe o caldeirão o sonoro do disco anterior "Ferro na Boneca" de 1970, que continha: baião, frevo, tango, mambo, música de orquestra e rock and roll e acrescentou a suavidade e a sofisticação da bossa nova de João Gilberto, padrinho do grupo.

O álbum abre com a clássica "Brasil Pandeiro", Música de Assis Valente e eternizada por Carmem Miranda. “ Depois segue com a romântica“Preta, Pretinha”, o samba” Swing da Casa de Campo”, depois com o rock-Baião de "Tinindo Trincando" e a Bossa” Acabou Chorare".

O lado B tem: A bela “o mistério do planeta” e a sensual e delicada“A Menina Dança”, cantada pela Baby Consuelo (Não sei o nome que ela tem agora). Depois a carnavalesca "besta é tu", "Um bilhete para dindi" composta por Jorginho Gomes, Baterista e irmão de Pepeu; e uma reprise de Preta, Pretinha.

A formação dos Novos Baianos na época era: Baby Consuelo (vocal),Paulinho Boca de Cantor (Vocal), Pepeu Gomes (guitarras, Violões e os arranjos), Moraes Moreira (Violões e compositor) e o Galvão(responsável pelas letras do grupo). Davam ainda apoio ao grupo o Baixista Dadi e o baterista Jorginho, que anos mais tarde formariam juntos o conjunto A Cor Do Som.

Um discão meus amigos e minhas amigas!

Novos baianos preta pretinha 1973

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Antonin Artaud - Para Acabar de Vez Com o Juizo de Deus

O que é grave
é nós sabermos
que depois da ordem
deste mundo
uma outra existe.

Que outra?

Não o sabemos.

O número e a ordem das suposições possíveis
é neste campo
justamente
o infinito!

E o infinito o que é?

Não sabemos exactamente o que seja.

É uma palavra
que nós usamos
para designar
a abertura
da nossa consciência
perante a desmedida
possibilidade,
infatigável e desmedida.

E o que vem a ser exactamente a consciência?

Não sabemos exactamente o que seja.

É o nada.

Um nada
de que nos servimos
quando não sabemos qualquer coisa
para designar
qual a faceta que desconhecemos
e então
falamos em
consciência,
pelo prisma da consciência,
quando há cem mil outros prismas.

E então?

Parece que a consciência
estaria em nós
ligada
ao desejo sexual
e à fome;
mas poderia
perfeitamente
não ter qualquer ligação
com isso.

Diz-se,
é possível dizer,
há quem diga
que a consciência
é um apetite,
o apetite de viver;

e imediatamente
a par do apetite de viver,
é o apetite de comida
o que imediatamente nos vem ao espírito;

como se não houvesse gente que come
sem o mínimo apetite;
e gente que tem fome.

Pois também isso
acontece
ter fome
sem apetite;

e então?

Então

o espaço do possível
surgiu-me um dia
como um grande peido
que eu tivesse dado;
mas nem o espaço,
nem o possível
sabia eu exactamente o que fossem,
nem nisso sentia necessidade de pensar;

eram palavras
inventadas para definirem coisas
que existiam
ou não existiam
frente à
premente urgência
de uma necessidade:
a de suprimir a ideia,
a ideia e o seu mito
e em seu lugar instituir
a manifestação tonante
desta explosiva necessidade:
dilatar o corpo da minha noite interna,

no nada interno
do meu eu

que é noite,
nada,
irreflexão,

mas que é explosiva afirmação
de que há
algo
a que dar lugar:

o meu corpo.

Mas então
reduzir o meu corpo
a um gás fétido?
Dizer que tenho um corpo
porque tenho um gás fétido
em formação
dentro de mim?

