sábado, 28 de fevereiro de 2009

Man Ray

Man Ray, Solarized Nude with Flowers in Her Hair, 1933


Emmanuel Radnitzky (1890 - 1976), mais conhecido como Man Ray, foi um dos principais artistas dos movimentos surrealista e dadaísta das décadas de 20 e de 30 do século passado, foi pintor, escultor, cineasta, mas foi na fotografia sua maior contribuição para a arte.

Man Ray disse em uma entrevista certa vez que "tinha verdadeiro interesse em rostos" e "Pinto o que não pode ser fotografado, algo surgido da imaginação, ou um sonho, ou um impulso do subconsciente. Fotografo as coisas que não quero pintar, coisas que já existem", desta forma distinguindo, em sua ótica, as duas expressões artísiticas e a sua predileção pela fotografia.

Entre o seu trabalho se destacam os auto-retratos originais e lúdicos, os retratos de artistas famosos, tudo em um maravilhoso preto e branco e o nu feminino o qual o elevava esteticamente através do tratamento que o dava, e os seus famosos Rayographs(raiográficos ou raigramas): imagens obtidas no laboratório, sem máquina fotográfica.

Ray utilizava um recurso técnico chamado "solarização" ou "efeito Sabattier" que consiste em um processamento na exposição à luz durante a revelação, o qual permite alcançar no final um misto de positivo e negativo. Os "raiográficos" são objetos sobrepostos numa folha de fotografia expostos à luz, fazendo então uma fotografia sem máquina, apenas com a luz sob objetos de formas e densidades diferentes em cima do papel de fotografia.

Ray alcançou um resultado genuíno e excepcional no seu trabalho fotográfico, utilizando da estética surrealista alcançou uma autoria para fotografia na época sem paralelos. Provocador e inventivo, o fotografo criou imagens que vão durar para sempre como a da mulher com a silhueta que lembra um violãocelo e a da mulher que chora lágrimas de pérolas.

Palmas para Man Ray!


After lunch, 1914

Promenade, 1915


Exquisite Corpose, 1928


Self-Portrait Assemblage, 1916


Rayograph, 1922

Rayograph, 1925


Rayograph, 1923


Goupe Surréaliste, 1935


Salvador Dali, 1929

Marcel Poust, 1922

James Joyce, 1922


Luis Buñuel, 1929

Auto-portait, 1947


Auto Portait, 1947

A I'heure de l' observatoire, les amoreux, 1936

Noire et Blanche, 1926


Coat-Stand, 1920

Noire et Blanche, 1926


Le Violon d'Ingres, 1924


Les Lhames, 1930

La Baiser, 1930


Monument a D.A.F.de Sade, 1933


La Pierré 1930




Fernanda Takai - Diz Que Fui Por Ai

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Rock´n Rolla - A Grande Roubada


Depois de uns filminhos meia-bocas, como por exemplo, "Destino Insólito (2002)" e "Revolver (2005)" - que foram às duas horas mais mal gastas da minha vida - Guy Richie voltou ao que sabe fazer de melhor, falar dos tipos marginais e da bandidagem da capital de sua terra natal, Inglaterra.
Em "Rock´n Rolla - A Grande Roubada", ele retorna em grande estilo.Como já havia acontecido em "Snatch Porcos e Diamantes (2000)", que repetia mesmas as situações levemente modificadas e as personagens com as de "Jogos e Trapaças e Dois Canos Fumegantes (1998)", em Rock and Rolla está tudo ali novamente, os chefões inescrupulosos; um objeto que vai causar toda a confusão, aqui é um quadro, em "Snatch" era um diamante, e Jogos e Trapaças" eram as armas; e os bandidos descolados, e do bem com nomes maneiros.
Essa repetição que a principio pode parecer oportunismo ou falta de inspiração, no caso do último filme de Richie isso passa longe, pelo tratamento e pelo resultado que ele consegue.Resumir qualquer filme de Richie não fácil, são vários fios narrativos, muitas personagens que engenhosamente se cruzam e se amarram no decorrer da historia. Em Rock'n Rolla temos Lenny Cole(Tom Wikinson, muito bem como sempre) um gangster metido com o construção e com o mercado imobiliário, que faz um acordo para "facilitar" para um magnata e também gangster russo Uri Omovich(Karel Roden) que quer construir um estádio de futebol( numa clara alusão a Roman Abramovich, dono do Chelsea) em um local não apropriado.O Russo tem um quadro que considera seu amuleto da sorte e o empresta para Lenny para esse devolver depois que o negócios entre os dois esteja liquidado, porém Johnny Quid(Toby Kebbell), um músico junkie e enteado de Lenny, rouba o quadro dando início a uma verdadeira confusão, e no centro desse furacão One Two(Gerald Butler) e seu bando os The Wild Bunch e Stella(Tandie Newton) a contadora do mafioso russo.
O filme conta com o habitual estilismo técnico de Riche, seus diálogos incessantes e sua montagem acelerada, mas a grande sacada do filme é dar ênfase ao humor e deixar um pouco de lado a violência explicita tão comum neste tipo de filmes.

