segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Boas Festas - até 2010



Bansky

Pitacos Futebolísticos Totalmente Racionais




Parabéns ao Futebol Carioca: até que enfim ninguém caiu esse ano.

Parabéns ao Flamengo: o único penta-campeão de brasileiros.

Parabéns ao Palmeiras: pela honrosa e disputadíssima classificação para a Copa sul-americana.

Parabéns ao São Paulo: rumo à sétima “Libertadores da América” consecutiva.

Parabéns ao Internacional: por mais um vice. Pelo menos esse não foi na mão grande (Alguém aí se lembrou de 2005)

Parabéns ao Grêmio: ferrar o rival, não tem preço.

Parabéns ao Grêmio 2: Fez valer a máxima “O que seria do medíocre, se não houvesse o fracassado para lhe aumentar a estima”.

Parabéns a Rede Globo de televisão: pela comemoradíssima cobertura da festa rubro- negra, obrigado também por me lembrar o quanto vocês e eu somos bairristas.

Parabéns ao Petckovic: um dos últimos moicanos no futebol.

Parabéns ao Adriano: boemia e futebol... tudo a ver.

Parabéns ao Diego Tardelli: por me mostrar que eu estava errado.

Parabéns ao Borges, ao Muricy, Celso Roth e ao Vagner Love: por me mostrarem que eu estava certo.

Parabéns ao Andrade e ao Ricardo Gomes: ex-craques que renovaram a tão viciada e estagnada classe “Técnico de futebol”.

Parabéns ao Luxa: por ferrar dois rivais esse ano, o Palmeiras e o Santos. Aliás, faz tem que o senhor não ganha nada, não é mesmo!?

Parabéns a Torcida do Coritiba: por mostrar o quanto um ser humano pode ser ridículo.

Parabéns à defesa do São Paulo: por tomar sete gols em dois jogos e afundar a chance do heptacampeonato.

E segue o jogo...



quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Álvaro de Campos

TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho genios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, para o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei que moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheco-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A Tempestade - Khalil Gibran

Pássaro e o homem tem essências diferentes.
O homem vive à sombra de leis e tradições por ele inventadas;
o pássaro vive segundo a lei universal que faz girar os mundos.
Acreditar é uma coisa; viver conforme o que se acredita é outra.
Muitos falam como o mar, mas vivem como os pântanos.
Muitos levantam a cabeça acima dos montes;
mas sua alma jaz nas trevas das cavernas.
A civilização é uma arvore idosa e carcomida,
cujas flores são a cobiça e o engano e cujas frutas
são a infelicidade e o desassossego.
Deus criou os corpos para serem os templos das almas.
Devemos cuidar desses templos para que sejam
dignos da divindade que neles mora.
Procurei a solidão para fugir dos homens, de suas leis,
de suas tradições e de seu barulho.
Os endinheirados pensam que o sol e a lua e as estrelas se levantam
dos seus cofres e se deitam nos seus bolsos.
Os políticos enchem os olhos dos povos com poeira
dourada e seus ouvidos com falsas promessas.
Os sacerdotes aconselham os outros,
mas não aconselham a si mesmos,
e exigem dos outros o que não exigem de si mesmos.
Vã é a civilização. E tudo o que está nela é vão.
As descobertas e invenções nada são senão brinquedos
com a mente se diverte no seu tédio.
Cortar as distâncias, nivelar as montanhas,
vencer os mares, tudo isso não passa de
aparências enganadoras, que não alimentam ocoração e nem elevam a alma.
Quanto a esses quebra-cabeças, chamados ciências e artes,
nada são senão cadeias douradas com os quais o homem
se acorrenta, deslumbrados com seu brilho e tilintar.
São os fios da tela que o homem tece desde o inicio
do tempo sem saber que, quando terminar sua obra,
terá construído a prisão dentro da qual ficará preso.
Uma coisa só merece nosso amor e nossa dedicação, uma coisa só...
É o despertar de algo no fundo dos fundos da alma.
Quem o sente não o pode expressar em palavras.
E quem não o sente, não poderá nunca conhecê-lo através de palavras.
Faço votos para que aprendas a amar as tempestades em vez de fugir

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A rua dos cataventos - Mário Quintana

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Canção Outonal - Federico Garcia Lorca

Hoje sinto no coração
um vago tremor de estrelas,
mas minha senda se perde
na alma de névoa.
A luz me quebra as asas
e a dor de minha tristeza
vai molhando as recordações
na fonte da idéia.


Todas as rosas são brancas,
tão brancas como minha pena,
e não são as rosas brancas
porque nevou sobre elas.
Antes tiveram o íris.
Também sobre a alma neva.
A neve da alma tem
copos de beijos e cenas
que se fundiram na sombra
ou na luz de quem as pensa.


A neve cai das rosas,
mas a da alma fica,
e a garra dos anos
faz um sudário com elas.


Desfazer-se-á a neve
quando a morte nos levar?
Ou depois haverá outra neve
e outras rosas mais perfeitas?
Haverá paz entre nós
como Cristo nos ensina?
Ou nunca será possível
a solução do problema?


E se o amor nos engana?
Quem a vida nos alenta
se o crepúsculo nos funde
na verdadeira ciência
do Bem que quiçá não exista,
e do mal que palpita perto?


Se a esperança se apaga
e a Babel começa,
que tocha iluminará
os caminhos da Terra?


Se o azul é um sonho,
que será da inocência?
Que será do coração
se o Amor não tem flechas?


Se a morte é a morte,
que será dos poetas
e das coisas adormecidas
que já ninguém delas se recorda?


Oh! sol das esperanças!
Água clara! Lua nova!
Coração dos meninos!
Almas rudes das pedras!


Hoje sinto no coração
um vago tremor de estrelas
e todas as coisas são
tão brancas como minha pena.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Pedaço de Mim - Chico Buarque



Oh,pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus

terça-feira, 17 de novembro de 2009

É ASSIM EM NÍNIVE - Ezra Pound

"Sim! Sou um poeta e sobre minha tumba
Donzelas hão de espalhar pétalas de rosas
E os homens, mirto, antes que a noite
Degole o dia com a espada escura.

