terça-feira, 30 de junho de 2009

Allen Ginsberg

CANÇÃO

Tradução: Cláudio Willer


O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação
o peso
o peso que carregamos
é o amor.
Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano -
sai para fora do coração
ardendo de pureza -
pois o fardo da vida
é o amor,
mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.
Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor -
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
- não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contigo
quando negado:
o peso é demasiado
- deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.
Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho -
sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Lord Byron

Versos inscritos numa taça feita de um Crânio:
Tradução: Castro Alves

Não, não te assustes: não fugiu o meu espírito
Vê em mim um crânio, o único que existe
Do qual, muito ao contrário de uma fronte viva,
Tudo aquilo que flui jamais é triste.

Vivi, amei, bebi, tal como tu; morri;
Que renuncie e terra aos ossos meus
Enche! Não podes injuriar-me; tem o verme
Lábios mais repugnantes do que os teus.

Onde outrora brilhou, talvez, minha razão,
Para ajudar os outros brilhe agora e;
Substituto haverá mais nobre que o vinho
Se o nosso cérebro já se perdeu?

Bebe enquanto puderes; quando tu e os teus
Já tiverdes partido, uma outra gente
Possa te redimir da terra que abraçar-te,
E festeje com o morto e a própria rima tente.

E por que não? Se as fontes geram tal tristeza
Através da existência curta de um dia,
Redimidas dos vermes e da argila
Ao menos possam ter alguma serventia

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Sozinho Contra Todos - 1998


Existir é isso, beber-se a si próprio sem sede.
(J.P.Sartre)
No seu longa-metragem de estreia, "Sozinho Contra Todos” (Seul contre tous) 1998, o realizador franco-argentino Gaspar Noé nos convida a visitar dois infernos: um externo, que é a vida do Açougueiro (Philippe Nahon, excelente), um homem que perdeu tudo materialmente: foi preso, afastado de sua filha e perdeu suas posses; e o interno desse mesmo homem: a falta de esperança, o vazio, a culpa por sua ambiguidade moral que culminam em uma caminhada para perder a sanidade e a humanidade que lhe resta.

Depois de uma temporada na prisão por ter agredido um homem por suspeitar que esse houvesse abusado sexualmente de sua filha, uma garota emocionalmente instável, o Açougueiro tenta se re-erguer, deixa a filha em uma instituição mental do governo e arruma um emprego em um café.

Nesse serviço, ele se relaciona com a dona do local. Engravida-a e vão morar juntos. Porém, o tédio existencial do açougueiro junto ao seu comportamento violento logo o faz entrar em choque com a nova companheira. Ele a agride ferozmente, rouba-lhe uma arma e vai para as ruas da cidade.

Nas ruas, a personagem não encontra ajuda de ninguém, só indiferença. Inclusive dos poucos amigos que fez na vida. Ele segue caminhado pelos subúrbios labirínticos de Paris, remoendo seu ódio por tudo e por todos, acompanhado de seu revólver.

Nessas caminhadas, o açougueiro pensa obsessivamente na filha, por quem nutre um ardente e doentio desejo. A personagem é uma bomba relógio prestes a explodir, e a tragédia se pronuncia. Sem dúvidas, um dos filmes mais perturbadores que vi.

Sinto no cinema de Gaspar Noé uma necessidade de chocar o espectador, de passar um naturalismo cru e urgente e fazer a plateia sofrer junto com suas personagens. Percebem-se essas características na escolha dos seus temas, sempre ligados sordidez humana como: a violência, o incesto, a misoginia, o preconceito racial e a vingança. Como na desenvolver estético de seus trabalhos que valoriza a violência explícita (quem já assistiu “Irreversível”, vai lembrar-se do violento estupro e seus mais de 9 minutos de duração, como a cena impactante da briga na boate gay).

Um filme que não é para todos os gostos, é verdade, mas isso não quer dizer que não seja bom.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

John Cage - 4'33

A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original.... de Albert Einstein.




Não amigos e amigas, o blog não mudou sua proposta. O post não é uma pegadinha e nem eu estou perdendo a pouca sanidade que me resta, podem ficar tranquilos. O concerto para piano que acabaram de "ouvir" é de autoria do compositor americano John Cage( 1912/1982).