Rock´n Rolla tem momentos cômicos muito bons, como por exemplo, quando One Two e persguido por dois gangsteres russos, e também a cena de um suposto affair gay entre os membros do Wild Bunch, memoráveis!Bom, se Guy Richie tinha desperdiçado 2 horas da minha vida em "Revolver", devolveu agora em Rock and Rolla!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

A Arte Em Movimento

Nu Descendo a Escada

Apesar de ter criado fama e de ter sido um genial escultor, onde transformava tudo em arte de maneira original, Marcel Duchamp foi um também um pintor de talento.

Seus quadros flertavam com as vanguardas europeias, dadaísmo, cubismo expressionismo, mas sem ficar refém de nenhuma delas, e tinham como grande virtude o estudo das perspectivas do movimento que tem em o "Nu Descendo a Escada" seu primeiro quando com essa temática de 1911.

Perceba no quadro uma figura com uma aparência que lembra uma pessoa, e como o artista cria um efeito de movimento dessa figura através de uma sobreposição de figuras. Genial!

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Air - Surfing on a rocket

O Air é uma dupla francesa de música eletrônica formada por Nicolas Godin e Jean-Benoît Ducnkel que aposta mais na melodia no que no ritmo em suas canções. Pop com "P" maiúsculo!



Time for flying rockets
For silver jets
For surfing bombs
Surfing on a rocket

Don't pray to go
Please take my hand
Don't get me down
Surfing on a rocket

I'll be back one day
Just pray for me
I'm on my way
Surfing on a rocket

5 4 3 2 1 0
No one can stop me to go
You'll never see me again

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Nick Cave, PJ Harvey e Kylie Minogue - Duetos

Em 1996 Nick Cave e seus Bad Seeds lançavam o magnífico "Murder Ballads" com dois duetos improváveis e memoráveis, um com a Cantora PJ Harvey em "Henry lee" e outro com Kylie Minogue em "Where the Wild Roses Grow". Percebam como o lirismo melancólico de Cave caiu muito bem com as vozes delicadas dessas cantoras.

Nick Cave and PJ Harvey - Henry Lee


Nick Cave and Kylie Minogue - Where the Wild roses Grow

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Sobremesariano

Eu também.

The Bealtes - I am the Walrus

Os Beatles já estão preparados para pular carnaval.



I am he as you are he as you are me
And we are all together
See how they run like pigs from a gun
See how they fly. i´m crying

Sitting on cornflake waiting for the van to come
Corporation tee shirt, stupid bloody tuesday

Man, you´ve been a naughty boy
You let your face grow long

I am the eggman
They are the eggmen
I am the walrus--goo goo g'joob

Mister city policeman sitting pretty little
Policemen in a row
See how they fly like lucy in the sky
See how they run. i´m crying. i´m crying. i'm crying...i'mcryyyy...

Yellow matter custard dripping from a dead dog´s eye
Crab a locker fishwife
Pornographic priestess

Boy, you´ve been a naughty girl
You let your knickers down

I am the eggman
They are the eggmen
I am the walrus--goo goo g'joob

Sitting in an english garden waiting for the sun
If the sun don´t come you get a tan
From standing in the english rain

I am the eggman
They are the eggmen
I am the walrus--goo goo g'joob

Expert experts choking smokers
Don´t you think the joker laughs at you?
See how they smile like pigs in a sty
See how they snide
I´m crying

Semolina pilchard climbing up the eiffel tower
Elementary penguin singin´hare krishna
Man, you should have seen them
Kicking edgar allan poe

I am the eggman
They are the eggmen
I am the walrus--goo goo g'joob

sábado, 21 de fevereiro de 2009

De Falla - Repelente

O segundo disco do De falla "Its Fucking Boring to Death" foi um dos melhores dos anos 80.
É uma pena que Edu k e companhia não conseguiram chegar perto em seus discos posteriores.