"Veja! não cabe a mim
Nem a ti objetar,
Pois o costume é antigo
E aqui em Nínive já observei
Mais de um cantor passar e ir habitar
O horto sombrio onde ninguém perturba
Seu sono ou canto.
E mais de um cantou suas canções
Com mais arte e mais alma do que eu;
E mais de um agora sobrepassa
Com seu laurel de flores
Minha beleza combalida pelas ondas,
Mas eu sou poeta e sobre minha tumba
Todos os homens hão de espalhar pétalas de rosas
Antes que a noite mate a luz
Com sua espada azul.

"Não é, Ruaana, que eu soe mais alto
Ou mais doce que os outros. É que eu
Sou um Poeta, e bebo vida
Como os homens menores bebem vinho."

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Sinédoque, Nova York(2008)




Sinédoque é a figura de linguagem que consiste na substituição de um termo por outro havendo ampliação ou redução do sentido usual da palavra numa relação quantitativa. Nota do blogger.

Sinédoque, Nova York - é o nome do filme de estréia de Charlie Kaufman, o roteirista mais inventivo e original do atual cinema americano, atrás das câmeras. Kaufman se apropria da idéia da figura para mostrar o inferno interior de Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman, excelente como sempre) um montador teatral que fica décadas montando uma peça teatral que será seu trabalho definitivo, seu verdadeiro legado para a humanidade. Obsessivamente, Caden, constrói no teatro uma réplica da cidade que vive, e a peça passa a retratar sua vida. A ficção invade a realidade. Tanto que em determinado momento ele mesmo acaba sendo diretor e personagem da história. Em outro, contrata um ator para interpretá-lo e mais para frente um ator para interpretar o ator que o estava interpretando. Metalinguagem labiríntica ao extremo.

Confuso? Estranho? Bom, dependendo de um roteiro de Charles Kaufmam esses adjetivos são bem comuns. É verdade que sem o auxilio de um diretor para suavizar os símbolos hermético e difuso que habitam sua cabeça - como teve em Spike Jonze em “Quero Ser John Malkovich", e em " A Adaptação "; e em Michel Gondry em  "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" e "A Natureza Quase Humana" – o resultado do filme não foi genial, mas mesmo assim muito bom.

O filme conta com um elenco afinadíssimo e uma edição coerente com o desenvolver da narrativa, mas, o maior destaque, como era de se esperar, fica a cargo do roteiro. Rico em símbolos que discutem desde o “criar artísticos”, passando pela solidão e a incompleitude humana, a incapacidade de comunicação até o sentido (ou a sua falta) da vida e da morte. Tudo caoticamente e genialmente impregnado nos diálogos, nos saltos temporais inusitados e nos desfechos surreais.

Reconheço que tem que ter estômago preparado para aproveitar o prato preparado por Kaufaman. Principalmente no ¼ final do filme, cuja narrativa vai se abrindo até perder boa parte da sua unidade lógica. O filme apresenta-se aberto, fica totalmente abstrato e convida o espectador a desvendar os pesadelos egocêntricos, obsessivos e melancólicos de Caden. Não é para qualquer paladar. Eu como tenho estômago de avestruz, adorei!

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Inimigos Públicos - 2009



Não resta dúvidas que Michael Mann é um dos maiores artesãos do cinema de ação. Basta lembrar de filmes como “Fogo Contra Fogo” (o  tiroteio derradeiro do filme é show de bola) e de “O Último dos Moicanos” (o filme inteiro é espetacular) para termos certeza da afirmação acima. Por outro lado, pelo menos para mim, falta algo que compromete grande parte de seus filmes: um roteiro melhor elaborado e uma construção de personagem mais bem acabada. Sempre que termino de ver seus filmes saio com a mesma impressão de que poderia ter sido melhor.

Em seu mais recente trabalho, “Os Inimigos Públicos” (Public Enemies, 2009) é assim também: o filme tem um apurado visual estiloso sobre um roteiro acomodado e cheio de clichês.

A narrativa acompanha a os últimos anos do lendário gangster americano John Dillinger (Johnny Depp, em interpretação contida, mas eficiente), suas fugas mirabolantes e forçadas, a caçada imposta por um grupo especial federal liderado pelo agente Mervin Purvis (Christian Bale, em interpretação minimalista e apagada) até a sua morte pelas mãos de um dos agentes.

O roteiro escrito a 4 mãos por: Roman Bennet, Ane Biderman, Brtan Burroucg e pelo próprio diretor tenta criar uma simpatia entre os espectadores e a personagem de Depp, impregnando o gangster com o clássico estereotipo de bandido bonzinho e romântico. O roteiro ainda investe no açúcar, dando ênfase excessiva ao relacionamento entre o bandido e Billie Frechette (a bela e talentosa Marion Cottilard).

Louvável e admirável foi o resultado de Mann e Dante Spinotti (diretor de fotografia) ao captarem com as imagens do filme com câmeras digitais de alta definição em ambientes de pouca luz. As cenas noturnas e internas pareciam ballet noir e fantasmagórico. Estiloso!

No mais, tudo ok. Casting: ok! Trilha sonora: ok! Direção de arte: ok! E a sensação que poderia ter sido melhor: ok também!

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Manuel Bandeira

Paisagem noturna

A sombra imensa, a noite infinita enche o vale . . .
E lá do fundo vem a voz
Humilde e lamentosa
Dos pássaros da treva. Em nós,
— Em noss'alma criminosa,
O pavor se insinua . . .
Um carneiro bale.
Ouvem-se pios funerais.
Um como grande e doloroso arquejo
Corta a amplidão que a amplidão continua . . .
E cadentes, metálicos, pontuais,
Os tanoeiros do brejo,
— Os vigias da noite silenciosa,
Malham nos aguaçais.


Pouco a pouco, porém, a muralha de treva
Vai perdendo a espessura, e em breve se adelgaça
Como um diáfano crepe, atrás do qual se eleva
A sombria massa
Das serranias.


O plenilúnio via romper . . . Já da penumbra
Lentamente reslumbra
A paisagem de grandes árvores dormentes.
E cambiantes sutis, tonalidades fugidias,
Tintas deliqüescentes
Mancham para o levante as nuvens langorosas.


Enfim, cheia, serena, pura,
Como uma hóstia de luz erguida no horizonte,
Fazendo levantar a fronte
Dos poetas e das almas amorosas,
Dissipando o temor nas consciências medrosas
E frustrando a emboscada a espiar na noite escura,
— A Lua
Assoma à crista da montanha.
Em sua luz se banha
A solidão cheia de vozes que segredam . . .