Cage foi um dos mais importantes compositores e teóricos musicais do século passado, desenvolveu uma obra iconoclasta, radical e influente, que tinha a intenção de destruir o formalismo representativo tradicional musical; empregando o acaso, a improvisação e o silêncio como elementos construtivos. A desconstrução formal da musical não começaram com o americano, o austríaco Arnold Schönberg, que foi professor de Cage, já estudava alternativas para substituir o sistema tonal, que marcara a história da música desde inícios do século 17, mas nas mãos de Cage isso foi levado até as ultimas consequências. A música, o silêncio e o ruído passam a serem partes do mesmo todo.

“Entre suas composições mais famosas vemos: Imaginary Landscape nº 4 uma musica caótica executada por 12 aparelhos de rádio ligados simultaneamente; e a peça para piano 4’33” (lê-se quatro minutos e 33 segundos). Sabe-se que: musica é o arranjo intelectual e ordenado de sons e pausas intercaladas distribuídas no tempo, mas em 4'33 não ha execução de uma nota sequer e o silêncio é preenchido pelos ruídos ambientes dos teatros.

Com a 4'33, John Cage criou uma música que é apresentada sempre da mesma forma, um músico sentado no meio do teatro sem executar uma nota sequer, mas que alcança um resultado diferente a cada apresentação, pois o comportamento, a interação e reação das pessoas que a assistem se apresentam sempre de maneira diferente, desse modo a música é criada pela plateia que assiste ao espetáculo.

Há ainda além da inovação na proposta musical, uma análise, mas reflexiva do papel da arte e de sua função. Genial!


John Cage Sonata V eu um piano "preparado" pelo compositor

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Trama internacional (2009) Tom Tykwer


Trama internacional (The International, 2009)”, o novo filme do diretor Alemão Tom Tykwer, é a maior prova que as vezes uma grande ideia, um grande diretor, um bom elenco não conseguem alcançar um resultado satisfatório.

Vamos aos fatos: um filme que explora o lado negro do capitalismo e expõe a ganância de algumas dessas corporações nefastas é algo que além de super-atual poderia render uma excelente trama; O diretor Tom Tykwer, que surgiu em 1998 com o frenético "Corra,Lola,Corra", é um dos mais versáteis e talentosos diretores da atualidade; O elenco do filme conta como protagonistas um dos grandes astros do momento, Clive Owen e a talentosíssima Naomi Watts, além do apoio de atores como, Ulrich Thomsen e Armin Mueller-Stah. Resumindo: tinha tudo para ser um filmão, mas na verdade foi um filminho!

O filme narra a história de Louis Sallinger (Clive Owen), um obsessivo e motivado agente da Interpol que tenta expor uma grande corporação financeira em uma investigação que envolve acusações de corrupção, lavagem de dinheiro, tráfico de armas e assassinato. Naomi Watts interpreta Eleanor Withiman, uma promotora de justiça de Manhatan que auxilia o agente em sua missão.

O filme tem um ritmo bem acelerado e possui cenas de ação muito bem construídas, porém, a trama e as personagens não se desenvolvem de maneira satisfatória. O elenco do filme também é negligenciado. Principalmente o papel de Watts, que fica omissa e em segundo plano esperando que a personagem de Owen resolva tudo na bala. As reviravoltas na trama, tema tão utilizado nesse tipo de filme, não se desenvolvem de maneira convincente e o final do filme é moralista e decepcionante. No cinema de Tykwer sempre há esse aspecto moral, ideológico e romântico, e por mais que seus filmes tenhas tramas diferentes entre si, da para perceber essa sua unidade autoral. Entretanto, ao passo que nos seus filmes antigos essas características são costurada de maneira hábil e engenhosa, nesse aqui é mais do mesmo.

Todo mundo adorou a sequência do tiroteio de mais de 15 minutos dentro do Museu Guggenheim em Nova York. Foi tudo ok. Bem coreografado e bem realista e tudo mais, mas é pouco para salvar o filme.