O vídeo é meio tosco, mas a música é foda!!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Pink Floyd - Jugband Blues

Não gosta de Carnaval? Odeia Samba enredo?
Não se desespere, a Internet é uma ferramenta libertadora nessas horas e aqui no meu, no seu, no nosso blog nesses próximos cinco dias vai ter o "Especial Carnaval Rock and Roll' com uma música por dia para você não esquecer quem é e o que é importante para você.





"Jugband Blues" foi a última música que o gênio Syd Barret lançou com o Pink Floyd. Ela faz parte do álbun "A Saucerful os Secrets" e nas outras canções David Gilmour já assumia definitivamente o posto de guitarrista.

Delicadamente mal-educado, um blog que adora música velha e boa, não necessariamente nessa ordem.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

I´m a un chein andalusia


Escolher um entre os cinco álbuns do Pixies(1 EP e 4 LPs) para comentar não foi uma tarefa fácil. A discografia dessa banda de Boston formada por Black Francis(vocal e guitarra), Joey Santiago (Guitarra), Kim Deal(Baixo) e David Lovering(Bateria) e que esteve na ativa de 1987 até 1991, sem contar as reuniões posteriores, é absolutamente sensacional, das melhores coisas que o rock produziu. Bom, sobrou para Doolittle, terceiro álbum da banda que foi lançado em 1989, que é simplesmente perfeito!

O Disco é extremamente original, no caldeirão musical de Black Francis (que agora se chama Frank Black) melodias pops agradabilíssimas fundiam-se a barulhos e distorções criando músicas maravilhosas, Debaser canção que abre o disco é síntese disso, um rock and roll nervoso e delirante com um riff de guitarra sensacional que Francis canta aos berros que é um cão andaluz(referência a um cão andaluz, filme de Luís Buñuel e Salvador Dali de 1929).

Na próximas músicas a originalidade continua, com  as violentas e sujas Tame e Dead passando pelas melodiosas e esquisitas " I bleed" Wave of Mutilitaion" "monkeys gone to heaven" a pop secentista que gruda na cabeça " Here comes your man", a romântica "La,la,la love you", canta da pelo baterista David Lovering e a balada "Hey". "Mr grieves" onde começa com um reggaezinho e descamba para a esquisitice novamente e fecha com nervosa "gouge away".

As letras de Francis acompanham e realçam seus delírios musicais surrealistas, e são muito mais que "palavras que se encaixam bem" como disse certa vez. Elas contêm referências a violência, religião e morte.

Dollittle é um clássico, pois sua originalidade e qualidade resistiu há 20 anos e assim será por mais 20, depois mais 20, depois mais 20...





quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Dois Poemas Tristes

Como hoje estou deprê, dois poemas tristes de Carlos Drummond de Andrade. O primeiro a flor e a rosa faz parte do livro " A Rosa do Povo" de 1945 e o segundo de O Brejo das Almas de 1934.

A Flor e a Náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.

O tempo pobre, o poeta pobre
findem-se no mesmo impasse.

Em vão tento me explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O Sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam pra casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Por fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.

Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia rompe o asfalto.

Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia, mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.


Convite Triste

Meu amigo, vamos sofrer,
vamos beber, vamos ler jornal,
vamos dizer que a vida é ruim,
meu amigo, vamos sofrer.

Vamos fazer um poema
ou qualquer outra besteira.
Fitar por exemplo uma estrela
por muito tempo, muito tempo
e dar um suspiro fundo
ou qualquer outra besteira.

Vamos beber uísque, vamos
beber cerveja preta e barata,
beber, gritar e morrer,
ou, quem sabe? beber apenas.

Vamos xingar a mulher,
que está envenenando a vida
com seus olhos e suas mãos
e o corpo que tem dois seios
e tem um embigo também.
Meu amigo, vamos xingar
o corpo e tudo que é dele
e que nunca será alma.

Meu amigo, vamos cantar,
vamos chorar de mansinho
e ouvir muita vitrola,
depois embriagados vamos
beber mais outros sequestros
(o olhar obsceno e a mão idiota)
depois vomitar e cair
e dormir.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Cock & Bull

Will Self

O Livro mais divertido que li foi "Cock & Bull - História de Phadas e Phodas" do inglês Will Self. E chamá-lo de divertido não é de forma algumas um demérito, pois vejo que é necessário muito talento e esforço para ser fazer humor abordando os assuntos que Self trata sem cair na grosseria e na apelação.