Em voluptuoso espreguiçar de forma nua
As névoas enveredam
No vale. São como alvas, longas charpas
Suspensas no ar ao longe das escarpas.
Lembram os rebanhos de carneiros
Quando,
Fugindo ao sol a pino,
Buscam oitões, adros hospitaleiros
E lá quedam tranqüilos ruminando . . .
Assim a névoa azul paira sonhando . . .
As estrelas sorriem de escutar
As baladas atrozes
Dos sapos.


E o luar úmido . . . fino . . .
Amávico . . . tutelar . . .
Anima e transfigura a solidão cheia de vozes . .

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A Incomunicabilidade em Comum

common uncommunicability
(Pereira, Abujamra)

I been observin' you for a long time
you been observin' me for a long time too
I'd never say no to you
you would never say no to me
but we never talk each other
we never try
and life goes on in such a lonely way
that's just another case of common uncommunicability

Arraste-me para o Inferno (2009)



Depois de dar um “up” nas contas correntes administrando a franquia Spider-Man por quase dez anos, o americano Sam Raimi voltou ao que sabe fazer de melhor: filmes de terror trash cheio de humor negro.

Já vou logo avisando que “Arraste-me para o inferno” (Drag me to hell, 2009) não traz nenhuma inovação temática ou estética ao gênero horror, mas cumpre até certo ponto sua função: divertir e assustar, caso o espectador entre no clima que filme propõe: a autoparódia quanto gênero e a homenagem ao cinema horror gore dos anos 80.

O filme narra a história de Christine Brown (Alisson Lohman) uma agente de empréstimos de um banco que de olho em uma promoção ferra uma senhora sem muitos cuidados higiênicos, a Senhora Ganush (interpretada pela atriz Lorna Raver). A Velha não é apenas uma aposentada doente, e sim uma pessoa com conhecimentos em bruxaria e ao sentir-se humilhada pela jovem lhe roga uma maldição: em três dias, um demônio chamando lámia virá e levará a alma de Christine para o inferno.

A partir daí pouco importa a consistência do roteiro ou construção das personagens. Sam Raimi leva o filme para os seus domínios e mostra que ainda e "o cara". Cria gags nonsenses memoráveis (a cena da bigorna é bem ao estilo dos desenho do papa-léguas), muita escatologia,  violência exagerada e uma capacidade plástica para cenas ação, sustos e humor, tudo ao mesmo tempo.

Poderia ter sido melhor a escolha do casting. Alison Lohman é incapaz de transmitir qualquer emoção. Assim como o canastra Justin Long que desperdiça ótimas piadas com sua falta de timing.

Não da para encher a bola do filme, pois ele não encheu os olhos. Como também não da para encher de porrada, pois o filme não encheu o saco. Apenas assistível!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

À Procura de Eric - 2009



“Quando as gaivotas seguem o barco dos pescadores, é porque pensam que sardinhas serão atiradas ao mar.”.

A frase enigmática acima foi dita pelo temperamental e genial atacante francês Eric Cantona, em entrevista na ocasião de suspensão de 9 meses depois de agredir um torcedor em um jogo entre o Manchester United, time que o craque defendia versus o pequeno Cristal Place em 1995.

Cantona foi um jogador tão talentoso quanto indisciplinado. Seu talento resultou na formação e na consolidação do Manchester United como um dos times mais vencedores do mundo, por outro lado seus problemas abreviaram sua carreira e reduziram suas participações na seleção francesa.

Sob a sombra desse ídolo imperfeito, o genial cineasta britânico Ken Loach em companhia do roteirista Paul Laverty criaram uma dos filmes mais bacanas dos últimos anos: A Procura de Eric (Looking for Eric – 2009).

O filme narra de maneira emocionante e cômica a história de Eric Bishop(Steve Evets, sensacional), um carteiro em crise dado a ataques de pânico. Por conta de um desses ataques no passado, o carteiro, abandona a mulher com uma filha recém-nascida. Tal atitude atormenta ainda Eric que agora, no presente, foi abandonado por sua segunda mulher e ficou com a guarda de dois enteados. Para ajudar a filha a se formar, Eric precisar entrar em contato com a ex-mulher e as antigas feridas serão reabertas mudando a vida de todos os envolvidos.

Como na filmografia de Loach há todo um elemento social e o drama família, mas o diretor deixa um pouco de lado sua estética ultra-realista e abre espaço para aspectos mais delirantes. E é exatamente nesse espaço surrealista que entra Eric Cantona. Bishop torce pelos “red devils” e tem no jogador francês uma idolatria descomunal e quando se sente pressionado pela falta de comando em sua casa, a falta de comunicação com seus filhos, à possibilidade de reencontrar sua primeira esposa e o mau rendimento no trabalho, rouba um pouco de maconha de um de seus filhos e nessas “viagens” o atacante aparece para bater um papo com o carteiro e lhe dar alguns conselhos divertidos e misteriosos.

Um filme para quem gosta de futebol e de cinema, não necessariamente nessa ordem.

O filme entra em circuito comercial sexta-feira dia 06/11/2009, conforme a ascessoria de imprensa da Califórnia Filmes.

Perseguição (2009)



Patrice Chéreau é um realizador irregular. Para cada filme bom que assina o diretor, roteirista e ator francês - A Rainha Margot “La Reine Margot” (1994) e Gabrielle (2005) - finaliza outros menos inspirados e de menos valor artístico –Intimidade “Intimancy” (2001) e Seu Irmão “Son Fere” (2003).
Perseguição “Persecution” (2009), seu mais recente trabalho, infelizmente, encontra-se junto aos dois últimos citados.

O filme, que tem uma sinopse interessante, narra de maneira seca e amarga o relacionamento de Daniel (Romain Duris, fraquinho, fraquinho...), um homem de 35 anos que não tem um emprego fixo e vive de bicos, e de Sonia(Charlotte Gainsbourg, decepcionante), uma mulher bem empregada que viaja muito a negócios. O relacionamento dos dois não vai bem por conta da falta de comunicação entre o casal e chega ao limite quando aparece uma personagem sem nome, apenas conhecida como “o louco”, dignamente interpretado por Jean-Hughes Anglade, que se apaixona por Daniel e passa a persegui-lo.