Se você gosta desses Trillers de ação pouco cerebrais como a trilogia Bourne vai gostar do filme. Agora se você for na intenção de ver um filme ação mais elaborado, vai sair decepcionado.

terça-feira, 23 de junho de 2009

O Castelo na Floresta - Norman Mailer


“que permite a sobrevivência dos demônios é que eles são suficientemente sábios para compreender que não há respostas, apenas perguntas”.O demônio narrador em o castelo da na floresta."

As Feridas infligidas ao consciente coletivo pelo advento do holocausto nazista continuam abertas (se é que um dia serão fechadas). Basta ver a quantidade de filmes e livros sobre esse período negro da humanidade que são lançados anualmente.

Filmes como o Leitor (2008), Um Bom homem (2008) e a Queda (2004); e o livro As benevolentes (2007) de Jonathan Littell tentam romper a dicotomia maniqueísta sobre o aspecto maléfico e tentam dar uma áurea mais humana a quem concebeu e promoveu aquele espetáculo deplorável. Entretanto, tratando-se disso, do assassinato covarde de milhões de pessoas, é possível consideráramos esse evento um ato demasiadamente humano? Dá para ser imparcial e não ver a pura face do mal nesses acontecimentos que vitimou mais 15 milhões de pessoas?

Para o lendário escritor norte-americano Norman Mailer não dá. Em seu derradeiro romance- Mailer morreu no final de 2007- O Castelo na Floresta, faz um estudo sobre a maldade da figura central desse acontecimento, o Austríaco Adolf Hitler, e lhe confere uma qualidade maléfica de origem metafísica.

No livro, os fatos são narrados por um demônio de escalão intermediário, uma espécie de executivo menor de uma corporação ou um oficial militar de patente baixa (no romance, tanto o inferno quanto o céu são retratados como instituições burocráticas ), que se dedica a recrutar "clientes" para o seu lado na guerra final. Ele é convocado pessoalmente pelo maligno para acompanhar e incitar um jovem cobiçado pelas hostes do mal que nasceria em 20 de Abril de 1889 no pequeno município de Braunau, no norte da Áustria.

A Trama se inicia antes do nascimento de Hitler e cobre até o período inicial de sua adolescência e tem como personagem principal e Alois, pai de Adolf.
Historicamente, a ascendência do pai de Hitler é um grande mistério. Sua mãe, Maria Anna Schicklgruber, casou-se grávida com um primo de primeiro grau chamado Johann Georg Hiedler, que nunca assumiu a paternidade de Alois, mesmo sem ter motivos para não fazê-lo. Outra opção seria Leopold Frankenberger um rico judeu que teria sido patrão da mãe de Alois (dai a suposta ascendência Judaica atribuída a Hitler). E uma terceira, que no livro é a correta, seu pai era Johann Nepomuk Hiedler, irmão de Johan Georg e consequentemente primo de Maria Anna e com quem Alois vai morar.

Morando com seu verdadeiro pai, que era casado e tinha três filhas, Alois tem diversas relações incestuosas com suas irmãs, logicamente manipuladas pelas mãos do Maligno. Com uma delas teve um filha, que seria sua terceira esposa e mãe de Adolf, Klara Pölzl. Dessas relações indecentes e profanas nasceria o futuro ditador.

O narrador sarcástico e cínico segue contado à vida de Alois, que por um lado era homem rude, egocêntrico, ausente, dominador, beberrão e mulherengo, e por outro lado possuia intelecto e opiniões fortes. Alois apesar de possuir poucos estudos, foi bem sucedido e teve uma carreira respeitosa de funcionário da alfândega. É mostrada também sua indiferença e a sua violência a Adolf e como isso influenciou e moldurou o caráter do seu filho.

Quando jovem Hitler, chamado carinhosamente de Adi pelos seus parentes, é incluído na história, começamos a observar a sua formação e como o demônio-narrador alimenta seus sonhos de grandeza, sua apatia, seus medos e sobretudo, seu ódio . O jovem mostra desde cedo uma crueldade assustadora, como por exemplo, a ocasião em que acometido de sarampo, abraçava e beijava seu irmão menor para contagiá-lo.