Não sei
mas
sei que

o espaço,
o tempo,
a dimensão,
o devir,
o futuro
o porvir,
o ser,
o não ser,
o eu,
o não eu,

nada são para mim;

mas há uma coisa
que é qualquer coisa,
uma só coisa
susceptível de ser qualquer coisa,
uma coisa que eu sinto
por ela querer

SAIR:

a presença
da minha dor
de corpo,
a presença
agressiva
jamais cansativa
do meu
corpo;

e por mais que me apertem com perguntas
e que eu me esquive a todas,
chego a um ponto
em que me vejo constrangido
a dizer não,

NÃO

portanto
à negação;

e esse ponto
é quando me apertam,

quando me amolgam
e me dão tratos
até de mim sair
o alimento,
o meu alimento
e o seu leite,

e então que fica?

Fico eu sufocado;
E não sei que acção será essa
Mas apertando-me assim com perguntas
até à completa ausência,
ao nada
da questão,
apertaram-me
até sufocar
em mim
a ideia de corpo
e de ser um corpo,

e foi então que eu senti o obsceno

e que me peidei
de irrisão
e de excesso
e de revolta
pela minha sufocação.

É que me apertavam
contra o meu corpo
e contra o corpo

e foi então
que eu fiz ir tudo pelos ares
porque no meu corpo
não se toca nunca.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Álvaro de Campos

O OPIÁRIO

É antes do ópio que a minh'alma é doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de bordo há-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
Já não encontro a mola pra adaptar-me.

Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os próprios gozos gânglios do meu mal.

É por um mecanismo de desastres,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Que passo entre visões de cadafalsos
Num jardim onde há flores no ar, sem hastes.

Vou cambaleando através do lavor
Duma vida-interior de renda e laca.
Tenho a impressão de ter em casa a faca
Com que foi degolado o Precursor.

Ando expiando um crime numa mala,
Que um avô meu cometeu por requinte.
Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,
E caí no ópio como numa vala.

Ao toque adormecido da morfina
Perco-me em transparências latejantes
E numa noite cheia de brilhantes,
Ergue-se a lua como a minha Sina.

Eu, que fui sempre um mau estudante, agora
Não faço mais que ver o navio ir
Pelo canal de Suez a conduzir
A minha vida, cânfora na aurora.

Perdi os dias que já aproveitara.
Trabalhei para ter só o cansaço
Que é hoje em mim uma espécie de braço
Que ao meu pescoço me sufoca e ampara.

Gostava de ter poemas e novelas
Publicados por Plon e no Mercure,
Mas é impossível que esta vida dure.
Se nesta viagem nem houve procelas!

A vida a bordo é uma coisa triste,
Embora a gente se divirta às vezes.
Falo com alemães, suecos e ingleses
E a minha mágoa de viver persiste.

Eu acho que não vale a pena ter
Ido ao Oriente e visto a índia e a China.
A terra é semelhante e pequenina
E há só uma maneira de viver.

Por isso eu tomo ópio. É um remédio
Sou um convalescente do Momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a Vida faz-me tédio.

Fumo. Canso. Ah uma terra aonde, enfim,
Muito a leste não fosse o oeste já!
Pra que fui visitar a Índia que há
Se não há Índia senão a alma em mim?

Sou desgraçado por meu morgadio.
Os ciganos roubaram minha Sorte.
Talvez nem mesmo encontre ao pé da morte
Um lugar que me abrigue do meu frio.

Eu fingi que estudei engenharia.

Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda.
Meu coração é uma avòzinha que anda
Pedindo esmola às portas da Alegria.

Não chegues a Port-Said, navio de ferro!
Volta à direita, nem eu sei para onde.
Passo os dias no smokink-room com o conde -
Um escroc francês, conde de fim de enterro.

Volto à Europa descontente, e em sortes
De vir a ser um poeta sonambólico.
Eu sou monárquico mas não católico
E gostava de ser as coisas fortes.

Gostava de ter crenças e dinheiro,
Ser vária gente insípida que vi.
Hoje, afinal, não sou senão, aqui,
Num navio qualquer um passageiro.

Não tenho personalidade alguma.
É mais notado que eu esse criado
De bordo que tem um belo modo alçado
De laird escocês há dias em jejum.

Não posso estar em parte alguma.
A minha Pátria é onde não estou.
Sou doente e fraco. O comissário de bordo é velhaco.
Viu-me co'a sueca...e o resto ele adivinha.