O espectro das relações humanas é um material excelente para contar histórias, mas nas mãos de Chéreau caem na famosa “vala dos lugares comuns”. Daniel é o estereótipo de homem sensível que por baixo da aparência rude e do comportamento anti-social, reside um poço de boas intenções. Sonia também não apresenta grandes virtudes como personagem. E a famosa representação da mulher voltada para carreira que esquece da vida pessoal. Somente a personagem de Anglade apresenta um frescor curioso e original, mas é pouco para segurar o filme.

Repleto de diálogos longos e pseudocabeças, que saem do nada e vão a lugar nenhum. O filme é uma promessa que não se cumpre: Você passa o filme todo esperando acontecer alguma coisa e nada.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Fome de Viver (The Hunger) - 1983



O ano era 1983. O irmão mais novo – e menos talentoso - de Ridley Scott, Tonny, fazia seu debute no cinema americano. Fome de Viver (The Hunger), um filme de terror cheio de estilo que renovava o mito do vampirismo, cuja fórmula já apresentava um grande desgaste. O filme teve um desempenho abaixo das expectativas na época de seu lançamento, mas conquistou o status de cult e ainda hoje, 26 anos depois, mantém o charme, o impacto e a legião de fãs.


Deneuve e Bowie

Na trama vemos Miriam Blaylock (Catharine Deneuve, belíssima), uma vampira milenar que passa os dias tocando piano, arrumando amantes e rasgando-lhes os pescoços atrás de sangue, claro que com muita classe e estilo. Ela tem um companheiro tanto na música como na matança, John Baylock ( David Bowie). John não é tão velho quanto Mirian, mas já tem alguns séculos de idade e diferente da parceira, em uma certa manha, começa apresentar sinais de envelhecimento. Preocupado, procura ajuda com uma médica especialista em casos de envelhecimento, a Doutora Sarah (Susan Sarandon).
Mas não é só John que se interessa pela médica. Miriam, ao perceber que o caso de John é irreversível encontra em Sarah uma substituta para o amante, que envelhece em uma velocidade aterrorizante.


Deneuve e Sarandon

Com um trabalho de elenco excelente: Deneuve está prefeita com sua beleza gélida, distante e sedutora; Sarandon também dá um show emprestando inconformismo, fragilidade e força na medida que sua personagem pede; e David Bowie, que consegue um resultado surpreendente passando toda melancolia silenciosa de uma pessoa que viveu séculos e de repente, em um único dia, vê seu corpo envelhecer sem poder fazer nada.


Deneuve e Sarandon

A maioria das cenas do filme se concentra na mansão de Mirian, que em conjunto com a fotografia escura e a trilha sonora melancólica – Bauhaus, Schubert entre outros - criam uma atmosfera soturna e fantasmagórica.

Assim como a direção de arte elegante, a fotografia gótica, trilha sonora sorumbática e o roteiro spleen-romântico, a sensualidade do filme também contribuiu para formação da aura cult que o filme carrega até hoje. É inesquecível, embora hoje em dia nem tão ousadas, as cenas protagonizadas pela dupla Denevue /Sarandon. Lembro que nos meus tempos de adolescente, eu e meus amigos sonhávamos em encontrar uma dupla de vampiras como aquela.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O Mundo Imaginário Do Doutor Parnassus - Terry Gillian




Sempre foi assim. Desde os tempos do genial Monthy Python, a matéria prima principal do trabalho do americano Terry Gillian, sempre foi a fantasia. Todos os seus trabalhos como diretor, ainda na trupe inglesa, como tresloucado “Monthy Pynthon Em Busca do Cálice Sagrado” de 1971 (Monty Python and the Holy Grail), posteriormente, passando pelos excelentes e cults “Brazil” de 1985, “As Aventuras do Barão Munchausen” de 1988(The Adventures of Baron Munchausen), “O pescador de ilusões” de 1991 (The King Fisher), “Os 12 Macacos” de 1995 (Twelve Monkeys), e “Medo e delírio” de 1998 (Fear and Desire), o mundo que o diretor apresenta é um lugar onírico, barroco e surreal que esbanja criatividade e poesia. Adoro seu trabalho!

Seu mais novo filme, O Mundo Imaginário Do Doutor Parnassus (The Imaginarium of Dr. Parnassus) além do humor delirante e da sutil critica ao modo de vida acelerado ocidental, possui essa qualidade excepcional, tudo no filme, desde os figurinos criativos e extravagantes - a direção de arte onírica - o trabalho do elenco quase caricato - leva o espectador a uma viagem mágica à fantasia.


Na trama conhecemos uma trupe de teatro mambembe formada pelo: Doutor Parnassus (Cristopher Plumer), Valentina (Lily Cole), filha de Parnassus; Percy (Verne Troyer) e Anton (Andrew Garfield) que percorrem as ruas de Londres oferecendo diversão e fantasia para os espectadores. Entretanto, nem tudo está bem para o grupo. Parnassus, um homem com milhares de anos de vida que perdeu uma aposta com Nick, o diabo (Tom Waits), e tem que entregar a alma de Valentine.


Junta-se a trupe Tony (primeiramente interpretado por Health Ledger, morto no meio das filmagens e depois substituído pelos atores Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell – uma puta sacada, dado o aspecto delirante do filme), um golpista perseguido pela máfia que perde a memória após uma simulação de suicídio. O malandro aparece na vida do grupo em boa hora, pois o diabo sugere outra disputa com Parnassus para ver quem consegue mais almas, e Tony vai usar toda sua lábia para ajudar o imortal na peleja com o tinhoso.

Mais que filmes, Gillian oferece experiências visuais de beleza plástica incomuns. Toda sua equipe técnica parece ter acesso aos seus delírios. Principalmente a fotografia de Nicola Pecorini, os efeitos especiais de Mike Vézina e a direção de arte de Dan Hermansen e Denis Schnegg.