As qualidades de Mailer como escritor são gritantes. O livro é assustadoramente bem escrito. Cada frase e cada ideia parecem fazer parte de uma engrenagem perfeita, não fica sobrando nada. Até mesmo nas passagens em que a o narrador desvia da trama, em que ele tem que usar seus "poderes" em outros acontecimentos históricos como a coroação de Nicolau II na Rússia e no julgamento de Oscar Wilde na Inglaterra a narração perde a fluidez.

Mailer fez uma pesquisa de dois anos e aproveitou de falhas biográficas de Hitler e de sua família para compor a história. Se mais de uma década antes havia entrado no mito de Cristo e contado sua história em "O Evangelho Segundo o Filho", desta vez contou o que considerava, em suas próprias palavras" uma resposta do mal a Jesus Cristo".
O melhor livro que li esse ano! pelo menos até agora.

Mailer em 2007

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Pickpocket - Robert Bresson


"Bresson é o cinema francês, assim como Dostoievski é a literatura russa e Mozart é a música alemã".(Jean- Luc Godard)

Pickpocket(1959) de Robert Bresson narra em primeira pessoa a história de Michel(Martin LaSalle), um jovem pobre e desempregado que se rende às facilidades da vida criminosa, tentando a sorte nas ruas de Paris roubando bolsas e carteiras. Logo em seu primeiro roubo, no jockey, vemos sua mão tremula e exitante, tanto por medo ser descoberto como pelo aspecto moral, tirar o dinheiro de dentro de uma bolsa de mulher. Ele é detido, mas por faltas de provas liberado. Naquele momento ficou claro que a personagem deu uma passo do qual não poderá voltar atrás.

Michel tem uma mãe a quem pouco visita depois de ter sido detido. Seu contatos com ela, se dão através da doce Jeanne (Marika Green) , vizinha de sua mãe e por quem o jovem sente algum afeto, embora viva a fugir desse sentimento. O Protagonista tem também um amigo, Jaques(Pierre Leymarie) que frequentemente se opõe a sua falta de iniciativa e a sua visão de vida, porém tenta em alguns momentos ajudá-lo.

A personagem conhece um batedor de carteiras experiente e talentoso, que lhe ensina todos os truques e treina suas habilidades para a arte do roubo . Influenciado pela leitura de "Prince of the Pickpockets", de George Barrington, livro que conta a história de um lendário batedor de carteiras na Londres vitoriana, e com suas novas qualidades adquiridas se associa a mais dois marginais e segue pelas ruas de Paris, em estações de trem e filas de banco dando seus golpes com sucesso.

Orgulhoso de sua realizações, Michel passa a nutrir um sentimento de superioridade, que o leva a cada vez mais ousar nos seus golpes. Esse onda de assaltos chamam a atenção da policia, em especial do Inspetor principal(Jean Pélégri), que acompanhava o Jovem desde sua primeira detenção e passa a pressioná-lo.

Sua mãe falece e Jaques se envolve amorosamente com Jeanne. Por esses fatos e a aproximação da policia, Michel decide viajar, não havia mais nada em Paris para ele.
Roda pela Europa por dois anos e volta falido.

De volta a Paris, a policia arma um estratagema para pega-lo, e consegue. Na prisão, Michel recebe a visita de Jeanne , que teve um filho de Jaques, mas que agora estavam separados. Desse encontro começa a nascer um romance que o faz se arrepender de seus atos .

Os filmes de Bresson tinham esse elemento moralizador, como vimos acima. Frutos de suas fortes convicções religiosas, que refletiam tanto tematicamente com esteticamente na sua obra. O diretor não utilizava atores profissionais para conseguir uma interpretação desdramatizada, sem expressões ou sugestões, do modo que o espectador tivesse que prestar atenção aos sons e a fotografia para entender a história. Aliás, entender não, sentir. Bresson aconselhava a não tentarem entenderem um filme seu, e sim senti-lo, pois queria "alcançar os sentidos antecedam a inteligência", dizia.

O Filme, tecnicamente é espetacular! Possui uma trilha sonora bem apropriada, a magnífica Atys de Jean Baptiste Lully, uma fotografia bem cuidada e muito nítida e um movimento de câmeras mágico. Têm também as famosas cenas dos assaltos, todas coreografadas que mais parecem um "ballet de mão" como são conhecidas.