O Livro conta duas pequenas novelas sobre mutações sexuais, na primeira Cock é sobre uma garota reprimida casada com um beberrão insensível, que belo dia descobre que entre suas pernas nasce um pênis, e isso a liberta. Na segunda Bull é sobre "um rapaz encorpado e musculoso", como o autor o descreve, é um jogador de Rugby que certo dia descobre descobre que atrás de seu joelho nasce uma vagina e tem um caso com o médico que o trata.

Por retratar tais metamorfoses, Self foi inevitavelmente comparado a Kafka, mas na minha opinião ele esta mais situado ao lado de um Jonathan Swfit por suas críticas bem-humoradas à sociedade e às suas diferenças, com uma pitada de Monty Phyton pelo humor absurdo anárquico e da escatologia de um David Cronemberg.

O estilo de Self é delirante, vai do vulgar ao elegante sem o menor constrangimento para construir sua fábula amoral sobre as diferenças sexuais.

Cock e bull não é um livro para todos os gostos. O grande público tem uma certa dificuldade em digerir a espécie de humor que Self oferece, escatológico, satírico, politicamente incorreto e amoral, mas se você gosta ou mesmo suporta expressões artísticas anti-convencionais você deve ler. Não é o livro que vai mudar a sua vida, mas certamente você vai se divertir pacas.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Simbolismo

Gustav Klimt - O Beijo

O simbolismo foi a escola literária da poesia. É verdade que as telas de Paul Gauguin e o teatro de Ibsen também foram obras muito representativas do período, mas foi na confecção dos versos que esse movimento tomou sua forma definitiva.

O Simbolismo nasceu na França no final do século XIX, e apresentava uma dura ruptura ao movimento anterior, o Realismo, tanto na forma quanto ao conteúdo. A rigorosa poesia parnasiana tão preocupara com a forma e os preceitos clássicos era vista como decadente para os simbolistas tanto quanto o racionalismo, o descritivismo e o coletivismo dos Naturalistas.

Os simbolistas, a exemplo dos românticos, sentiam um profundo mal-estar com a sociedade, com a cultura e com a realidade, de jeito que mergulhavam no irreal, no sonho e no fantástico O desafio para o poeta simbolista era retratar esse universo estranho brincado com os signos, e os significantes e significados das palavras, destruindo a poesia tradicional e o racional.

As principais características do lirismo simbolista eram:
Sinestesia, a descrição das sensações do mundo através de associação de palavras.
Sugestão, e não descrição.
Musicalidade, o uso de aliterações e de rimas exóticas para alcançar a máxima de Verlaine "A Música antes de qualquer coisa".
Transcendentalismo:a preferência para interpreta o mundo de maneira onírica, irreal e fantasiosa.
Subjetivismo, ênfase ao olhar individual como no romantismo, porém menos concentrado no sentimento amoroso e sim no subconsciente,no inconsciente, no sonho e no delírio.

Principais poetas simbolistas:

França, os poetas malditos:

Paul Verlaine

A LUA BRANCA

A lua branca
brilha no bosque.
De ramo em ramo,
parte uma voz que
vem da ramada.

Oh! bem-amada!

Reflete o lago,
como um espelho,
o perfil vago
do ermo salgueiro
que ao vento chora.

Sonhemos, é hora...

Como que desce
uma imprecisa
calma infinita
do firmamento
que a lua frisa.

É a hora indecisa...

Arthur Rimbaud

A ETERNIDADE

De novo me invade.
Quem? – A Eternidade.
É o mar que se vai
Como o sol que cai.

Alma sentinela,
Ensina-me o jogo
Da noite que gela
E do dia em fogo.

Das lides humanas,
Das palmas e vaias,
Já te desenganas
E no ar te espraias.

De outra nenhuma,
Brasas de cetim,
O Dever se esfuma
Sem dizer: enfim.

Lá não há esperança
E não há futuro.
Ciência e paciência,
Suplício seguro.

De novo me invade.
Quem? – A Eternidade.
É o mar que se vai
Com o sol que cai.

Charles Baudelaire

CORRESPONDÊNCIAS

A natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam filtrar não raro insólitos enredos;
O homem o cruza em meio a um bosque de segredos
Que ali o espreitam com seus olhos familiares.