O filme é bom e apaga a má impressão que Gillian tinha deixado com o seu último e desnecessário: Contraponto de 2005. Quem se permitir, fará uma bela viagem ao mundo louco e delirante do Diretor!


segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A Fita Branca / 2009 - Michael Haneke



A visão que o diretor austríaco Michael Haneke tem da humanidade não é das mais animadoras e nem das mais confortáveis. Seus filmes são um mergulho impactante nas camadas mais obscuras da personalidade humana. Todos os mantos e as máscaras sociais são desmontados na frente da sua câmera, o homem, tanto individualmente como coletivamente é reduzido a sexo e estômago. Foi assim com seu ultraviolento “Violência Gratuita” (Funny Games de 1997), o demolidor “O código desconhecido” (Code Inconnu - Récit Incomplet de Divers Voyages de 2000), com o seu filme de amor sado-masoquista "A professora de piano" (La Pianiste, 2001) e o intrigante Cachê de 2005.
Entretanto, Haneke tem um grande diferencial para a maioria dos cineastas modernos que compartilham esse mesmo niilismo quanto ao ser humano: o austríaco consegue extrair poesia dessa temática. Não uma poesia bonitinha e colorida, mas uma que espanta e incomoda.

A fita branca” (Das weisse band) de 2009, mais novo trabalho do diretor, tem tudo isso é mais um pouco. A narrativa se passa em um povoado prussiano no inicio do século passado, mas exatamente em 1913 - ano que precede o início da Primeira Guerra Mundial - e é um estudo para a natureza maléfica do homem. O filme não é somente uma alegoria para a formação da origem do mal daquele país que protagonizou uma dos episódios mais sangrentos e bárbaros da história moderna, o nazismo e suas consequências, mas para a humanidade em geral.

O filme se passa em uma aldeia alemã que tira a subsistência na agricultura, seus habitantes têm a vida regida pelos severos preceitos morais do puritanismo protestante e as relações são dadas de maneira vertical e autoritária entre os pais e os filhos; entre os homens e as mulheres e entre os aristocratas e os camponeses.

A narrativa se da através de um jovem, o professor da vila, que vai investigando e relatando os misteriosos e cruéis atos que se passam naquele fatídico verão, transformando a rotina de todos os habitantes da vila e instaurando o medo na comunidade. O próprio narrador avisa que não têm certeza de todos os fatos e sua investigação se torna inútil, a passo que ele não descobre a identidade dos agressores, mas a mensagem de Haneke é clara: a maldade está ao alcance de todos e é fruto de fatores como a repressão (seja ela de qualquer forma), intolerância e o autoritarismo. A caracterização das crianças da vila no filme é bárbara, por um lado são irritantemente cordiais e atenciosas, por outro são diabólicas e cruéis. Haneke negou ser uma personificação da formação daqueles que viveram na época do nazismo apesar da história se desenvolver na Alemanha e a época coincidir, mas dotado de sutileza e inteligência, Haneke, não induz e não decreta nada, apenas faz o espectador pensar a respeito.


A estilosa e bem cuidada fotografia em preto & branco e a quase ausente trilha sonora – possa estar enganado, mas no filme só há músicas incidentais – contribuem para o clima opressivo do filme. Bem como a direção de arte perfeita e a direção de atores competente (destaque especial para as interpretações infantis) contribuem para a sua elegância. Há ecos de “O Ovo da Serpente” de Bergaman no filme, mas a crueza de Haneke e mais severa e direta. A fita branca é uma obra prima da maldade e da crueldade!

O Filme venceu a palma de ouro em Cannes esse ano e está sendo exibido na mostra internacional de São Paulo. Não pretendo ver muitos filmes esse ano na mostra, mas já tenho a minha listinha e duvido que outro filme desse ano me surpreenda mais que esse aqui.

Filmão!



quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Frederico Garcia Lorca


O POETA PEDE A SEU AMOR QUE LHE ESCREVA

Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.
O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.

Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de mordiscos e açucenas.
Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Um Rock and Roll para Murilo Mendes

"O menino experimental benze o relâmpago."
Murilo Mendes em “o menino experimental”

Entre deus e o não-deus - demônio?
Entre o sonho e o não-sonho - realidade?
Entre o fim e o não fim - começo?
Entre o tudo e o não tudo - nada?
Dança sem pressa o menino experimental.

(Roberto Valerio Jr.)

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Teorema da incompletude - Manoel de Barros

A maior riqueza do homem
É a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou, eu não aceito.
Não agüento ser apenas um
Sujeito que abre
Portas, que puxa válvulas,
Que olha o relógio, que
Compra pão às 6 horas da tarde,
Que vai lá fora,
Que aponta lápis,
Que vê a uva, etc, etc,
Perdoai
Mas eu preciso ser outros
Eu penso renovar o homem usando borboletas

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A Boca do Poeta - um poema para Manoel de Barros

"O poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina"
(Manoel De Barros)

Na boca do poetas vivem idéias
Que sonham serem verdadeiras:
Doces feitos de amoníaco e carne decomposta,
Macias como uma saudade ígnea
Que sofrem a ilusão da pérola.

A boca do poeta inventa auroras;
Nascimentos de estrelas;
Caixas que guardam o nada;
Roupas de gala para insetos;
E por afim, apocalipses em tecnicolor.

A boca do poeta é astuta,
E desengole pestes que bailam.
Aplica golpes de capoeira,
E dança tango com o universo
Ao som de uma música que nunca nasceu.

A boca do poeta não arruma dinheiro,
Ou ensina os meninos natimortos a rezarem.
Não decreta a medida quântica.
Não destila a ética, nem adocica a moral.
Mas cria a fumaça do açúcar, matéria essa que inventa o medo, a dor e o amor.

A língua do poeta arde refrescantemente.
Como o abraço de uma estrela imortal.
É lar de besouros, batráquios e formigas,
Seres que falam a língua das águas.

A Boca do poeta, por fim,
Cria desfile de imagem translúcidas.
Inventa a palavra esquecida
Que tenta explicar o nada falando tudo,
Ou que explica tudo falando nada.

O poeta jamais acredita em sua boca!

Roberto Valerio Jr.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Johnny Cash




Johnny Cash foi à fênix da música popular americana. O homem de preto nasceu para a música nos longínquos anos 50, em que foi um dos precursores e criadores do rock and roll e do rock a billy. Morreu algumas vezes, a partir de meados dos anos 60: quando foi preso por tráfico de drogas, quando tentou suicidar-se e quando se isolou para vencer o vício das drogas, e para cada morte, tal qual o pássaro mitológico, Cash se erguia das cinzas com muita luta e muita integridade e lançava discos que retratavam toda essa luta e esse sofrimento. Que é o caso do clássico “Johnny Cash at Folsom Prison” de 1968, gravado dentro da prisão estadual de Folson e um os melhores álbuns ao vivo de todos os tempos.