A Filmografia do realizador francês é uma das mais reverenciadas e importantes do cinema de todos os tempos. Bersson utilizou "Crime e Castigo" de Dostoievski bem levemente para base do roteiro, que Paul Schrader, Diretor e roteirista americano, descreveu como "uma absoluta obra-de-arte" e "tão próxima da perfeição quanto se possa ser.", E na minha humilde opinião, poucos filmes merecem uma nota dez, esse é um deles.



Michel(Martin LaSalle)



Green e LaSalle

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Alison Brady

A Fotógrafa americana Alison Brady tem um trabalho bem interessante e com escolhas estéticas bem originais. Ela explora a fascinação pelo mórbido que a civilização moderna tem, utilizando de cenas misteriosas, violentas e irreais.

Com fotos enigmáticas, que parecem buscar o inusitado dentro do cotidiano, as modelos de suas fotos parecem simples donas de casa que são vitimas de algum acontecimento violento ou dentro de um sonho bizarro.

Alison, que tem apenas 30 anos (?!), diz que tira inspiração de seu subconsciente, de suas neuroses, como também de fatos do dia-dia. Não como uma referência a alguma coisa específica, mas sim como uma exploração do reino entre os comum e o inusitado e a terrível sensação quando o familiar se torna estranho e assustador.
Um talento a se observar...






















As fotos fora retiradas daqui:http://www.alisonbrady.com/

terça-feira, 16 de junho de 2009

Murilo Mendes

MURILOGRAMA A RIMBAUD

Inventa. Excede do século.

Porta a partitura do caos.

Blouson noir / beat / arrabbiato:

Duro. Ar vermelho. Górgone.

Orientaliza o Ocidente.

Barcobêbedo. Anarqlúcido.

O céu-elétrico-no Índex.

Fixa a vertigem, silêncios.

Dioscuro, exclui o Oscuro.

Abole Musset, astro ociduo.

Refratário. Ambíguo. Fálico.

Osíris de T e açoite.

Canta: retira-se a flauta.

“Merveilleux”: lê “merdeilleux”.

Desdá. Desintegra. Adenta.

Consonantiza as vogais.

Perpetuum móbile. Médium.

Ignirouba. Se antecede.

Morre a jato: se ultrapassa.

Desdiz a noite compacta.

Autovidente & do cosmo.

Além do signo e do símbolo.

A idéia do Dilúvio senta-se.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Bertold Brechet

DA SEDUÇÃO DOS ANJOS
(Tradução de Aires Graça)


Anjos seduzem-se: nunca ou a matar.
Puxa-o só para dentro de casa e mete-
-Lhe a língua na boca e os dedos sem frete
Por baixo da saia até se molhar
Vira-o contra a parede, ergue-lhe a saia
E fode-o. Se gemer, algo crispado
Segura-o bem, fá-lo vir-se em dobrado
P'ra que do choque no fim te não caia.

Exorta-o a que agite bem o cu
Manda-o tocar-te os guizos atrevido
Diz que ousar na queda lhe é permitido
Desde que entre o céu e a terra flutue ?

Mas não o olhes na cara enquanto fodes
E as asas, rapaz, não lhas amarrotes.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Caramelo (Sukkar Bannat, 2007)



A diretora, roteirista e atriz libanesa Nadine Labaki parecia ter na cabeça a famosa dica do escritor russo Leon Tolstoi: "Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.", quando realizou o seu filme Caramelo em 2007. Nesse filme, Nadine passeia pelo universo feminino expondo os problemas cotidianos de um grupo de mulheres em Beirute, mas que podia muito bem se passar em qualquer pais do ocidente.

O filme deixa de lado os aspectos políticos e bélicos que vêem afetando o país nos últimos séculos para focar nos problemas amorosos e comportamentais de um grupo de mulheres, que em comum tem o fato de: ou trabalharem ou frequentarem um salão de beleza, onde as depilações são feitas à base de um creme de caramelo (dai o título do filme).