Como ecos longos que à distância se matizam
Numa vertiginosa e lúgubre unidade,
Tão vasta quanto a noite e quanto a claridade,
Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam.

Há aromas frescos como a carne dos infantes,
Doces como o oboé, verdes como a campina,
E outros, já dissolutos, ricos e triunfantes,

Com a fluidez daquilo que jamais termina,
Como o almíscar, o incenso e as resinas do Oriente,
Que a glória exaltam dos sentidos e da mente.

Stéphane Mallarmé

BRINDE

Nada, esta espuma, virgem verso
A não designar mais que a copa;
Ao longe se afoga uma tropa
De sereias vária ao inverso.

Navegamos, ó meus fraternos
Amigos, eu já sobre a popa
Vós a proa em pompa que topa
A onda de raios e de invernos;

Uma embriaguez me faz arauto,
Sem medo ao jogo do mar alto,
Para erguer, de pé, este brinde

Solitude, recife, estrela
A não importa o que há no fim de
um branco afã de nossa vela.


Portugal:

Camilo Pessanha

ESTÁTUA

Cansei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem cor, --- frio escalpelo,
O meu olhar quebrei, a debatê-lo,
Como a onda na crista dum rochedo.

Segredo dessa alma e meu degredo
E minha obsessão! Para bebê-lo
Fui teu lábio oscular, num pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.

E o meu ósculo ardente, alucinado,
Esfriou sobre o mármore correcto
Desse entreaberto lábio gelado...

Desse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado,
Sereno como um pélago quieto.

Cesário Verde

MANIAS!

O mundo é velha cena ensanguentada,
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.

Eu sei um bom rapaz, -- hoje uma ossada, --
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância quixotesca.

Aos domingos a deia já rugosa,
Concedia-lhe o braço, com preguiça,
E o dengue, em atitude receosa,

Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremente mão nervosa,
O livro com que a amante ia ouvir missa

Brasil:

Cruz e Sousa

ACROBATA DA DOR

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
salta, gavroche, salta, clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos, retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas d'aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço...

Alphonsus de Guimaranes

ISMÁLIA

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

The Nines



Eu assisti "O Número nove" (The nines - 2007), filme de estreia de John Augst, roteirista colaborador do Tim Burton nos seus três penúltimos filmes.
O filme não chega a ser Cinema com "C" maiúsculo, mas superou e muito minhas expectativas.

A trama é contada em três pequenas histórias, que se unem de maneira satisfatória no final.
A primeira nos mostra um ator problemático que ao ser confinado em prisão domiciliar, começa a viver situações insólitas e ver constantemente referências ao número nove; na segunda história um roteirista de cinema e televisão, que luta para por o seu programa no ar e vive um dilema ao ter que afastar a atriz principal, uma grande amiga; na terceira e última, na qual tudo será explicado, um criador de jogos de vídeo-game está com a família em uma área afastada, e ao detectar problemas no carro, sai à procura de ajuda e encontra uma misteriosa mulher que vai lhe fazer uma grande revelação.

O elenco é muito competente e é repetido a cada episódio do filme. O Ator Ryan Reynolds tem se mostrado um ator corajoso ao escolher filmes que o afastem do estereótipo de galã, e no filme está muito bem vivendo as três personagens principais. As atrizes Hope Davis e Melissa Mccarthy , que são as duas antagonistas no filme, equilibram muito bem o drama e o humor que seus papéis pedem.

O ponto negativo fica por conta da sua trilha sonora, ou falta dela, pois é quase inexistente. Um auxilio musical seria muito útil nos momentos misteriosos e dramáticos do filme. O filme também deixa a desejar no seu desenvolvimento, August parece estar incomodado na cadeira do diretor e se apressa a desatar os nós parecendo querer se livrar logo do filme. Pode ser talvez inexperiência.

O Filme tem ideias muito boas, fala sobre religiosidade, realidade e universos paralelos. Tem um roteiro fantástico e diálogos inspirados. Contém críticas ao show bussines americano e apresenta algumas personagens bizarras, que o aproximam " de "A Cidade dos Sonhos" do David Lynch, porém, enquanto esse não se preocupa em revelar nada, o outro apresenta suas justificativas e não decepciona.
The Nines está na grade da TV a cabo net esse mês, e para quem não tem, já está disponível em DVD.