No começo dos anos 90, Cash, desligou-se da Columbia Records e quando todos esperavam que criativamente o homem de preto estivesse morto, renasceu novamente ao firmar parceria com o produtor Rick Rubin do selo independente American Records e lançar a série “American”.

Composta por 4 discos, a série tinha a proposta de lançar Cash re-gravando músicas de artistas dos mais variados estilos, junto com algumas musicas antigas do compositor e poucas músicas novas.


American Recording foi lançado em 1994 e fez o compositor fazer as pazes com a critica e com o público. Com covers de Kris Kistoferson “Why my lord”, Leonard Cohen “Bird on a wire”e Tom Waits “Down there by the Train” e outras canções de pórpia autoria.



Unchained, de 1998 trazia canções de Beck “Rowboat”; Soundgarden “Rusty Cage” e Tom Petty “ Southern Accents". Petty ainda participou como músico nas gravações que teve a participação de Flea (baixista do Red Hot Chili Pepers) e Mick Fleetwood do Fleetwood Mac.


American III: Solitary Man - foi  lançado em 2000 é o terceiro álbum da série e contém músicas de Neil Dimond “Solitary men”; U2 “One” e Nick Cave “The Mercy Set". Cash ganhou o gramy para interpretação masculina para "Solitary man".


O quarto e último álbum da série é o melhor de todos como também um dos  melhores na década:. American IV: The Man Comes Around. Lançado em 2002 foi o último disco lançado por Cash. No álbum, grandes interpretações do cantor para músicas de:  Nine Inch Nails “Hurt"; Depeche Mode “Personal Jesus”; Eagles “Desperado”; Beatles “In My Life” e “The Man Comes Around”, de sua própria autoria.

A vídeo-clipe de Hurt é uma das coisas mais emocionantes e comoventes que já vi na vida. Jonnhy Cash colocou muito sentimento em sua interpretação da música quase biográfica, pois os versos melancólicos e tristeza da melodia de Trent Reznor parecem e muito com a vida do Homem de preto.

Abaixo o video-clip e a letra da música.





Hurt
Johnny Cash
Composição: Trent Reznor

I hurt myself today
To see if I still feel
I focus on the pain
The only thing that's real
The needle tears a hole
The old familiar sting
Try to kill it all away
But I remember everything

(Chorus)
What have I become?
My sweetest friend
Everyone I know goes away
In the end
And you could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt..

I wear this crown of thorns
Upon my liar's chair
Full of broken thoughts
I cannot repair
Beneath the stains of time
The feelings disappear
You are someone else
I am still right here

(Chorus)
What have I become?
My sweetest friend
Everyone I know goes away
In the end
And you could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt
If I could start again
A million miles away
I would keep myself
I would find a way

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Roy Lichtenstein

A pop art foi um movimento artístico que promovia uma discussão à cerca do conceito de arte e da cultura de massa, re-introduzindo o cotidiano e o popular na arte. Além de renegar o expressionismo abstrato, que dominava o cenário mundial desde o inicio do século passado.

O movimento nasceu na Inglaterra em meados dos anos 50, mas foi nos EUA que alcançou sua mais representativa fase. Roy Fox Liechtenstein nasceu em Nova Iorque, em 1923 e foi um de principais nomes do movimento.

Dentro dos preceitos estéticos do movimento, o artista desenvolveu um estilo original, baseado nos desenhos de historias em quadrinhos, o que preenche sua obra de nostalgia e elegância, apesar de tecnicamente conter traços e cores simples.

Os preceitos temáticos da pop art também são claros na sua obra. A exploração dos signos massificados, como os cartoons e a linguagem publicitária, que  são expostos para contestar a linguagem, as formas artísticas e o consumismo.

Linchtenstien morreu em nova Iorque em 1997.

Para conhecer mais: http://http://www.lichtensteinfoundation.org// (em inglês)



Forget It! Forget Me! - 1962


Drowning Girl - 1963


In the Car - 1963


Crying Girl - 1964


World's Fair Mural - 1964


Grrrrrrrrrrr! - 1965


 Atom Burst, 1966

Alka Seltzer (drawing) - 1966

Artist's studio The Dance - 1974

Stepping Out - 1978

Interior With Water Lilies - 1991

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Algo que Você Precisa Saber - 2008





Depois de umas semanas vendo filmes pesados e obscuros como o terror sueco “Deixa ela entrar”; a comédia de guerra do Tarantino, “Bastardos Inglórios”; e o suspense meia boca do afetado Domenic Sena “Terror no ártico”, nada melhor que uma comédia delicada e inteligente para ficar mais leve. O filme “Algo que Você Precisa Saber (Quelque Chose a Te Dire)”, produção francesa escrita e dirigida pela belga Cécile Telerman cumpriu bem essa função.

O filme é um mergulho na fixação francesa de entender, ou de tentar, as relações humanas dentro de uma das suas mais representativas instituições, a família. Assim nos é apresentada a família Cellier, perfeita por fora e cheia de falhas por dentro. Ou seja, a verdadeira família-margarina... Todos à mesa, reunidos para as refeições onde, além dos pratos (normalmente à base de arroz) são apresentados as dores e os podres de cada membro... Coisas bem mais indigestas.

Os seus componentes são apresentados um a um, sempre sob alfinetadas de Mady (Charlotte Rampling em excelente atuação) a poderosa mãe, que dispara contra tudo e todos.
Nada é capaz de satisfazê-la... Antoine (Pascal Elbé) o filho falido, casado com uma nora inteligente, porém, feia em sua concepção. Alice (Mathilde Seigner), a filha-problema, deprimida, artista que vive às voltas com drogas e homens que mal conhece...
Annabelle (Sophie Cattani) a caçulinha, uma enfermeira que tem um amor à profissão admirável e adora ler a sorte da família no tarot...Henri (Patrick Chesnais) o marido, recém-aposentado que vira um estorvo dentro de casa...Mas é o bombeiro mais solicitado, devido às suas relações influentes, para apagar os incêndios familiares....