Com um humor sutil, muita sensualidade e uma carga dramática comovente e bem acabada, o filme narra os dramas pessoais de cinco personagens: Layale (a própria diretora, lindíssima) dona do salão e amante de um homem casado, a cabeleireira faz de tudo para encontrá-lo, mesmo o homem estando cada vez mais distante dela; Nisrine (Yasmine Elmasri), uma mulher que trabalha no salão e está prestes a se casar, ela não é mais virgem e não sabe como reagir com essa situação perante o noivo; Rima (Joanna Moukarzel), que também trabalha no salão e sente atração por mulheres; Jamale (Gisèle Aouad) uma cliente assídua do salão e é uma mulher de meia idade que procura esconder, das amigas e dela mesma, que já se encontra na menopausa; Rose (Sihame Haddad), uma costureira e vizinha do salão, uma mulher já de idade que não tem coragem suficiente para se encontrar com um inesperado pretendente a namorado.

Outros aspectos elogiáveis do filme são o tratamento que a diretora dá às diferenças religiosas - No filme convivem harmoniosamente muçulmanos e cristãos- a trilha sonora exótica divertida e o trabalho de direção de atores. Ao optar por não usar atores profissionais no filme, Labaki conseguiu extrair interpretações convincentes e naturais.

Um filme doce e açucarado e o nome lhe faz jus. Tem tudo para agradar os mais sensíveis. Belo filme!





Secos E Molhados


PRIMAVERA NOS DENTES
Composição: João Ricardo/João Apolinário

Quem tem consciência pra se ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera

Em plena ditadura militar, no governo Médici (de 1969/1974)- que entrou para a história entre outras coisas pela perseguição à artistas e pela censura severa às expressões artísticas e culturais - em bares de São Paulo, três jovens músicos escandalizavam em shows performáticos com o rosto pintado e rebolando no palco, desafiando assim todas as convenções daquele período.

Os Secos e Molhados eram Ney Matogrosso nos vocais, João Ricardo nos violões, Harmônica e vocal e Gerson Conrad nos violões e foram um furacão na musica popular brasileira, tanto pelo sucesso que conseguiram, (o primeiro vendeu mais de um milhão de cópias. O segundo, de 500 mil a um milhão. O Roberto Carlos, que era o campeão de venda no país vendia 400 mil cópias) como pela qualidade sua obra.

Os primeiros dois discos dos secos e molhados estão entre os melhores de toda história da música brasileira. Todo o ecletismo musical de João Ricardo unido a bela voz e as interpretações teatrais de Ney geravam uma química perfeita e única.

As composições de João mergulhavam no fado, no rock progressivo, no psicodelismo e na música popular brasileira. Ele ainda usava como letrista, poetas como Fernando Pessoa, Vinicius de Moraes, Manoel Bandeira, Cassiano Ricardo, Júlio Cortázar e João Apolinário (pai do compositor) musicando seus poemas. Tem gente que achava oportunismo, eu uma puta sacada!

Depois do lançamento do segundo Álbum, Ney e João Ricardo brigaram. O primeiro saiu do conjunto, fez carreira de sucesso na música brasileira, embora nunca mais tenha conseguido alcançar resultado similar artisticamente. O segundo seguiu com os trabalhos nos Secos e Molhados e lançou vários discos, mas nenhum alcançou o resultado ou sucesso da antiga banda.

Secos e Molhados - Sangue latino + O Vira

quinta-feira, 11 de junho de 2009

José Régio - O amor e a Morte

O amor e a morte

Canção cruel

Corpo de ânsia.
Eu sonhei que te prostava,
E te enleava
Aos meus músculos!

Olhos de êxtase,
Eu sonhei que em vós bebia
Melancolia
De há séculos!

Boca sôfrega,
Rosa brava
Eu sonhei que te esfolhava
Petala a pétala!

Seios rígidos,
Eu sonhei que vos mordia
Até que sentia
Vómitos!

Ventre de mármore,
Eu sonhei que te sugava,
E esgotava
Como a um cálice!

Pernas de estátua,
Eu sonhei que vos abria,
Na fantasia,
Como pórticos!

Pés de sílfide,
Eu sonhei que vos queimava
Na lava
Destas mãos ávidas!