Um dia faço escândalo cá a bordo,
Só para dar que falar de mim aos mais.
Não posso com a vida, e acho fatais
As iras com que às vezes me debordo.

Levo o dia a fumar, a beber coisas,
Drogas americanas que entontecem,

E eu já tão bêbado sem nada! Dessem
Melhor cérebro aos meus nervos como rosas.


Escrevo estas linhas. Parece impossível
Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta!
O facto é que esta vida é uma quinta
Onde se aborrece uma alma sensível.

Os ingleses são feitos pra existir.
Não há gente como esta pra estar feita
Com a Tranquilidade. A gente deita
Um vintém e sai um deles a sorrir.

Pertenço a um género de portugueses
Que depois de estar a Índia descoberta
Ficaram sem trabalho. A morte é certa.
Tenho pensado nisto muitas vezes.

Leve o diabo a vida e a gente tê-la!
Nem leio o livro à minha cabeceira.
Enoja-me o Oriente. É uma esteira
Que a gente enrola e deixa de ser bela.

Caio no ópio por força. Lá querer
Que eu leve a limpo uma vida destas
Não se pode exigir. Almas honestas
Com horas pra dormir e pra comer.

Que um raio as parta! E isto afinal é inveja.
Porque estes nervos são a minha morte.
Não haver um navio que me transporte
Para onde eu nada queira que o não veja!

Ora! Eu cansava-me o mesmo modo.
Qu'ria outro ópio mais forte pra ir de ali
Para sonhos que dessem cabo de mim
E pregassem comigo nalgum lodo.

Febre! Se isto que tenho não é febre,
Não sei como é que se tem febre e sente.
O fato essencial é que estou doente.
Está corrida, amigos, esta lebre.

Veio a noite. Tocou já a primeira
Corneta, pra vestir para o jantar.
Vida social por cima! Isso! E marchar
Até que a gente saia pla coleira!

Porque isto acaba mal e há-de haver
(Olá!) sangue e um revólver lá pró fim
Deste desassossego que há em mim
E não há forma de se resolver.

E quem me olhar, há-de-me achar banal,
A mim e à minha vida... Ora! um rapaz...
O meu próprio monóculo me faz
Pertencer a um tipo universal.

Ah quanta alma viverá, que ande metida
Assim como eu na Linha, e como eu mística!
Quantos sob a casaca característica
Não terão como eu o horror à vida?

Se ao menos eu por fora fosse tão
Interessante como sou por dentro!
Vou no Maelstrom, cada vez mais pró centro.
Não fazer nada é a minha perdição.

Um inútil. Mas é tão justo sê-lo!
Pudesse a gente desprezar os outros
E, ainda que co'os cotovelos rotos,
Ser herói, doido, amaldiçoado ou belo!

Tenho vontade de levar as mãos
À boca e morder nelas fundo e a mal.
Era uma ocupação original
E distraía os outros, os tais sãos.

O absurdo, como uma flor da tal Índia
Que não vim encontrar na Índia, nasce
No meu cérebro farto de cansar-se.
A minha vida mude-a Deus ou finde-a ...

Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,
Até virem meter-me no caixão.
Nasci pra mandarim de condição,
Mas falta-me o sossego, o chá e a esteira.

Ah que bom que era ir daqui de caída
Pra cova por um alçapão de estouro!

A vida sabe-me a tabaco louro.
Nunca fiz mais do que fumar a vida.


E afinal o que quero é fé, é calma,
E não ter estas sensações confusas.
Deus que acabe com isto!Abra as eclusas
E basta de comédias na minh'alma!