Tudo ia muito bem, sob a maquiagem materna que insistia em esconder o sol com uma peneira, até que por uma dessas coincidências da vida e dos filmes, surge um segredo do passado materno que abala toda a estrutura familiar...
Jacques de Parentis (Olivier Marchal), um policial em crise existencial e um enorme buraco na alma surge no caminho da filha-problema, trazendo luz para a vida da artista e iluminando a sua própria. Porém, consigo também trouxe o tal segredo. E tudo muda. Na vida de ambos e na vida de toda a família.
Inicia-se aí um rocambole de detalhes, cenas, diálogos que apesar de confusos em alguns momentos, não deixa a desejar e conduz o filme a um desfecho sensível e confortável.

Bastardos Inglórios - 2009




Quentim Tarantino é, para o bem ou para o mal, um diretor de cinema autoral. Todos os seus filmes apresentam uma unidade estética e temática que lhe são características e são facilmente observadas em seu trabalho: a ultraviolência, as citações pop e cinematográficas e o humor corrosivo são como uma assinatura do diretor. Bastardos inglórios (Inglorious Bastards – 2009), seu novo filme tem tudo isso, para o bem e para o mal.

O filme, bem ao seu estilo, apresenta três fios narrativos: o primeiro em 1941, ano em que a França é invadida pelos nazistas e o Coronel Hans Landa (Cristoph Waltz) aborda um fazendeiro à procura de judeus escondidos. Habilmente, o militar encontra os foragidos e mata todos, menos a jovem Shossana Dreyfuss (Mélanie Laurent) que consegue escapar. O segundo foco narrativo mostra a formação dos bastardos inglórios, um grupo especial de soldados americanos de origem judaica liderados pelo Tenente Aldo (apache) Raine (Brad Pitt) que se instala na Europa para tocar o terror entre os nazistas. O terceiro foco junta os todos em um cinema onde ocorrerá uma premiere de filme dirigido pelo próprio Goebbels, onde estará a cúpula nazista incluindo o ditador alemão, Adolf Hitler. Tanto Shossana quanto os bastados inglórios estarão lá para matar a cúpula e acabar com a guerra.

A direção de elenco é, como de costume em seus filmes, excelente. Crstoph Waltz cria uma das personagens mais maquiavélica e divertida do cinema. Pitt e seu caricato Aldo também divertem. O ator parece imitar a boca de Marlon Brando - Dom Corleone em o Poderoso Chefão. Diane Kuger, B.J. Novack,, Daniel Brühl e Mike Myers, em pequena participação completam o elenco.

Bastardos inglórios é o filme mais bem acabado visualmente do diretor. Se Tarantino já em seus filmes anteriores mostrava todo um primor estético em seus enquadramentos e jogos de câmera, nesse mostra uma notável evolução plástica, tendo um cuidado maior com a fotografia, as locações e o figurino.

Se plasticamente o diretor apresenta uma grande evolução, seu texto parece acomodado. Tudo parece desculpa para o diretor mostrar seu talento para diálogos exóticos, citações pop e para criar situações bizarras. Embora tenha momentos excelentes: principalmente os que envolvem o protagonista Pitt e seu antagonista Waltz; e a imensa homenagem que o diretor faz ao cinema, mas no geral a trama é rasa e não convence. A caracterização de algumas personagens e mergulham em clichês, como o americano médio caipira, ou o gentleman inglês ou o oficial nazista malvado. Podia ser melhor.

O filme não chega a decepcionar, mas também não arranca suspiros. Um Tarantino menor.



O elenco e o diretor ao centro

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Deixa Ela Entrar - 2008


Usar o mito do vampirismo como paralelo das dificuldades da vida adolescentes é a grande sacada de filme sueco: Deixa ela Entrar (Låt den Rätte Komma In, 2008) do diretor Tomas Alfredson. Apesar da temática semelhante à saga emo “Crepúsculo”, o filme europeu esbanja qualidades cada vez mais raras no cinema americano: a originalidade e a inteligência.

Com um roteiro que passa longe de lugares comuns, tanto no desenvolver e no tratamento que dá a narrativa e nas conclusões apresentadas; quanto na construção das personagens, que transitam de maneira inteligente entre a fantasia, por conta do viés sobrenatural da historia; e por conta do realismo, por serem absolutamente convincentes.


O filme conta a historia da amizade entre dois jovens de 12 anos: Oskar (Kåre Hedebrant) um garoto solitário que vive apanhando de uns colegas da escola e Eli (Lina Leandersson), uma vampira que apesar de viver a muito tempo, permanece presa em um corpo adolescente. Eli muda-se com um guardião (uma personagem curiosíssima, pois não fica claro sua origem ou sua real identidade, se é pai da garota ou servo), para o prédio que o garoto mora e logo percebe que ele compartilha da mesma solidão que ela. E entre esses dois outsiders se estabelecerá uma sincera amizade cheia de cumplicidade e afeto.

Outro acerto do roteiro, escrito por John Ajvide Lindqvist, é a aposta na inteligência do telespectador. O filme não oferece soluções fáceis para o entendimento do filme. Algumas pistas são reveladas, provocando e incitando a quem assiste.


Ambientado nos subúrbios gelados de Estocolmo e datado em meados dos anos 80, “Deixe ela entrar” apresenta uma fotografia que enfatiza o branco da neve e o sangue das situações violentas que harmonizam com o clima opressor da história.

O filme fez um grande sucesso no ano passado, quando rodou o mundo entre festivais e mostras de cinema e já teve os direitos adquiridos por um estúdio americano, que pretende fazer um remake e começa a ser filmado no mês que vem e será chamado: (Fish Head)??? Bom... Se conseguirem manter 50% da inteligência e da originalidade, Será melhor que a maioria das produções desse tipo .

Murilo Mendes

Abismo


Todos me indicam o caminho contrário.

Bebi na música
E fechei-me a sós com o sonho.

Quando acordei
Haviam destruído os gramafomes
E a treva anterior envolvia a cidade.

O mar passava nos braços
Uma pulseira de mortos.
Abri um pé de magnólia
Dando sombra ao Minotauro.

Desde então
Um peito é zona de guerra,
Fiz um eixo com as estrelas.

A poesia em pára-quedas
Tanto desce como sobe

sábado, 10 de outubro de 2009

10 haicais eróticos

por Roberto Valério Jr.

Putas radioativas
Em noites de lua orgásticas
Gozam cores ativas.

Lábio não lábia.
No canto do encanto.
O falo vos fala...

Lágrimas a brilhar,
Os segredos do teu rabo
Agora vou provar!

Carne da maçã,
Fragrância do pêssego e o
Encanto da romã.