Corpo de ânsia,
Flor de volúpia sem lei!
Não te apagues, sonho! mata-me
Como eu sonhei.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Francis Picabia

Francis Picabia on his bicycle with his dog Ninie in September 1940 - Olga Picabia
François (Francis) Marie Martinez Picabia (1879-1953), foi um pintor e escritor francês, Um dos principais nomes da pintura abstrata no século XX.

O pintor e tem seu nome comumente ligado ao dadaísmo e ao surrealismo, movimentos que pintor participou ativamente como teórico e divulgador, porém, foi um intenso agitador cultural.

Passou pelos principais movimentos artísticos do inicio do século XX, e soube usar positivamente os aspectos característicos das escolas em seu trabalho. Dos fauvistas o apreço pelas cores exuberantes (principalmente nos seus primeiros quadros) do cubismo, geometrismo das formas, do surrealismo a atmosfera insólita e o irreal e do dadaísmo o viés satírico.

Artista inquieto e transgressor, a partir de 1927 começou abandonar a arte abstrata e passa gradualmente ao figurativismo. No período de 1939 a 1945 lança os seus polêmicos quadros com as pin ups nuas que geraram uma avalanche de criticas ao seu trabalho, considerado banal e até vulgar por alguns. Mas como na arte as coisas são cíclicas e as opiniões conflitantes, essa fase acabou influenciando fudentalmente o surgimento da pop-art nas décadas seguintes.
Eu prefiro a fase abstrata.


La Ville de New York a pençue à travers les corps- 1913


Udinel(Young American Gril Dance) 1913


Edtainisil (clergyman)1913

Comic Wedllock - 1914

The Child Carburetor - 1919

Conversation II - 1922

Lever do Soleil - 1924

Le Beiser - 1923/1926

La Femme au Chien 1924/1926


Les Siens 1924/1927



Idylle 1924/1927

Soltileza -1928

Ève 1934


Carnaval 1924/1927


la femme de l´amour- 1927/1928

Untituled -1928 /1929

Adam et Ève -1931

Vierge à l´enfant -1933 / 1935

Portait of Doctor 1935/1938

Self Portait- 1940

Monteparnasse -1940/1941

Deux Nus -1941

La danseuse de french-cancan - 1942/1943

Coloque 1949

terça-feira, 9 de junho de 2009

O Ódio (La Haine) - 1995 Mathieu Kassowitz

"Essa é a história de um homem que cai de um prédio de 50 andares. Durante a queda, ele repete sem parar, para se reconfortar: ‘Até aqui tudo bem, até aqui tudo bem, até aqui… tudo bem.’ O importante não é a queda, é a aterrissagem."
O narrador em o Ódio.

A historinha acima abre e fecha o filmaço o Ódio (La Haine - 1995), do realizador Francês Mathieu Kassowtiz. Ela seve de metáfora para a sociedade, que como homem acima está em queda vertiginosa, prestes a se estatelar no chão.

Feito em tom documental e fotografado em um estilizado preto&branco, o filme conta a história de três jovens de origem étnicas diferentes: um judeu, o explosivo Vinz (Vincent Cassel); um árabe, Said (Saïd Taghmaoui); e um negro, o consciente Hubert (Hubert Koundé), que vivem nos subúrbios de Paris.

Certa noite, no bairro onde moram, aconteceram alguns distúrbios que resultaram em confrontos entre os jovens e os policiais. Um dos militares perdeu o controle da situação e espancou brutalmente Abdel (Abdel Ahmed Ghili), um amigo do trio, deixando este à beira da morte. Fato esse que revolta aos moradores, principalmente Vinz, que promete revidar e matar o guarda que agrediu seu amigo.

O Subúrbio parisiense é como um barril de pólvora, e a agressão serve de estopim para a guerra civil que está prestes a estourar entre os policias e os jovens pobres suburbanos. O filme mostra honestamente e sem tomar partido ou justificar a barbárie da juventude de classes baixas, que em como em muitos países, sem oportunidades e referências morais, são empurrados para a criminalidade. A tragédia se anuncia.

A Câmera acompanha bem perto os três protagonistas e apresenta seus dilemas morais, seu contato direto com a violência, as drogas, a total falta de perspectivas e o preconceito. Impressionante que ainda hoje, quase quinze anos depois, a França do Sarkozy continua apresentado os mesmo problemas sociais referentes ao imigrantes.