Recomendo.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Igual - Desigual


Quando Drummond publicou o "a paixão medida" já era um poeta consagrado com seus 78 anos e não precisava provar mais nada para o mundo, mas vê se ainda a maestria e o senso estético que compunha seus poemas, utilizando ainda dos temas que lhe eram importantes como: o existencialismo, o ceticismo melancólico, o desencanto, acompanhado de ironia para a sociedade e seus costumes.

Igual-Desigual

Eu desconfiava:
todas as histórias em quadrinho são iguais.
Todos os filmes norte-americanos são iguais.
Todos os filmes de todos os países são iguais.
Todos os best-sellers são iguais
Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são
iguais.
Todos os partidos políticos
são iguais.
Todas as mulheres que andam na moda
são iguais.
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais
e todos, todos
os poemas em verso livre são enfadonhamente iguais.

Todas as guerras do mundo são iguais.
Todas as fomes são iguais.
Todos os amores, iguais iguais iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
Todas as criações da natureza são iguais.
Todas as acções, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais.
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou
coisa.

Ninguém é igual a ninguém.
Todo o ser humano é um estranho
ímpar.

Carlos Drummond de Andrade

Roxy Music


É desnecessário falar da influência do Roxy Music na História do rock. Sem eles não existiriam Duran Duran, Devo, Talking Heads e mais uma porrada de bandas que tiveram no conjunto um modelo a seguir.

Seu álbum de estréia, que se chamava Roxy Music é um dos melhores que eu ouvi na vida. O disco foi lançado de junho de 1972, foi produzido por Peter Sinfield do King Crimson, alcançou o Top Ten britânico no verão de 1972 chegando a 6 posição e foi muito bem recebido pela crítica.

Com a formação clássica da banda que tinha: Bryan Ferry (Vocais e teclados); Andy Mackay(saxofone e oboé);Phil Manzarena (guitarras); Paul Thompson (bateria e percussão); Brian Eno (sintetizadores e efeitos sonoros) é ao lado de For Your plasure os dois melhores da banda, coincidência ou não, os dois em que Brian Eno participou.

A forte tensão artística entre os Brians resultou de forma positiva no som da banda, Eno, que tinha formação clássica e era entusiasta da música concreta trazia para banda um toque experimental, colagens exóticas, ruídos quase musicais e sons futuristas, que junto às influências de Ferry: a música negra americana dos anos 50, 60 e o funk dos anos 70, resultavam em um trabalho original que até hoje pode ser ouvido com espanto tanto pela sua originalidade e pela sua qualidade.


capa do álbum

Ladytron - Roxy Music

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Arte Subversiva

Banksy é um artista de rua (eufemismo para grafiteiro) inglês, cuja identidade é desconhecida, mas isso não é importante, pois sua pintura tem identidade própria e originalidade de sobra.

Principal expoente de um movimento que vem levando a arte das ruas para as galerias, Banksy começou pintar em sua cidade natal, Bristol, Inglaterra. Com a fama migrou para locais mais inusitados como o muro que separa Israel da Cisjordânia (o bombástico desenho da empregada varrendo a sujeira para dentro da parede); um monumento Russo; Disneylândia; ou um muro qualquer em Berlim ou Nova Iorque. Museus famosos como o Louvre, o Tate, o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque apresentam seus trabalhos.


Provocativo e anárquico, Banksy já foi chamado de “versão punk de Marcel Duchamp" e nota-se influências da pop Art pela crítica ao consumismo e jeito que brinca com as figuras das culturas de massas em seus desenhos. O grafiteiro já teve trabalhos vendidos por até US$ 500 mil!

Sua obra é carregada de críticas nas camadas sociais e políticas, que a princípio, provocam um riso em quem o observa e depois uma reflexão mais aprofundada. Vemos essas características, por exemplo, nos grafites em que um soldado esta sendo revistado pela menininha, o guerrilheiro que joga um buquê de flores ao invés de uma bomba.





Mas aquela que lhe é mais representativa é aquela em que uma garotinha vietnamita nua chorando vem sendo acompanhada da figura do Ronald McDonald e do Mickey Mouse sorrindo e de mãos dadas os três. Se uma imagem vale que mais que mil palavras, essa certamente vale milhões.



Sua grande qualidade é pegar uma expressão popular e subversiva como a grafite e a transforma em arte sem o maneirismo e as polpas acadêmicas, outra herança da pop art.

Palmas para Banksy!


Mais imagens de Banksy:



Para ver mais: http://www.banksy.co.uk/