(No Canal de Suez, a bordo)

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Jules Et Jim (1961) Fancois Truffaut


Você me disse: "Amo você"
- E eu: "Espere"
Eu ia dizer: "Possua-me"
Você disse: "Vá"

Paris, 1912 - A Belle Époque. Jules (Oskar Werner) era um austríaco que vivia na cidade luz. Ele conheceu Jim (Henri Serre), um francês, e rapidamente viraram grandes amigos. Ambos tinham muita coisa em comum: eram escritores, boêmios e apaixonados pela vida e pela mesma mulher a imprevisível e doce Catharine (Jeanne Moreau). Com a primeira guerra mundial, os amigos são colocados em lados opostos no front. Os dois desejam não se encontraram para não terem que se enfrentarem no campo de batalha. Terminada a guerra, os amigos voltam a se encontrar, entretanto, Jim casa-se com Catherine, embora essa ainda continue a se relacionar com Jules. Esse é o argumento do magnífico Jules et Jim, um dos meus filmes de prefiridos e um dos maiores clássicos da história do cinema.


O filme foi escrito e dirigido por François Truffaut, baseado em romance de Henri-Pierre Roché e conta com muita sensibilidade e poesia a história de amor e amizade entre o trio de personagens. A narração começa de maneira divertida e leve enquanto conta a aventuras deles em busca dos prazeres da vida, mas vai tomando cores mais sombrias, dramáticas e trágicas no final, onde o amor sem limites e a incapacidade da felicidade causam sofrimento e destruição.

A direção de Truffaut é cheia de maneirismos da Novelle Vague francesa .O diretor mostra muito chame e estilo, principalmente na montagem fragmentada, original e cheia de saltos temporais. A narração em off e as legendas no meio das cenas também são compostas de maneira inteligente e criativa. A trilha sonora do filme é espetacular e composta por George Deleure, grande colaborador do realizador.

Mas o que há de melhor no filme é o desempenho do elenco. O trio está espetacular! Sobretudo Werner, que foi um dos mais importantes atores da história do cinema europeu, e Morreau que criou uma personagem marcante e eterna, um misto de anjo e demônio que ainda hoje causa discussões acaloradas em cinéfilos do mundo todo, uns defendendo, uns condenando sua Catharine. Eu a adoro! Não me canso de vê-la nesse filme com aquele bigode pintado no rosto correndo, andando de bicicleta rindo como se não existisse amanhã.

O filme, apesar do final fatalista e dramático, continua sendo um hino ao amor, a amizade e a vida. Cinema com “C” maiúsculo!





quarta-feira, 8 de julho de 2009

The Beatles - Your Mother Should Know

Depeche Mode - Enjoy The Silence

The Smiths - Shoplifters Of The World Unite

Chico Buarque, Tom Jobim e Telma Costa - Eu Te Amo

Wassily Kandinsky

"Enquanto a arte não dispensar o objeto, ela será meramente descritiva" Kandinsky


Wassily Kandinsky nasceu na cidade de Moscou, em 16 de dezembro de 1866, e é considerado o pioneiro do abstracionismo, uma das maiores revoluções no mundo das Artes Plásticas. Sua "Aquarela Abstrata" de 1910 foi a primeira obra representativa a buscar uma expressão não figurativa e a dissolução das imagens.

Amante da música, o pintor aplicava noções de harmonia e evolução em suas obras. Teve como grande influência Monet, a arte popular russa e os escritos teosóficos de Helena P.Blavastiky. Através dessas três principais fontes, desenvolveu sua evolução pictórica, atravessando o impressionismo, o fauvisomo e chegando ao abstracionismo.

Kandinsky morou na Rússia, mas a incompatibilidade de sua forma de expressão com o novo realismo socialista o fez seguir para Alemanha, onde viveu de 1921até 1933 e deu aulas na lendária escola de arquitetura e arte Balhaus. Com o fechamento da escola pelos nazistas,o pintor mudou-se para a França onde morreu 1944 aos 78 anos.



Algumas Obras

The Singer 1903

Blue Montain -1908



Mountain - 1909



Boat Trip 1910



Untituled( First Abstract Water Colour) 1910


All Saints 1911


Picture With White 1913


Fugue 1914


In Grey - 1919


Red Oval - 1920


Draght for Mural in the uniuriedArt Show, Wall B 1922

Cosmoposition VIII - 1923


Several Circles - 1926




Cosmoposition X - 1939




Twilight - 1943