Porra derramada
Faz rio no seu corpo e escorre
Entre pernas amarradas.

Vulva perfumada
Emite abraços avassaladores;
Dor abençoada!

Fim do dia,
Dois corpos se tocam:
Escuro arrepia.

Banco é forte!
O gozo sobe e o sangue desce
Vermelho é sorte?

A dica e de Basho:
- Queres uma boa e venerável trepada?
- Lua de outono.

No escuro molhado
O vermelho me devora
Pulsátil e gozado.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Arnaldo Baptista



A Vida de Arnaldo pós Mutantes é digna de um filme: cheia de dramas, acontecimentos traumáticos e no fim redenção.

Em 1974, logo após sua saída do grupo, lança outro clássico e um dos grandes e mais relevantes discos da música brasileira, “Loki?”. O álbum foi gravado numa velocidade impressionante, as idéias pareciam pular para fora e Arnaldo tinha urgência em gravá-las.



Cheio de letras pessoais, delirantes e melancólicas, o músico parecia tentar exteriorizar todas suas magoas e suas obsessões. O clima do disco e de lamento e dor, ora romântico: boa parte das letras parece ser dirigida à Rita Lee, sua ex-esposa e ex-parceira. Ainda nas letras a traços dos delírios de Arnaldo, suas neuroses sobre viagens interplanetárias, no tempo e suas criticas a sociedade de consumo, suas crises existenciais e desilusões. Um trabalho cheio de imagens fortes, psicodélicas e repletas de sentimento.


Do ponto de vista musical o disco assusta pela sonoridade alcançada. E bem verdade que há alguns problemas técnicos, mas toda a excentricidade de Arnaldo, seu talento para loucura, seu ecletismo fazem de Loki? Um disco impressionante! Arnaldo parece possuído ao tocar seu piano. O disco conta com arranjos do Maestro Rogério Duprat, alem de Arnaldo que tocou pianos e violão teve a participação de Liminha nos baixo, Dinho Lemos na bateria e Rita nos vocais.

O disco é aberto por “Será que eu vou virar bolor”, música cheia de ironia e medo. Depois vem a autobiográfica “não estou nem ai” em que Arnaldo confessa: "Ontem me disseram que um dia eu vou morrer / Mas até lá eu não vou me esconder / Porque eu não estou nem aí pra morte / Não estou nem aí pra sorte / Eu quero mais é decolar toda manhã”.Segue com a irônica: "Vou Me Afundar Na Lingerie”; e com a instrumental: Honky Tonky, música que Arnaldo mostra além de sua capacidade de composição, toda sua destreza como pianista. Depois ainda viria a psicodélica “Cê tá pensando que eu sou Loki”, a desesperada: “Desculpe”; a critica: “Navegar de Novo”; a mais bela canção de amor do rock brasileiro: “Te amo podes crer” e fecha o disco acústica “é Fácil”.





Depois de loki. Os problemas de saúde de Arnaldo se agravaram. Uma forte depressão aliada há um consumo abusivo de drogas pesadas fizeram o músico ser internado diversas vezes nos próximos anos, seu projeto artístico foram perdendo prestigio e confiança. Formou a Patrulha do Espaço, exercitou seu lado hard-rock e gravou “O Elo Perdido” em 1977 e "Faremos uma noitada excelente" em 1978, mas somente lançados em: 1987 o segundo e 1988 o primeiro.




Em 1980, o mutante grava Singing alone. Disco que Arnaldo defende suas convicções musicais, seu apreço obsessivo pela amplificação valvulada, e sua preferência pela guitarra Les Paul e o baixo GS ambos da marca Gibson. Preferências à parte o disco é excelente. Arnaldo se reinventa novamente. Sai do estado visceral e opressivo de loki e mergulha em divagações e loucuras de ordem metafísica e cientificas. O disco contém grandes músicas como: "I fell in love one day, O sol, Bomba H sobre São Paulo, Jesus, come back to earth, Cowboy, Ciborg, corta a jaca e Coming throuth the waves of science”.

O disco só seria lançado em 1982, pois naquele mesmo ano Arnaldo é internado em um hospital por conta de uma séria crise e tenta o suicídio, saltando do de uma das janelas do quarto andar da ala psiquiátrica. Arnaldo fica em coma por meses e o acidente lhe deixa algumas seqüelas permanentes.






Os partir do final do 80, Arnaldo é “redescoberto” por um novo público. Sai um álbum tributo chamado: Sanguinho novo, que artistas como: Akira S, & as garotas que erraram, Sepultura, Fellini, 3 hombres, Vzyadoq Moe, Paulo Miklos, entre outros que  cantam clássicos dos mutantes e de Baptista.



Nos 90 Arnaldo rompe todas as expectativas quanto sua nova limitação física (os médicos afirmaram que ele jamais comporia novamente) e lança Let in bed. O disco tem tudo que se espera de Baptista: Letras geniais e um som com requintes psicodélicos. John Ulhoa do Pato Fu produziu o disco e apresentou uma nova tecnologia ao mestre, que criativamente e honestamente criou um trabalho que: se não genial quanto no passado, honesto e corajoso.
O álbum tem músicas boas, como: a tribal Gurum Gudum, Everybody Think I´m Crazy, LSD, e músicas excelentes como: To Burn or not Burn, Deve Ser Amor e Bailarina.

 


No ano passado o diretor Paulo Henrique Fontanelle lançou “loki- ”Arnaldo Baptista", cinebiografia do mutante. O filme circulou entre os mais importantes festivais de cinema do Brasil, ganhando prêmios de escolha popular no Festival do Rio e na 32ª Mostra internacional de Cinema de São Paulo.




Arnaldo Dias Baptista é um dos maiores gênios da música popular brasileira! É muito bom ver uma pessoa dessa importância receber as devidas homenagens e reconhecimento ainda em vida é maravilhoso e muito especial. Ele ferrou minha cabeça (no melhor sentido possível) e a de muita gente e fará isso por muito tempo, pois ele é aquele tipo de artista que o tempo não limita, sua obra é antemporal. Baptista tem uma obra inventiva, criativa, pessoal, honesta e poética.

Arnaldo mergulhou fundo na loucura e voltou para nos mostrar o paradoxo que é: um lugar assustador e triste ao mesmo tempo belo, mágico e feliz.

Arnaldo Baptista em "Não estou nem aí" -