Mathieu Kassovitz ganhou o prêmio de melhor realizador do festival de Cannes de 1995 e era uma das grandes promessas do Cinema Mundial. Pena que não se cumpriu a escrita e hoje só faz bobagens como meia-boca Rivières Pourpres, Les, 2000 (Rios Vermelhos), o medonho Gothika, 2003 (Na companhia do medo) e o estroso Babylon AD, 2005.

Cinema com "C" Maiúsculo!

Taghamoui, Koundé e Cassel

Cassel, em frente ao espelho brincando de Travis Brickle(Taxi-driver)

A Dama de Shanghai - Orson Welles (1947)


Sim, esse é um autentico noir! Aqui temos a femme fatale estonteante (Rita Rayworth de cabelos curtos e louros, lindíssima), o anti-herói ora cínico, ora ingênuo (Welles), a trama mirabolante com crimes misteriosos e repletas de reviravoltas e a famosa narração em off.
Sim, já disse, é um filme noir, mas com um agravante: um filme noir com a assinatura de gênio de Orson Welles.

A Dama de Shanghai (The Lady of Shanghai) foi lançada em 1947, Welles além da direção foi responsavel pela produção, interpretou o papel principal masculino e escreveu roteiro com base no romance If I Die Before I Wake de Sherwood King.

O filme narra a história de Michael O'Hara (Orson Welles), um marinheiro que vê a "fatal" Elsa Bannister (Rita Hayworth) sendo assaltada por três homens. Ele a salva e se apaixona instantaneamente por ela. No dia seguinte o marinheiro recebe a visita de Arthur Bannister (Everet Sloane), marido de Elsa e um famoso advogado criminalista. Ele o convida para que trabalhe em seu iate durante uma viagem que o casal fará. Michael aceita o trabalho devido à atração que sente por Elsa, mesmo sentindo que por trás do convite existe algo de errado. Na viagem conhece o sócio de Arthur, George Grisby (Glenn Anders), que oferece a Michael US$ 5 mil para que esse o ajude a simular sua morte. O´Hara aceita a oferta, de olho no dinheiro e na possibilidade de fugir com a garota, mas se envolve em uma intrincada trama onde nada nem ninguém é o que parece.

Welles teve muita dificuldade para finalizar filme. Sua fama de difícil e o evento "Cidadão Kane" começavam a fechar para ele as portas de Hollywood. A permanência do diretor no filme foi bancada por Hayworth, sua esposa na época e principal estrela do cinema americano. Para retribuir, Welles deu a esposa um papel memorável, embora Rita permanecerá eterna por Gilda, aqui a vemos em uma maravilhosa interpretação. Sua Elsa é a epítome da mulher fatal! Em um momento angelical, frágil e apaixonada, em outro demoníaca, manipuladora e dominadora .

Infelizmente, o desempenho do filme nas bilheterias não foi dos melhores, como também não agradou a critica da época. Depois desse filme a carreira do diretor na américa foi interrompida(o realizador só voltaria a fazer outro filme americano em 1958, o não menos genial A marca da Maldade). E o resultado artístico do filme não agradou Welles. A Columbia Pictures desprezou a montagem de Welles excluindo 68 minutos de filme e o lançando com apenas 87 minutos e não com os 155 idealizados pelo realizador. Entretanto, o filme atravessou os anos e foi conquistando seu espaço na história do cinema, e hoje, 50 anos depois, é um dos maiores clássicos de todos os tempos.

Além de todo o visual estilizado, marca pessoal do diretor, nesse filme podemos notar o talento dramatúrgico de Welles tanto na confecção do enredo como na inteligência dos diálogos.

O filme chega ao clímax com a famosa sequência de cenas no labirinto dos espelhos, uma das cenas mais homenageadas e representativas da história do cinema.

Cinema com "C" maiúsculo!


Hayworth e Welles em cena do filme

Rayworth sem as madeixas longas vermelhas que encantava os homens

O clímax do filme na famosa sequência dentro do labirinto de espelhos

Slaone e Hayworth em outra tomada no labirinto